16/06/2004

Árabes já mataram 320 mil negros no Sudão apenas em 2004

Governo dos EUA ainda hesita se deve classificar a perseguição étnica como genocídio

Nicholas D. Kristof
Em algum local entre o Chade e o Sudão


O governo Bush diz que está avaliando se descreverá o assassinato e o estupro em massa ocorridos na região de Darfur, no Sudão, como "genocídio". Sugiro que o presidente Bush convide uma verdadeira especialista no assunto para uma visita à Casa Branca, Magboula Muhammad Khattar, uma viúva de 24 anos, que está agachada sob uma árvore, aqui na fronteira entre o Chade e Sudão.

O mundo, vergonhosamente, pouco se importa com o caso do genocídio de Darfur, talvez porque as 320 mil mortes neste ano (uma avaliação otimista da Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional) soem como mais uma estatística maçante. Portanto, ouçamos a história de Khattar, multipliquemo-la por centenas de milhares, e vejamos se ainda desejaremos dar as costas ao problema.

Há apenas alguns meses, Khattar levava uma grande vida. A sua doce personalidade e a sua aparência encantadora lhe garantiram um valioso dote de 40 cabeças de gado quando se casou com Ali Daoud, um próspero fazendeiro, quatro anos atrás. A família tinha 300 reses e 50 camelos, sendo uma das mais ricas da vila Ab-Layha, no oeste do Sudão. Khattar logo teve dois filhos, o mais novo nascido no ano passado.

Porém, à mesma época, o governo sudanês resolveu esmagar uma rebelião em Darfur, uma região do tamanho da França no oeste do Sudão. O Sudão armou e pagou uma milícia de combatentes árabes, os janjaweed, e os autorizou a massacrar e expulsar os membros das tribos Zaghawa, Masalit e Fur.

Em 12 de março, por volta das 4h, Khattar fazia as suas orações muçulmanas antes do nascer do sol quando uma aeronave Antonov do governo sudanês começou a despejar bombas sobre Ab-Layha, que é composta de membros da tribo Zaghawa. Momentos depois, mais de mil janjaweed entraram na vila, montados em cavalos e camelos, apoiados por tropas do governo sudanês transportadas por caminhões.

"Os janjaweed gritaram: 'Não permitiremos a presença de negros aqui. Não deixaremos os Zaghawa viver neste local. Esta terra é somente para os árabes'", recorda Khattar.

Khattar agarrou os filhos e, enquanto os tiros e explosões estouravam à sua volta, correu para uma floresta próxima. Mas os seus pais tentaram proteger os animais - eles gritavam, "Não levem a nossa criação". Ambos foram mortos a tiros.

O ataque fez parte de uma estratégia deliberada para garantir que a vila seja inabitável para sempre, que os Zaghawa jamais tornem a morar lá. Os janjaweed envenenaram poços, enchendo-os de corpos de pessoas e de burros. Eles dinamitaram também uma represa que fornecia água aos fazendeiros, destruíram sete bombas d'água manuais e queimaram todas as casas, e até mesmo a escola, o posto de saúde e a mesquita da vila.

Em entrevistas separadas, falei com mais de doze outros sobreviventes de Ab-Layha, e todos eles confirmaram a história de Khattar. Segundo a maioria dos relatos, cerca de cem pessoas foram massacradas naquele dia em Ab-Layha, e houve um empenho especial para exterminar todos os homens e garotos, até mesmo os muito jovens. Mulheres e garotas tiveram às vezes permissão para fugir, mas as mais bonitas foram raptadas.

A maioria das mulheres estupradas não quis comentar o fato. Mas Zahra Abdel Karim, de 30 anos, me disse como foi que, durante o ataque a Ab-Layha, os janjaweed mataram a tiros o seu marido, Adam, e o filho de sete anos, Rahshid, assim como três dos seus irmãos. Depois, eles retiraram dos seus braços o filho de quatro anos, Rasheed, e o degolaram.

Os janjaweed a levaram a cavalo, juntamente com as suas duas irmãs, e as estupraram em grupo, contou ela. Os atacantes mataram com um tiro uma das irmãs, Kuttuma, degolaram a outra, Fátima, e discutiram a maneira como mutilariam Zahra. (A humilhação sexual tem feito parte da estratégia sudanesa para expulsar os povos tribais africanos. Os janjaweed rotineiramente agravam esse estigma, marcando a faca as mulheres que estupram).

"Um janjaweed disse: 'Você me pertence, é uma escrava dos árabes, e esse é um sinal da sua escravidão'", recorda Zahra. Ele fez um corte na perna da mulher, antes de deixá-la partir mancando, completamente nua. Outros moradores da vila destruída confirmaram tê-la encontrado nua e sangrando, e ela me mostrou a cicatriz na perna.

Comparativamente, Khattar foi uma das que teve sorte. Ela perdeu os pais, a casa e todos os seus bens, mas o marido e os filhos escaparam com vida e ela não foi estuprada. Infelizmente, a sua sorte em breve acabaria.

Se Khattar e o seu povo não estão sendo vítimas de genocídio, então essa palavra não tem significado.


Tradução: Danilo Fonseca Visite o site do The New York Times



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