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The New York Times

19/07/2004
Terrorismo aumenta a popularidade do islamismo no mundo
Novo convertido vê jihad romanticamente, como se fosse meio de combater injustiças

Craig S. Smith
Em Saint Pierre-En-Faucigny, França



Os irmãos Courtailler cresceram nesta cidade alpina medieval, filhos de um açougueiro que faliu, se divorciou de sua esposa e arrumou emprego em uma instalação de embalagem de carne longe daqui. Dois de três irmãos, David e Jerome, que estudaram em escolas católicas, afundaram nas drogas até encontrarem a religião: o Islã.

Em um período de cinco anos desde a primeira conversa de David em uma mesquita na cidade de veraneio litorânea de Brighton, na Grã-Bretanha, em 1996, os irmãos abraçaram muitos dos ideais da rede terrorista islâmica na Europa. David, 28 anos, está agora na prisão, e no final de junho, Jerome, 29 anos, se entregou para a polícia na Holanda, dias depois de ter sido condenado em um tribunal de apelações de lá por pertencer a um grupo terrorista internacional.

Os Courtaillers são parte de um crescente grupo de pessoas que adotaram o Islã e então se voltaram para o extremismo, gerando preocupação entre as autoridades antiterrorismo de ambos os lados do Atlântico de que os novos recrutas poderão fornecer aos militantes islâmicos nascidos no exterior invisibilidade e cobertura, escapando da atenção geralmente reservada aos jovens de descendência árabe.

Um punhado de ocidentais já foi preso sob acusação de terrorismo. A experiência deles, temem as autoridades, pode prenunciar o agravamento do problema.

"Convertidos serão usados cada vez mais para ataques pelos círculos jihadistas", disse Jean-Luc Marret, um especialista em terrorismo da Fundação de Pesquisa Estratégica, em Paris. "Eles foram usados no passado para proselitismo, logística e apoio, e são operacionalmente úteis agora."

O Islã é a religião que mais cresce na Europa, e apesar de não haver estatísticas confiáveis, muitos especialistas acreditam que o número de convertidos tem crescido desde 11 de setembro de 2001, de muitas formas devido à campanha contra o terrorismo.

Antoine Sfeir, um estudioso francês que está escrevendo um livro sobre a tendência, disse que um pequeno número de convertidos, muitos deles jovens descontentes e com problemas, viram a atual onda de terrorismo islâmico como "um tipo de combate contra os ricos e poderosos empreendido pelos pobres do planeta".

Apenas uma pequena fração dos ocidentais convertidos ao islamismo simpatiza com o terrorismo, e um número ainda menor se envolve em atividade terrorista. Poucas dezenas de militantes foram identificados até o momento. Um relatório da agência de inteligência doméstica francesa, publicado pelo jornal "Le Figaro", estimou que no ano passado ocorreram entre 30 mil e 50 mil conversões na França.

Mas apesar de ser pequeno o número de atraídos pelo terrorismo, a polícia está se concentrando neste subgrupo como uma ameaça séria e crescente.

"A conversão ao Islã de indivíduos frágeis sem dúvida gera o risco de desvio para o terrorismo", disse o relatório da agência de inteligência, acrescentando que os grupos radicais têm recrutado os convertidos porque eles podem cruzar fronteiras com facilidade, assim como para servir como homens de frente para aluguel de acomodações ou prestação de apoio logístico.

Tendência internacional

O fenômeno não está acontecendo apenas na Europa.

Jack Roche, um motorista de táxi australiano nascido na Grã-Bretanha, se converteu ao Islã, treinou no Afeganistão e retornou à Austrália, onde recentemente foi condenado a nove anos de prisão por tentar explodir a embaixada israelense em Canberra. Enquanto planejava o ataque e realizava uma gravação em vídeo da embaixada, ele foi abordado por um guarda, ao qual ele disse que estava interessado na arquitetura do prédio.

"É mesmo?" respondeu casualmente o guarda, claramente acreditando nele, em uma conversa gravada no vídeo e posteriormente apresentada no julgamento de Roche. "Eu não achei que você fosse explodir o local com uma bomba ou algo assim."

Nos Estados Unidos, Jose Padilla, detido pelo governo sob suspeita de planejar ataques terroristas, se converteu ao Islã em 1992 enquanto estava em uma prisão na Flórida. David e Jerome Courtailler, os irmãos franceses, se deslocavam livremente pela Europa sem chamarem atenção, algo geralmente reservado aos homens jovens de descendência árabe, mesmo depois das autoridades francesas terem sido notificadas de que David tinha sido avistado deixando o Afeganistão.

Em uma entrevista, uma autoridade antiterrorismo francesa disse que muitos convertidos recentes são mulheres, complicando ainda mais o estabelecimento de um perfil padrão.

Os militantes convertidos entram para o Islã de muitas formas, mais notadamente por meio de contato com militantes muçulmanos enquanto cumprem pena nas prisões na Europa, onde a população islâmica cresceu demais. Richard Reid, o chamado homem do sapato-bomba da Grã-Bretanha, se converteu ao Islã enquanto estava na prisão. A população carcerária da França conta atualmente com mais de 50% de muçulmanos.

Outra porta para o Islã é o Tablighi Jamaat, um grupo missionário formado na Índia há 75 anos para promover o Islã diante da dominação hindu. Ela é a maior rede mundial de missionários islâmicos.

O Tablighi Jamaat envia convertidos para estudar em países como a Arábia Saudita e o Paquistão, onde freqüentemente conhecem militantes radicais. Vários ocidentais convertidos conhecidos foram alunos do Tablighi Jamaat, incluindo John Walker Lindh, o americano capturando lutando ao lado do Taleban no Afeganistão em 2002, e Herve Loiseau, um jovem francês que morreu congelado enquanto fugia do ataque americano em Tora Bora, no Afeganistão, no final de 2001.

Outras pessoas se convertem por influência familiar -particularmente na França, onde o casamento entre muçulmanos e cristãos é cada vez mais comum- ou simplesmente por pressão em bairros predominantemente muçulmanos.

Apesar da existência de convertidos no terror islâmico desde o surgimento da primeira geração da Al Qaeda, durante a guerra dos anos 80 contra as tropas soviéticas no Afeganistão, os esforços de recrutamento foram redobrados desde a invasão americana lá, disseram as autoridades. Membros experientes da Al Qaeda começaram a recrutar uma nova geração de militantes por intermédio de mesquitas européias e entre grupos militantes islâmicos locais, disse a polícia.

Jerome Courtailler estava neste último grupo, junto com os franceses Johann Bonte e Jean-Marc Grandvisir. Os três foram presos em 2001 por estarem ligados a um plano para explodir a embaixada americana em Paris, um plano iniciado antes dos ataques de 11 de setembro e programado para ser executado logo depois deles.

Bonte se converteu ao Islã no período em que morou com seu cunhado, Djamel Beghal, um francês nascido na Argélia e membro confesso da Al Qaeda, em Leicester, Inglaterra, em 1999. Jerome Courtailler também se converteu ao Islã em Leicester sob influência de Beghal. Acredita-se que Beghal tenha sido o líder do plano de atentado contra a embaixada americana.

O caminho para a jihad

A estrada de convertido a jihadista pode ser impressionantemente curta, disseram especialistas em terrorismo, porque alguém novo no Islã não possui a carga cultural e a base religiosa para resistir às interpretações radicais do Islã, e muitos chegam com a noção romantizada de um conflito islâmico contra o Ocidente.

"O problema é que quanto menos se sabe sobre o Islã quando se entra nele, mais fácil é para alguém lhe apresentar a 'obrigação esquecida' da jihad", disse Steven Simon, um especialista em terrorismo da Rand Corp.

David Courtailler foi para Brighton em 1996 para se livrar de seu vício em drogas e encontrou apoio entre os muçulmanos conservadores. "Para David, o Islã colocou ordem em sua vida", disse seu advogado, Philibert Lepy.

Investigadores americanos disseram que ele logo estava em companhia dos radicais muçulmanos e permaneceu por um tempo no apartamento usado por Zacarias Moussaoui, que está no momento sendo processado em Alexandria, Virgínia, por envolvimento nos ataques de 11 de setembro.

Em um depoimento no tribunal, David Courtailler disse que os amigos lhe ofereceram uma viagem para estudar o Alcorão no Afeganistão. Ele aceitou e recebeu cerca de US$ 2 mil em dinheiro, um número de telefone em Islamabad, Paquistão, e uma passagem aérea para aquele país. Dias após sua chegada, ele foi levado de carro até a Passagem Khyber e até o notório campo de treinamento de Khalden, da Al Qaeda, perto da cidade afegã de Khost.

Courtailler testemunhou que pediu para ser treinado na fabricação de bombas, mas que seu pedido foi negado porque seu árabe não era bom o suficiente. Sua estada no Campo Khalden coincidiu com a de muitos outros militantes da Al Qaeda, incluindo Reid e Moussaoui, assim como de Ahmed Ressam, que foi condenado pela participação no plano de 1999 para explodir o Aeroporto Internacional de Los Angeles.

Quando Courtailler voltou para a Europa em agosto de 1998, um serviço de inteligência americano notificou o francês que ele e outros três homens treinados pela Al Qaeda estavam a caminho de lá. Mas apesar da informação, Courtailler conseguiu passar pelas fronteiras sem ser detectado, disseram autoridades policiais européias, quase certamente em parte devido à sua etnia.

Segundo autoridades antiterrorismo francesas, um homem em Londres chamado Omar Deghayes, atualmente no centro de detenção das forças armadas americanas em Guantánamo, Cuba, deu a Courtailler os telefones de militantes na Espanha e no Marrocos, incluindo um preso por envolvimento nos atentados contra os trens de Madri em março, e outro que está cumprindo uma sentença de 19 anos por seu envolvimento nos atentados suicidas do ano passado em Casablanca.

Courtailler permaneceu com este último em Tanger, Marrocos. Apenas quando ele voltou à França, vários meses depois, e ao preso por roubar um par de sapatos em Caen, na Normandia, é que as autoridades antiterrorismo francesas ficaram sabendo novamente sobre seu paradeiro. Ele foi acusado de ligação com o terrorismo e libertado sob fiança sete meses depois.

Ele logo desapareceu, viajando novamente para a Grã-Bretanha, onde passou algum tempo em Leicester, onde morava Beghal. Enquanto esteve lá, seu irmão, Jerome, se juntou a ele e se converteu ao Islã.

Os investigadores agora acreditam que, enquanto esteve na Grã-Bretanha em 2000, David Courtailler forneceu ajuda à célula terrorista que estava planejando um grande ataque a bomba. Seu nome estava em uma carteira de motorista francesa falsa encontrada posteriormente junto a uma grande quantidade de explosivos em um apartamento em Birmingham.

Jerome Courtailler se mudou para Roterdã, na Holanda, onde agentes da inteligência holandesa interceptaram seus telefonemas para vários suspeitos de terrorismo, incluindo um jogador de futebol tunisiano chamado Nizar Trabelsi, que seria o homem-bomba suicida no plano da embaixada americana, segundo documentos do tribunal. Jerome também teria conhecido Moussaoui e se encontrado com Reid quando ele esteve na Holanda, comprando os sapatos que eventualmente seriam transformados em bombas.

Jerome Courtailler foi preso dias depois dos ataques de 11 de setembro por ligação com o plano de Paris. Dezenas de passaportes falsos foram encontrados em seu apartamento holandês, juntamente com vídeos da Tchetchênia, do ataque contra a embaixada americana no Quênia e de Osama Bin Laden, além de instruções sobre como fazer uma bomba.

Os investigadores disseram que ele foi a fonte dos passaportes belgas falsos utilizados pelos homens-bomba que mataram o líder da Aliança do Norte, Ahmed Shah Massoud, no Afeganistão, em 9 de setembro de 2001.

Em 2002, um juiz holandês indeferiu as acusações contra Jerome Courtailler, que foi acusado de pertencer a uma organização criminosa internacional, porque a evidência consistia basicamente de informação obtida por meio de grampos ilegais. Nos dois anos seguintes ele morou perto de Saint-Pierre-en-Faucigny sob o olhar vigilante dos serviços de inteligência da França.

O promotor holandês no caso apelou da decisão, e Jerome Courtailler foi condenado e sentenciado a seis anos de prisão. Ele se entregou em Roterdã em 24 de junho.

Enquanto isso, David Courtailler também foi condenado recentemente de ligação com terroristas com a intenção de executar atos violentos. Ele está atualmente cumprindo o que resta de sua pena de quatro anos, já tendo cumprido mais de um ano enquanto aguardava julgamento e tendo dois anos da sentença suspensos. Sem novas acusações, ele estará livre em cerca de seis meses.

Tradução: George El Khouri Andolfato

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