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17/06/2004

Comissão refuta a ligação Iraque-Al Qaeda e desmente Bush

Conclusão contraria maior justificativa de presidente para ir à guerra contra o país
Philip Shenon e Christopher Marquis
Em Washington
A comissão que investiga os ataques de 11 de setembro desmentiu uma das principais justificativas do presidente Bush para a guerra no Iraque, relatando nesta quarta-feira (16/06) que parece não ter ocorrido um "relacionamento colaborativo" entre a Al Qaeda e Saddam Hussein. A afirmação surgiu em relatórios preliminares que ofereceram uma cronologia assustadora, ricamente detalhada, da trama de 11 de setembro e que reescreve grande parte da história dos ataques.
A investigação mostrou, segundo a comissão, que o governo de Saddam rejeitou ou ignorou os pedidos de ajuda dos líderes da Al Qaeda nos anos 90, uma conclusão que contradiz diretamente uma série de declarações públicas de Bush e do vice-presidente Dick Cheney, feitas antes e depois da invasão do ano passado ao Iraque para justificar a guerra.
"Nós não temos evidências críveis de que o Iraque e a Al Qaeda cooperaram nos ataques contra os Estados Unidos", disse um dos relatórios na quarta-feira. "Foi dito que Bin Laden teria pedido espaço para estabelecer campos de treinamento, assim como assistência na procura por armas, mas o Iraque aparentemente nunca respondeu." O relatório acrescentou que apesar dos relatos de contatos entre o Iraque e a Al Qaeda nos anos 90, "eles não parecem ter resultado em uma parceria colaborativa".
A Casa Branca disse nesta quarta-feira que não via os relatórios da comissão como uma contradição às declarações anteriores de Bush e Cheney, e que o governo sempre teve cuidado em não sugerir que tinha prova de uma ligação entre Saddam e 11 de setembro.
"Não é inconsistente o Iraque ter ligações com a Al Qaeda e não estar envolvido em 11 de setembro ou outros planos potenciais contra a América", disse Dan Bartlett, o diretor de comunicação da Casa Branca.
O senador John Kerry de Massachusetts, o virtual oponente democrata de Bush na eleição de novembro, disse que os relatórios da comissão de 11 de setembro são evidência de que o "governo enganou a América, o governo foi longe demais". Em uma entrevista para uma emissora de rádio de Detroit, Kerry afirmou que o atual governo "não disse a verdade para os americanos sobre o que estava acontecendo ou sobre suas intenções".
Apesar de membros republicanos da comissão bipartidária terem sugerido no passado que sua investigação poderia apoiar a Casa Branca ao revelar amplas ligações entre Saddam e a rede terrorista, a comissão pareceu aceitar os relatórios preliminares, sugerindo que serão usados como base para os capítulos do relatório final da comissão, que será divulgado no próximo mês.
"Ocorreram esforços sistemáticos por parte da Al Qaeda para se associar ao Iraque; muitos deles fracassaram", disse Thomas H. Kean, o ex-governador republicano de Nova Jersey, em uma entrevista.
John F. Lehman, outro republicano da comissão e o secretário da Marinha no governo Reagan, levantou com freqüência a possível colaboração iraquiana com a Al Qaeda. Mas ele não ofereceu crítica aos relatórios preliminares após sua divulgação na quarta-feira. "Eu acho que pela primeira vez apresentamos para o povo americano a compreensão sobre a origem da Al Qaeda", disse ele.
A comissão disse que investigou um dos mistérios persistentes dos ataques de 11 de setembro, se havia verdade no relatório amplamente citado da inteligência tcheca de que Atta se encontrou em Praga, República Tcheca, em abril daquele ano, com um alto oficial de inteligência iraquiana, sugerindo uma ligação iraquiana com a trama.
"Nós não acreditamos que tal encontrou ocorreu", disse a equipe.
Cheney se apoiou nos relatos do encontro em Praga para argumentar que Saddam trabalhou estreitamente com a rede terrorista nos anos 90. O vice-presidente disse em um discurso na segunda-feira que acreditava que o ex-presidente iraquiano era um "patrocinador do terrorismo" e "tinha laços estabelecidos há muito tempo com a Al Qaeda".
Bush disse em setembro do ano passado que "não há dúvida de que Saddam Hussein tinha laços com a Al Qaeda". Richard Clarke, o ex-diretor de contraterrorismo de Bush na Casa Branca, testemunhou para a comissão em março que Bush o pressionou imediatamente após os ataques para que procurasse uma ligação com Saddam. No discurso do Estado da União do ano passado, Bush disse que "Saddam Hussein ajuda e protege os terroristas, incluindo membros da Al Qaeda".
Dimernsão original do ataque
A cronologia, baseada na análise da comissão de relatos altamente confidenciais dos interrogatórios dos líderes capturados da Al Qaeda, mostra que Osama Bin Laden esteve bem mais envolvido no planejamento dos ataques do que antes se sabia, e que aprovou a seleção de cada um dos 19 seqüestradores, e que o plano original pedia por ataques que seriam ainda maiores e mais mortais.
Os investigadores da comissão disseram em um par de relatórios, divulgados em uma audiência pública, que Bin Laden e seus tenentes discutiram as listas de alvos em 1999, que incluíam a Casa Branca, o Capitólio, as sedes da CIA e do FBI, usinas nucleares e arranha-céus nos Estados da Califórnia e Washington, e que envolveriam o seqüestro de dez aviões em vez de quatro. A trama, disse a comissão, incluía originalmente um plano para seqüestrar simultaneamente aviões americanos de passageiros no Sudeste Asiático.
Os relatórios dizem que Bin Laden, que foi descrito no passado como tendo pouco envolvimento na logística da operação, ordenou os ataques de 11 de setembro apesar da oposição de muitos de seus conselheiros e do mulá Omar, o líder do Taleban no Afeganistão.
"Bin Laden derrubou as objeções deles, e os ataques foram em frente", disse um dos relatórios, acrescentando que o terrorista "achou que um ataque contra os Estados Unidos resultaria em um grande aumento de recrutamento e levantamento de fundos".
Os investigadores da comissão disseram que a informação encontrada em um computador capturado da Al Qaeda mostrava que Mohammed Atta, o líder da trama e um dos pilotos dos aviões seqüestrados, foi quem escolheu a data para os ataques, decidindo por um dia após a primeira semana de setembro, quando ele sabia que o Congresso estaria em sessão após o recesso do verão. O relatório disse que tal informação sugere que o Capitólio era o alvo do avião seqüestrado da United Airlines, que caiu em um campo no oeste da Pensilvânia em 11 de setembro.



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