16/03/2004

Um pequeno objeto gelado é encontrado além de Plutão e o Sistema Solar parece maior



Por John Noble Wilford

Bem além de Plutão, onde o Sol é apenas um ponto de luz pálida, um mundo congelado foi encontrado nos limites escuros do Sistema Solar. Os astrônomos dizem que é claramente o objeto mais distante conhecido orbitando o Sol e o maior já detectado desde a descoberta de Plutão, em 1930.

Com uma descoberta, ao que parece, o Sistema Solar se tornou muito maior, com os vislumbres de seu alcance fornecendo um senso de realidade ao que antes era uma fronteira remota de hipótese. E talvez também tenha se tornado mais estranho.

"Não há absolutamente nada conhecido igual a ele no Sistema Solar", disse o dr. Michael Brown, um astrônomo do Instituto de Tecnologia da Califórnia (Caltech) que liderou a equipe da descoberta, sobre o objeto recém-encontrado.

Mas em uma coletiva de imprensa por telefone na segunda-feira, de Pasadena, Brown acrescentou: "Nossa previsão é que haverá muitos, muitos outros objetos como este sendo descobertos nos próximos cinco anos, e alguns deles provavelmente serão maiores".

Os pesquisadores, cujas observações foram apoiadas pela Nasa, disseram que o objeto, tratado como planetóide, é extremamente frio (-240º C) e particularmente vermelho, provavelmente mais do que qualquer outro corpo do Sistema Solar, exceto Marte. Eles não sabem exatamente o motivo, e também têm pouca idéia da composição do objeto. Poderia ser uma mistura primordial de rocha e gelo.

O grupo de Brown propôs batizar o objeto de Sedna, segundo a deusa inuit que criou as criaturas do mar do Ártico. Por ora, ele está designado como 2003 VB12. O primeiro avistamento foi feito em novembro passado no Observatório Palomar, operado pela Caltech.

A distância do Sedna inspirou os cientistas a conjecturarem sobre o quanto a descoberta pode lhes indicar o alcance do Sistema Solar. O planetóide está a mais de três vezes a atual distância de Plutão do Sol, normalmente considerada o limite do sistema planetário. Mas ele viaja em uma órbita altamente excêntrica, levando 10.500 anos para dar uma volta em torno do Sol.

Cálculos dos pesquisadores mostram que o Sedna, agora a relativamente próximos 13 bilhões de quilômetros da Terra, pode chegar a até 135 bilhões de quilômetros, em uma região supostamente populada por corpos gelados pequenos demais para serem observados pelos telescópios.

Brown disse que Sedna "está tão distante de tudo que deve ser o primeiro membro observado da suposta Nuvem Oort, uma região de cometas na metade da distância da estrela mais próxima".

Em 1950, um astrônomo holandês, Jan Oort, previu a existência de um enxame de corpos gelados em algum ponto além da órbita de Plutão. Imagina-se que a nuvem cerque o Sol e se estenda até metade do caminho até a estrela mais próxima, Proxima Centauri.

A Nuvem Oort é considerada um depósito de cometas que são atraídos na direção do Sol. Brown disse que apesar do risco ser nulo, "se este objeto penetrasse no interior do Sistema Solar, seria o cometa mais espetacular já visto".

Mas outros astrônomos questionaram se Sedna deve ser considerado parte da Nuvem Oort. Em teoria, o limite interno da nuvem estaria muito além do ponto mais distante da órbita de Sedna. Alguns cientistas sugeriram que Sedna pode fazer parte de uma região mais próxima de material de cometas, o Cinturão Kuiper, que se estende de Netuno até além de Plutão, e que de alguma forma foi deslocado e enviado para uma órbita mais distante.

Brown concordou que Sedna está muito mais perto do que o esperado para a Nuvem Oort. Mas em uma declaração, ele sugeriu que Sedna poderia residir ao menos parte do tempo no setor mais próximo da nuvem. O setor, disse ele, poderia ter sido separado da nuvem maior pela força gravitacional de uma estrela errante que se aproximou do Sol no início de sua existência.

O dr. Brian G. Marsden, do Centro Harvard-Smithsoniano para Astrofísica, disse que a descoberta é enigmática e emocionante. "Você se pergunta: de onde este objeto teria vindo?" disse Marsden. "Ele está ligado à Nuvem Oort? O que isto significa e como foi parar lá?"

Ele disse que provavelmente há outros corpos gelados semelhantes além de Plutão, e alguns podem ser maiores que Sedna.

Há dois anos, Brown e seus colegas, o dr. Chad Trujillo, do Observatório Gemini no Havaí, e o dr. David Rabinowitz de Yale, encontraram um objeto menor, batizado de Quaoar, que até agora era o maior objeto conhecido além de Plutão. Estima-se que ele tenha cerca de 40% do tamanho de Plutão.

Mesmo Plutão é considerado por alguns astrônomos como não sendo um planeta e sim um cidadão do cinturão Kuiper. Na verdade, os maiores objetos de Kuiper às vezes são chamados de plutinos.

Os astrônomos avistaram pela primeira vez Sedna com um telescópio de 48 polegadas em Palomar, no Sul da Califórnia. Em questão de dias, outros telescópios no Chile, Espanha, Arizona e Havaí realizaram observações. Quando o novo Telescópio Espacial Spitzer da Nasa olhou com seus detectores infravermelhos, os astrônomos foram capazes de realizar estimativas do tamanho do planetóide.

Para os outros telescópios, o objeto era pouco mais do que um ponto de luz. Mas as medições de infravermelho do calor irradiado pelo objeto levaram os pesquisadores a estimarem seu diâmetro a não mais do que 1700 quilômetros. Plutão tem 2.250 quilômetros.

Para começar, foi muito difícil encontrar Sedna. Na procura de pequenos viajantes do Sistema Solar, os astrônomos precisam de uma seqüência de fotos que revelem que um objeto se moveu em relação às estrelas de fundo. Mas um objeto como o Sedna, com sua órbita de 10.500 anos, parece mal se mover. Apenas com o uso de fotos de arquivo de dois anos atrás os astrônomos foram capazes de detectar e medir seu ritmo milenar.

Segundo os cálculos dos cientistas, Sedna poderá atingir seu ponto mais próximo em 72 anos e então começar a voltar para a fronteira mais distante do Sistema Solar.

"Da última vez que Sedna esteve assim perto do Sol, a Terra estava saindo da última Idade do Gelo", disse Brown.


Tradução: George El Khouri Andolfato Visite o site do The New York Times



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