


|
13/05/2004

"NY Times" lutará contra a criticada expulsão de Rother

Entidades civis brasileiras e correspondentes internacionais repudiam expulsão
Warren Hoge*
O "New York Times" lutará contra a medida para expulsar seu correspondente no Brasil, Larry Rohter. A medida é represália a uma reportagem que fazia críticas ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva. "Com base em consultas feitas a advogados brasileiros, nós acreditamos que não há base para a revogação do visto de Rohter e tomaremos as medidas apropriadas para defender seus direitos", disse Catherine J. Mathis, uma porta-voz do jornal.
O editor-executivo Bill Keller disse que, se o Brasil "pretende expulsar um jornalista por escrever um artigo que ofendeu o presidente, isto colocará em séria dúvida o alegado compromisso do Brasil com a liberdade de expressão e a liberdade de imprensa".
Os líderes de oposição brasileiros, associações de imprensa e grupos legais protestaram nesta quarta-feira (12/05) contra a decisão de seu governo de expulsar Larry Rother. Mas Lula disse que não voltará atrás em sua decisão.
Falando em Brasília em um café da manhã com líderes políticos de partidos aliados de seu governo, Lula disse que se oporá a qualquer apelação da ordem. "Este jornalista não permanecerá no país", disse ele. "Ele será legalmente proibido de entrar."
O artigo de autoria de Larry Rohter, o chefe da sucursal do Rio de Janeiro do "Times", publicado no domingo, relatava preocupações manifestadas publicamente sobre os hábitos de beber do presidente. Diz o texto: "alguns de seus conterrâneos começaram a se perguntar se a predileção do presidente por bebidas fortes está afetando sua atuação no governo".
O Ministério da Justiça do Brasil disse que a expulsão de Rohter era justificada porque a reportagem foi "leviana, mentirosa e ofensiva à honra do presidente". Lula disse que o artigo representava "um ataque malicioso contra a instituição da presidência".
Roberto Busato, presidente da Ordem dos Advogados do Brasil, protestou que Lula estava empregando uma lei repressiva que foi usada pela última vez durante a ditadura militar de 1964-1985. O governo de esquerda de Lula contém muitos ministros que lutaram contra os governantes militares do país. O próprio Lula, na época um líder trabalhista sem papas na língua, foi preso.
Em uma carta aberta ao governo, a Associação dos Correspondentes Estrangeiros, de São Paulo, disse: "Nós não compreendemos como um governo democrático que teve muitos de seus líderes perseguidos e censurados pode tomar tal decisão autoritária, especialmente tendo sido a imprensa estrangeira, durante os anos do regime militar, a responsável por atrair a atenção internacional para as denúncias contra a ditadura".
Fernando Henrique Cardoso, o antecessor de Lula na presidência, disse em um café da manhã com correspondentes estrangeiros em São Paulo, na quarta-feira, que apesar de ter considerado o artigo do "New York Times" superficial e frívolo, ele ficou surpreso e desapontado com a reação diante dele.
"Há histórias frívolas publicadas diariamente", disse ele. "A expulsão é uma reação exagerada; ela vai contra os princípios democráticos."
O coro de críticas representou uma mudança na opinião pública brasileira, que, na segunda-feira, apoiava a resposta desdenhosa ao artigo e que até mesmo conseguiu unir partidos políticos antagônicos no apoio a um presidente cada vez mais fraco.
A decisão subseqüente do governo de buscar a expulsão de Rohter provocou uma reação diferente.
A Força Sindical, segunda maior união sindical do país, que na segunda-feira pediu ao governo que declarasse Rohter "persona non grata", emitiu uma declaração na quarta-feira condenando o esforço do governo para expulsá-lo.
"A medida tomada pelo governo nos preocupa porque é uma reação típica de governos autoritários que não gostam de vozes contrárias", disse o presidente do sindicato, Paulo Pereira da Silva.
Em Washington, Richard A. Boucher, o porta-voz do Departamento de Estado, disse: "Nós temos boas relações com o presidente Lula e seu governo, e obviamente o artigo do 'The New York Times' não representa a posição do governo americano. Mas eu diria que a decisão do governo do Brasil de cancelar o visto do jornalista do 'New York Times' que escreveu o artigo em questão não está de acordo com o forte compromisso do Brasil com a liberdade de imprensa".
Os jornais brasileiros relataram que diplomatas do país estavam trabalhando para mudar a posição de Lula, mas o ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, declarou na quarta-feira que apóia plenamente a ação do presidente.
"Ninguém pode chamar isto de um ataque contra a liberdade de imprensa", disse Amorim para um comitê do Senado, em Brasília. Mas Paulo Sotero, correspondente em Washington do jornal "O Estado de S.Paulo", discordou e disse que os jornalistas brasileiros estavam se unindo em apoio a Rohter. "Nós lutamos demais pela liberdade de imprensa neste país para permitir este tipo de tolice", disse ele em uma entrevista por telefone.
"Se o governo temia que Larry Rohter estava causando mal à imagem do país", disse ele, "isto é um desastre muito maior neste sentido".
*Colaborou Todd Benson, de São Paulo
Leia também:
Brasil expulsa repórter do "New York Times"



ÍNDICE DE JORNAIS
ENVIE ESSA NOTÍCIA POR EMAIL


|
|
|