14/04/2004

Análise: EUA e ONU devem agir rápido para suspender genocídio no Sudão



Nicholas D. Kristof

Não consigo tirar da cabeça as cenas de genocídio de minha última viagem, no mês passado, à fronteira entre o Sudão e o Chade: as covas recentes, especialmente as pequenas, para crianças; as pilhas de galhos sobre as covas, para evitar que animais selvagens escavem os cadáveres; as mulheres que são primeiro violentadas, depois marcadas a ferro quente para que fiquem para sempre estigmatizadas; os camponeses isolados, que não conhecem a energia elétrica e, de repente, encontram o século 21 com helicópteros metralhando seus filhos.

Depois, há as escolhas feitas pelos refugiados sudaneses que entrevistei. Por exemplo, quem vai pegar água no poço?

A milícia árabe Janjaweed, armada pelo governo do Sudão, mata os adolescentes e homens das tribos africanas que aparecem nos poços e violenta as mulheres. Então, os pais ficam com uma escolha angustiada: arriscam mandar seus filhos de 7 ou 8 anos, a um poço a mais de um quilômetro de distância, sabendo que as crianças têm maiores chances de voltar?

E o que os pais devem fazer quando os janjaweed pegam seus filhos, ou estupram suas filhas? Devem resistir, sabendo que serão mortos na frente dos menores?

Há também as histórias descritas pelo grupo Human Rights Watch, de pais que tiveram que escolher como seus filhos iam morrer: queimados vivos ou a tiros.

Atualmente, morrem cerca de 1.000 pessoas da região de Darfur, no Sudão, por semana. Mas, pelo menos, o mundo finalmente começou a prestar atenção -e é impressionante como uma pequena preocupação do Ocidente persuadiu o Sudão a aceitar um cessar-fogo.

Finalmente, na semana passada, o presidente Bush encontrou sua voz, protestando contra as "atrocidades" em Darfur. Kofi Annan, no dia do aniversário do genocídio em Ruanda, disse com mais veemência que a brutalidade em Darfur lhe dá "um profundo sentimento de mau presságio. A comunidade internacional não pode ficar parada."

Até agora, milhares de pessoas foram assassinadas em Darfur, e cerca de 1 milhão de africanos negros foram expulsos de suas casas pelos árabes menos escuros da Janjaweed. Vastas seções de Darfur, uma região do tamanho da França, foram queimadas e esvaziadas. Guerrilheiros da Janjaweed também destruíram ou inutilizaram os poços, jogando cadáveres.

"É possível viajar 100 km e não ver nenhum civil. Você atravessa grandes aldeias, completamente queimadas ou ainda queimando, e não vê ninguém", disse Mercedes Tatay, médica da organização Medicina Sem Fronteiras, que acaba de passar um mês em Darfur.

Nos campos de refugiados de Darfur, a desnutrição e o sarampo estão matando os sobreviventes, especialmente as crianças. Roger Winter, assistente do diretor da Agência Internacional de Desenvolvimento dos EUA, acredita que mesmo que o combate parasse hoje, 100.000 pessoas ainda morreriam nos próximos meses -de doença, fome e outros males. Mesmo assim, o Sudão continua a limitar o acesso a Darfur pela ONU e grupos de assistência humanitária.

Não estou sugerindo uma invasão do Sudão. Mas é uma falácia pensar que, só porque não podemos fazer tudo para deter o genocídio, não devemos tentar nada. Uma das lições da última semana é que foi preciso muito pouco -de Washington, da Organização das Nações Unidas e da União Africana- para levar o Sudão a aceitar um cessar-fogo e prometer permitir o acesso à região pelas agências humanitárias.

Agora, precisamos persuadir o Sudão a cumprir o cessar-fogo. (O governo marcou o primeiro dia, segunda-feira 12/04, bombardeando a cidade de Anka).

Podemos salvar muitas dezenas de milhares de vidas nas próximas semanas -mas apenas se Bush e Annan falarem com mais força, se o Conselho de Segurança insistir no acesso humanitário a Darfur e se a comunidade de ajuda humanitária montar um enorme esforço antes que a temporada das chuvas torne impossível o tráfego pelas estradas a partir do final de maio.

Nos últimos 100 anos, os EUA reagiram a um genocídio após o outro -armênios, judeus, cambojanos, bósnios- pedindo desculpas e dizendo, tarde demais: "Se eu soubesse!" Bem, desta vez, sabemos exatamente o que está acontecendo em Darfur: 100.000 refugiados escaparam para o Chade e contaram sobre as atrocidades.

Quantos mais pais serão forçados a escolher se seus filhos serão queimados ou mortos a tiros antes de levarmos o assunto a sério?


Tradução: Deborah Weinberg Visite o site do The New York Times



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