28/04/2004

"South Park" traz mensagem profunda com palavreado chulo

Desenho incute a idéia de que não há dogmas sacros ou tabus impronunciáveis

Virginia Heffernan

"South Park" atingiu seu clímax nesta temporada? O desenho pode ser visto na MTV às 23h das terças, com reprises na quarta à 1h30, sexta às 22h30 e domingo à 1h. O Multishow o apresenta à 0h de sábado para domingo e em horários alternativos.

Em um episódio de março, um filme chamado "The Passion" (A Paixão)conquista Eric Cartman, o gordo, ele próprio crucificado em 1999, na encenação da paixão de South Park. Depois de ver o filme, Cartman não pára de falar sobre a glória de seu herói de longa data, Mel Gibson, diretor do filme, até que seu amigo Kyle Broflovski consente em ir assistir ao filme. Abalado com a tortura apresentada no filme, Kyle concorda com a implicação de que os judeus tiveram responsabilidade na morte de Jesus.

Kyle, então, agita sua sinagoga: ele quer um pedido de desculpas. Os congregantes se rebelam. Enquanto isso, Cartman organiza um comício e tenta iniciar um genocídio. A guerra santa chega a South Park. Em um sub-tema relacionado, Mel Gibson armado e enlouquecido esbraveja de cueca, como fez em "Máquina Mortífera".

Andrew Sullivan, o sábio conservador online, chamou a cena de "uma das mais sublimes do ano". Cada pessoa disse que o episódio "A Paixão do Judeu" provou algo diferente: Que o programa ainda está por dentro ou que voltou com força ou que está melhor do que nunca. De qualquer forma, foi bom.

A série, que sai do ar até outubro, depois do episódio de quarta-feira (28/04) à noite (nos EUA), sobre alienígenas que tomam os empregos dos americanos, também se orgulha de malhar as religiões. Ambientada em serras nevadas do Colorado, tem sido séria iconoclasta desde sua estréia em 1997.

Certamente o programa é criativo e tem um visual descolado. As vozes, na maior parte dos criadores de "South Park", Trey Parker e Matt Stone, também são hilariantes. (A pronúncia de "autoridade" de Cartman é indescritivelmente perfeita). Mas a verdadeira força de "South Park" está em flertar com quem pensa livremente, ridicularizando cristãos e judeus, inclusive o próprio Jesus, e figuras sagradas como Buddha, Muhammad, Krishna e Laotzu. (Eles formam um grupo chamado Super Bons Amigos).

Mas esse liberalismo estilizado, é claro, também tem seu dogma próprio. Verdade, os meninos de "South Park" -Carman e Kyle, Stan Marsh e outros freqüentadores habituais- não são afetados por nenhum dos problemas espirituais que deprimiam a turma de "Peanuts".

Eles têm um problema mais científico: a hipocrisia americana, a combinação de ambição e falsidade que permitem que a religião e a falsa espiritualidade sejam uma cobertura para a voracidade. Onde as crianças de "Peanuts" eram tristes, os meninos de "South Park" são furiosos e vingativos.

Não é de espantar. Eles estão cercados por fraudes. Cartman tem uma mãe solteira orgulhosa, cristã e hermafrodita, que dorme com diferentes pessoas em troca de favores. Ela é indulgente e ineficaz. ("Eric ainda deveria estar preso em casa por tentar exterminar os judeus, há duas semanas"). A mãe de Kyle é crítica, ansiosa, fatalmente intrometida; ela defende uma causa sobre gêmeos siameses, que parece ter a intenção de mortificar a pessoa a quem deveria ajudar, a enfermeira de uma escola que tem um feto morto preso a sua cabeça. Bland Stan tem um avô que é apresentado como retrato da feliz longevidade, mas implora a Stan que o mate.

"South Park" consolida a ira e o humor de pré-adolescentes, com brincadeiras sobre flatulência, gordura e vômitos. (E piadas sobre piadas de peidos, como em "Terrance and Phillip", o antigo programa dentro do programa.)

Então, armados com um pouco mais do que furos de censura judiciosamente aplicados, palavras permissíveis como esfíncter e ânus e uma vontade de falar da digestão, o programa consegue um ar de anarquia. Perfeito para quem tem alma jovem: anarquia em um desenho alegre e em canal básico da televisão paga.

Talvez os maiores fãs de "South Park" sejam adultos que foram rebeldes. O programa se baseia na esperança de sempre ofender alguém, em algum lugar. Para melhor saboreá-lo, deve-se imaginar os pobres de alma -pais repressores ou anunciantes chatos, embrutecidos com o que é politicamente correto ou com o moralismo cristão- balançando a cabeça na sala ao lado, em sinal de desaprovação. Os anunciantes continuam patrocinando o programa, mesmo quando esbarra nos limites da decência, e os pais nunca fizeram uma campanha séria contra ele.

Além de criar novas piadas, "South Park" é uma oportunidade para desafiar aquelas broncas mais uma vez. Mas apesar dessa pose, "South Park" não adota o princípio da televisão irreverente de "nada de mensagens ou abraços", que Larry David estabeleceu para "Seinfeld".

"South Park" pode ser até abertamente crente. A teologia pode parecer um mito dentro do programa, e a intolerância e o farisaísmo, terríveis, mas a religião também parece adoçar e civilizar.

Além disso, ao final de muitos episódios, há uma mensagem elevada. Os criadores, Parker e Stone, são freqüentemente chamados de libertários e se consideram extraordinariamente conectados com a perversidade dos meninos. Mas sejamos francos: Há mensagens de aprendizado e até abraços em "South Park".

É surpreendente, de fato, que em seis anos o público não tenha censurado o pedantismo do programa. Em um episódio desta temporada, cruzados em South Park não perceberam o verdadeiro perigo quando se concentraram em uma crise trivial, ao estilo do seio exposto de Janet Jackson.

O programa explicou: as pessoas ficam ligadas em escândalos sexuais falsos e ignoram o verdadeiro problema de violência. Em um episódio há duas semanas, uma celebridade pedófila chamada Michael Jefferson, que tem um filho chamado Blanket, passou a levar a paternidade a sério.

"Tenho sido tão obcecado com minha infância que esqueci disso", diz ele. "Pensei que ter um monte de brinquedos era suficiente, mas Blanket não precisa de um amigo. Ele precisa de um pai, de uma vida normal". Isso parece agradavelmente são. Se "South Park" é uma das melhores comédias da televisão, não é boa por ser inconseqüente; é boa por ser uma série de parábolas engraçadas.

Tomemos como exemplo, o final de "A Paixão do Judeu". Depois que a guerra santa se acalma, Stan diz aos fãs do filme de Gibson: "Se vocês querem ser cristãos, ótimo, mas devem seguir os ensinamentos de Jesus, em vez de se concentrar em sua morte. Isso era o que as pessoas faziam na Idade Média e os resultados são realmente ruins".

Que bom. Mas e vocês, Trey and Matt? Essa mensagem não é muito diferente do refrão de "Free to Be... You and Me" (livre para ser eu ... e você), álbum feminista de inspiração para crianças, lançado em 1972. Por mim, tudo bem, mas, telespectadores, não contem para seus filhos.


Tradução: Deborah Weinberg Visite o site do The New York Times



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