26/05/2004

Kerry e Bush partilham visão míope do conflito israelo-palestino

EUA devem mediar com moderação, e não apoiar radicais como o premiê Ariel Sharon

Nicholas D. Kristof

George W. Bush e John Kerry discordam em praticamente todas as questões, com uma exceção crucial: eles competem no apoio a uma política míope que é injusta, que mancha nossa credibilidade ao redor do mundo e que mina severamente nossos esforços no Iraque.

É nossa política para Israel e os palestinos, que se tornou tão desequilibrada que agora é pouco mais do uma aprovação do frasista reacionário ao qual Bush rotulou imperdoavelmente de "homem de paz": Ariel Sharon.

Os presidentes americanos sempre tentaram ser mediadores honestos no Oriente Médio. Truman, Johnson e Reagan eram um pouco pró-Israel, enquanto Eisenhower, Carter e Bush pai eram um pouco mais frios, mas todos buscavam o equilíbrio.

O presidente Bush atirou tudo isto pela janela ao se aconchegar com Sharon. Bush olha com admiração enquanto Sharon responde aos ataques terroristas enviando tropas para demolir lares palestinos e atirar em manifestantes, abandonando os esforços intensivos do presidente Bill Clinton de chegar a um acordo de paz. O professor Michael Hudson, da Universidade de Georgetown, descreveu a atual política para o Oriente Médio como "uma incompetência empavonada, correndo de um lado para outro mas sem fazer nada de forma consistente".

Nosso apoio a Sharon nos estorva no Iraque muito mais do que as fotos de Abu Ghraib. Os iraquianos (diferentemente dos, digamos, kuwaitianos) nutrem uma simpatia genuína pelos palestinos, e em toda parte em que estive no Iraque as pessoas comuns me perguntaram por que os americanos fornecem as armas que Sharon usa para matar palestinos.

Uma grande meta da guerra no Iraque era obter a paz no Oriente Médio. Mas como o general aposentado Anthony Zini disse ao Centro para Informação de Defesa neste mês: "Eu não pude acreditar no que estava ouvindo sobre os benefícios desta ação estratégica -que a estrada para Jerusalém passava por Bagdá, quando o oposto é a verdade, a estrada para Bagdá passa por Jerusalém. Ao resolver o processo de paz no Oriente Médio, você ficaria surpreso com quantas outras coisas iriam funcionar".

Quanto a Kerry, de forma geral ele tem sido sensível em relação ao Oriente Médio. Mas nos últimos meses ele tem-se afastado em ziguezague de seu histórico (ele costumava se opor ao muro do Oriente Médio, por exemplo) para dar seus próprios beijos molhados em Sharon. É muito ruim ele não ter a liderança para reconhecer o que 50 ex-diplomatas americanos escreveram em uma carta aberta para Bush, no mês passado:

"Você provou que os Estados Unidos não são um parceiro imparcial na paz. (...) Seu apoio incondicional aos assassinatos extrajudiciais de Sharon, à barreira semelhante ao Muro de Berlim de Israel, suas duras medidas militares nos territórios ocupados, e agora seu endosso do plano unilateral de Sharon estão custando ao nosso país sua credibilidade, prestígio e amigos. Este endosso nem mesmo é no melhor interesse de Israel."

De fato, meu palpite é que Sharon fez mais para minar a segurança a longo prazo de Israel do que Iasser Arafat jamais conseguiu. As ações de Sharon derrubaram os moderados palestinos e estimularam o Hamas e a Jihad Islâmica. A intenção de Sharon é boa -ele deseja deter o terrorismo- mas suas políticas levaram os palestinos a se voltarem para os extremistas islâmicos em vez dos nacionalistas seculares. Agora, até mesmo a Frente Popular para a Libertação da Palestina, um grupo marxista, encontrou Deus e está citando o Alcorão.

Particularmente em uma nova era em que ataques terroristas podem usar armas de destruição em massa para matar, talvez, milhares de uma só vez, Israel só poderá obter a segurança por meio de um acordo de paz com os palestinos. Um modelo é o acordo não-oficial de Genebra de outubro passado, elaborado por israelenses e palestinos corajosos -as pessoas a quem deveríamos estar apoiando.

Por outro lado, Sharon e Arafat exibem uma obstinação manchada de sangue, sugerindo que poderiam muito bem ser gêmeos separados no nascimento. Eles deveriam ser exilados juntos em alguma Santa Helena (ilha da costa africana onde Napoleão morreu). Ambos estão prejudicando seus próprios povos ao minarem os moderados do lado oposto.

Então, vamos esperar que Kerry dê outra guinada, nos dando uma opção significativa em política para o Oriente Médio. A ruptura de Bush do papel habitual dos Estados Unidos de mediadores honestos é um de seus erros mais graves em política externa, e devemos a Israel assim como a nós mesmos consertá-lo.

"Os israelenses são muito mais críticos da política israelense do que os americanos", notou Edward Walker Jr., um ex-embaixador americano em Israel e no Egito. "Se os seus bons amigos não lhe dizem que algo está errado, então não são bons amigos."


Tradução: George El Khouri Andolfato Visite o site do The New York Times



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