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03/06/2004

"Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban" é o melhor da série

Diretor é a maior novidade do filme, que estréia em todo o mundo nesta sexta-feira, dia 4
A.O.Scott
Para certos adultos na sala de projeção, o momento mais emocionante em "Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban" poderia muito bem ser a apresentação dos créditos do diretor logo no início.
Alfonso Cuarón, que fez o ardente e romântico "E Sua Mãe Também", é um nome que com certeza provoca palpitações em muitos críticos, ainda que a maioria dos fãs incondicionais de Harry Potter, que geralmente não têm o hábito de assistir a filmes alternativos e legendados, e tampouco conhecem muitos cineastas estrangeiros, provavelmente vá reagir com um dar de ombros.
Nesse momento, as crianças também podem se sentir um pouco desinteressadas pelo próprio Harry. Ele sem dúvida continuará sendo um objeto amado e rentável da cultura popular juvenil por muitos anos, mas a histeria que cercou a publicação dos dois últimos livros da série (e o lançamento dos dois primeiros filmes) parece ter, pelo menos por ora, se dissipado.
A primeira geração de "potterfilos" migrou para outras formas de fantasia - como, por exemplo, o ciclo "Dark Materials", de Philip Pullman, o perene "O Senhor dos Anéis", de J.R.R. Tolkien, e os manuais de estudo de Stanley Kaplan - enquanto os seus irmãos mais novos vêem agora a série Potter como uma diversão de segunda mão, e não como uma descoberta particular especial.
E tudo isso coloca Cuarón em uma posição embaraçosa. Como cineasta ele está em plena ascensão, enquanto que o seu herói pode ter estacionado em um platô. As suas realizações correm, assim, o risco de serem sub-apreciadas.
"Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban" é o melhor dos livros de J.K. Rowling até o momento. Ela equilibra a economia narrativa das duas primeiras obras com a ambição imaginativa das suas continuações desajeitadas. E a adaptação de Cuarón, de uma obra de um roteiro escrito por Steve Kloves, faz mais do que justiça ao livro.
Esse é sem sombra de dúvida o mais interessantes dos três filmes da série Harry Potter, em parte porque é o primeiro que se parece de fato com um filme transmite a sensação de sê-lo, ao invés de uma leitura teatral de um roteiro enfeitada por efeitos especiais. "A Pedra Filosofal" e "A Câmara Secreta", ambos dirigidos com uma competência voltada para o aspecto literário por Chris Columbus (que permaneceu como produtor) podem ter sido mais fiéis ao texto de Rowling, mas "Azkaban" tenta realizar, e, em geral consegue, um tipo mais engenhoso de tradução do texto original.
Este filme poderá desapontar alguns velhos hogwartsianos dogmáticos: algumas passagens literárias foram sacrificadas, e Cuarón não parece se importar muito com quadribol. Mas o filme mais do que compensa esses lapsos com a sua força emocional e a segurança visual.
O mundo mágico de Cuarón, filmado pelo talentoso cineasta neozelandês Michael Seresin, é mais granulado e sujo que o de Columbus. Ele parece ser ao mesmo tempo mais perigoso, mais profundamente encantado e mais real. Enquanto que os dois primeiros episódios se passaram em sua maior parte nos corredores e nas salas de aula de Hogwarts, este se desenrola nas florestas sombrias e nos prados encharcados que ficam além dos muros da escola, um cenário que enfatiza o talento especial de Cuarón para evocar o poder assombroso e sensual do mundo natural.
Harry, Rony e Hermione (interpretados mais uma vez por Daniel Radcliffe, Rupert Grint e Emma Watson), estão entrando na adolescência, e embora pareçam mais corajosos e capazes que antes, os perigos que enfrentam são aparentemente mais sérios e a vulnerabilidade dos personagens mais intensa.
No início do filme, na cena obrigatória que é uma isca para os não iniciados na magia, o ódio latente de Harry pela sua condição de órfão (e pelos seus cruéis guardiões adotivos) por pouco não o subjugam. Conforme a história o dirige rumo a um confronto com o homem que pode ter matado os seus pais (um prisioneiro fugitivo interpretado pelo vilão cinematográfico Gary Oldman), a decência alegre e descuidada de Harry é ensombrecida por tristeza, ódio e confusão moral.
Ou pelo menos é o que deveria ocorrer. Radcliffe, tendo chegado à puberdade, pode também ter atingido o limite da sua capacidade interpretativa. Quando convocado a transmitir sentimentos profundos ou complexos, ele apresenta uma tendência para piscar e aparentar nervosismo.
Para que se faça justiça, Harry é um papel especialmente traiçoeiro, já que ele é ao mesmo tempo o centro carismático do drama e o personagem que todos os que o assistem imaginam ser. Isso significa que ele precisa se distinguir heroicamente dos seus colegas, sem exibir uma personalidade que seja muito distintamente sua, uma exigência paradoxal a qual muito poucos atores jovens poderiam atender.
A brandura de Luckily Radcliffe é contrabalançada pela impaciência aguçada de Watson. Harry pode exigir as suas crescentes habilidades mágicas ao enfrentar espíritos malignos, lobisomens e cachorros loucos, mas Hermione, cujo pavio é encurtado por uma afronta impossível de suportar, arranca os maiores aplausos ao aplicar um soco nada mágico e bem merecido no nariz de Draco Malfoy.
Embora os monstruosos efeitos especiais sejam inseridos continuamente nos corredores mofados e nos espaços mal iluminados, "O Prisioneiro de Azkaban", assim como os seus predecessores,é sustentado por uma interpretação britânica de primeira linha, e que enfatiza os personagens de carne e osso.
Michael Gambon, como o sábio diretor Albus Dumbledore, vestiu graciosamente o chapéu cônico e o robe flutuante de Richard Harris, e Maggie Smith aparece de quando em vez para balançar a cabeça e contrair os lábios.
Estou feliz por anunciar que a estória conta com mais aparições de Snape do que o último filme, o que significa mais chances para apreciar a expressão seca e sibilante de escárnio de Alan Rickman. Entre os novos membros do corpo docente de Hogwarts estão Emma Thompson, interpretando uma profetisa meio cega e idiota, e Davis Thewlis, como um professor aparentemente gentil que guarda um segredo desconfortável.
Há ainda uma aparição tardia e maravilhosamente repulsiva de Timothy Spall, mas se eu fizesse mais comentários me arriscaria a estragar uma agradável surpresa e a comprometer parte da mágica diabólica de Rowling e Cuarón.
Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban
Dirigido por Alfonso Cuarón; roteiro de Steve Kloves, baseado no livro de J.K. Rowling; diretor de fotografia, Michael Seresin; edição de Steven Weisberg; música de John Williams; auxiliar de produção, Stuart Craig; produção de David Heyman, Chris Colubus e Mark Radcliffe; distribuído pela Warner Brothers Pictures. Duração: 136 minutos.
Com Daniel Radcliffe (Harry Potter), Rupert Grint (Rony Weasley), Emma Watson (Hermione Granger), Robbie Coltrane (Rubeus Hagrid), Michael Gambon (Alvus Dumbledore), Richard Griffiths (Tio Válter), Gary Oldman (Sirius Black), Alan Rickman (Professor Snape), Fiona Shaw (Tia Petúnia), Maggie Smith (Professora McGonagall), Timothy Spall (Pedro Pettigrew), David Thwlis (Professor Lupin), Emma Thompson (Professora Trelawney) e Tom Felton (Draco Malfoy).



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