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29/04/2004

Madonna e Warner trocam processos na Justiça dos EUA

Transferência de sociedade cria confusão; cantora inicia turnê mundial em maio
Chris Nelson
Madonna vestiu um uniforme do exército, no ano passado, para um vídeo de promoção de seu mais recente álbum, "American Life". Agora, ela está criando mais metáforas militares para uma batalha pública cada vez mais amarga com a Warner Music Group e seu novo diretor executivo e proprietário Edgar Bronfman Jr.
"Encontro-me na situação absurda de ser processada por minha própria gravadora, à qual fui leal por mais de 20 anos, trabalhando muito e com responsabilidade. O comportamento deles é uma traição", disse Madonna em uma declaração, seu primeiro comentário desde que os dois lados entraram na Justiça, no mês passado.
A briga não envolve Madonna como uma das maiores estrelas da Warner. A discussão gira em torno da Maverick Records, selo que a artista e dois sócios detêm em parceria com a Warner Music. O empreendimento conjunto expira no final do ano e a Warner ou o grupo de Madonna deverá comprar a outra parte.
As queixas vêm cozinhando em banho Maria há vários anos. Executivos da Maverick dizem que estão sendo enganados pela Warner Music, enquanto a Warner diz perder dinheiro com a Maverick, cujos maiores sucessos, como Alanis Morissette, já passaram.
Mas quando a Time Warner vendeu sua gravadora por US$ 2,6 bilhões (em torno de R$ 7,2 bilhões) para um consórcio chefiado por um dos executivos mais receptivos às necessidades e desejos dos artistas, Bronfman. Muitos na indústria musical esperavam, então, uma resolução amigável.
Se houve uma lua-de-mel, foi curta. Aparentemente, mágoas dos dois lados conduziram a negociação aos tribunais.
Os sócios de Madonna na Maverick, Guy Oseary e Ronnie Dashew, dizem que ficaram chocados quando foi iniciada uma ação no mesmo dia em que estavam negociando uma resolução de boa fé. Bert Fields, advogado da Maverick, chamou a ação na Justiça de um golpe pelas costas de Madonna, que vendeu milhões de CDs para o selo da Warner Brothers Records.
Executivos da Warner Music dizem que foram forçados a agir de forma preventiva. De acordo com os executivos envolvidos nas negociações, os novos proprietários, que estão promovendo uma reestruturação que envolve a eliminação de 1.000 empregos, estavam visitando bancos e emissores de bônus para financiar a compra da Warner Music quando Madonna e seus parceiros ameaçaram entrar na Justiça se não fosse fechado um acordo rapidamente com a Maverick.
No dia 24 de março, a Warner Music entrou na Justiça em Delaware, para obter uma declaração de que não tinha rompido o contrato com a Maverick. No dia seguinte, a Maverick entrou com uma ação contra a Warner Music, na Califórnia, acusando-a de fraude e de erros de contabilidade. No dia 7 de maio, um juiz de Delaware vai avaliar um pedido de suspensão da ação da Warner Music e permitir que a queixa na Califórnia prossiga.
O objeto da disputa é um selo de música especializado. Maverick, criado em 1992, teve seu maior sucesso com Morissette, cantora e compositora cujo "Jagged Little Pill" (1995) vendeu 14 milhões de cópias e é um dos discos mais vendidos de todos os tempos, de acordo com Nielsen SoundScan, que registra as vendas de música nos EUA.
Oito dos 10 álbuns da Maverick que venderam mais de um milhão de cópias foram lançados antes do acordo com a Warner Music ter sido renegociado em 1999. Seu catálogo também inclui a cantora e compositora Michelle Branch e bandas como Deftones e Prodigy. Em 2003, os lançamentos da Maverick foram um pouco mais de 0,5 % das vendas de discos dos EUA.
Bronfman recusou-se a comentar os processos, mas o porta-voz da empresa, Will Tanous, repetiu a declaração da Warner Music, dizendo que Maverick não obteve lucro nos últimos cinco anos. Em sua queixa, a Warner Music diz que a Maverick perdeu mais de US$ 60 milhões (cerca de R$ 180 milhões) desde 1999 e teria que pagar US$ 92,5 milhões (aproximadamente R$ 277,5 milhões) antes que pudesse comprar a parte da Warner na sociedade.
A ação da Maverick pinta um retrato mais complicado. Seus sócios reclamam que Roger Ames, ex-diretor executivo da Warner Music, recusou-se a fornecer o apoio obrigatório pelos termos do contrato em promoções, vendas e marketing. "Eles se recusaram consistentemente a lidar com nossos problemas e nos guiaram mal", disse Dashev. (Ames é atualmente consultor da Warner Music).
Entre inúmeras acusações, a ação da Maverick diz que a Warner Music manipulou os números para mostrar que a Maverick estava perdendo dinheiro, mas não lhe creditou os lucros gerados pela fabricação, distribuição e vendas internacionais dos discos da Maverick. Se seus lucros fossem contabilizados corretamente, mostrariam que a Maverick trouxe US$ 100 milhões (cerca de R$ 300 milhões) para a Warner, disse Fields, advogado famoso de Hollywood.
No entanto, o contrato da sociedade não requer a contabilização de lucros dessas áreas na receita da Maverick, disse um executivo inteirado do assunto. "O que eles estão tentando fazer não está no contrato", disse. "Tem como base apenas seu desejo de receber um cheque ao qual não têm direito por virtude do contrato. Eles dizem: 'Vamos passar uma borracha em alguns itens e colocar o que quisermos no contrato.'"
Whitney Broussard, advogada de entretenimento em Nova York, que representa artistas da Warner Music como Twista e Third Eye Blind, disse que não era incomum a receita de fabricação e distribuição ser excluída de cálculos de lucros em contratos de joint-venture.
O que não está claro na briga é qual será o dano ao relacionamento da Warner Music com Madonna, que deve mais dois álbuns à Warner Brothers Records.
Madonna está se preparando para uma turnê mundial que começa no final de maio e as seis noites programadas para o Madison Square Garden em junho já estão lotadas. Apesar da Warner não fazer pouco da estatura de Madonna, ela não é mais, aos 45, o sucesso de antes.
"American Life" vendeu relativamente pouco: 634.000 cópias nos EUA. Seus dois álbuns anteriores venderam entre 3 e 4 milhões de cópias. Mas seus lançamentos antigos se saíram muito melhor. "Like a Virgin" (1984) vendeu 10 milhões e "True Blue" (1986), sete milhões.
"Isso não se refere à Madonna, artista com quem temos um relacionamento antigo e de sucesso", diz Tanous.
A agente de Madonna, Caresse Henry, disse que a briga na Justiça estava prejudicando o relacionamento da artista com a Warner. "É como apresentar ao marido os papéis do divórcio e perguntar se quer sair para jantar", disse Henry.



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