25/07/2006 O que o faz feliz? Para muitos americanos, a busca pela felicidade significa empilhar televisões de plasma, SUVs e McMansões. Mas as pesquisas sugerem que o verdadeiro êxtase tem pouco a ver com bens materiais Tim Madigan do Fort Worth Star-Telegram Em 1776, quando Thomas Jefferson escreveu a Declaração de Independência, ele listou a busca pela felicidade como um direito inalienável, logo depois do direito à vida e à liberdade. É um fato histórico pouco conhecido que Jefferson, John Adams e companhia também esperavam que algum dia a busca pela felicidade incluiria comprar um Lexus e um Hummer encher uma garagem para três carros, uma McMansão, uma televisão de plasma ou três, e cirurgias cosméticas, da cabeça aos pés. Com tudo isso, os Pais Fundadores secretamente teorizavam, os americanos seriam "realmente" felizes.
Parece que os Pais Fundadores estavam errados.
Não que o americano médio queira trocar de lugar com o povo de Darfur, ou Haiti, ou até do México, pois é verdadeiramente difícil ser feliz quando seus filhos estão passando fome. Mas no último século, nós nos EUA vimos crescer a renda, o poder de compra e luxos sem precedentes na história da humanidade, sem presenciarmos um aumento correspondente no sentimento de contentamento. Em vez disso, nos últimos 50 anos, vivemos em uma linha reta de felicidade, o que o famoso economista britânico Richard Layard chamou de "platô da felicidade", uma real e preocupante desconexão entre o que temos e como nos sentimos (se servir de consolo, os japoneses são ainda menos agradecidos, diz ele.)
Foi essa desconexão, esse descontentamento relativo que ajudou a inspirar a recente onda de interesse entre cientistas sociais, jornalistas e psicólogos. O livro de Layard, aclamado pela crítica, "Happiness: Lessons From a New Science" (Felicidade: Lições De uma Nova Ciência), foi recentemente publicado em versão de bolso, entre a enorme quantidade de títulos sobre o tópico a atingir as lojas nos últimos anos. (Outro, "Stumbling on Happiness" - ou Tropeçando na Felicidade - do psicólogo de Harvard Daniel Gilbert, está chegando à lista de livros mais bem vendidos).
O estudo do que torna as pessoas felizes contra o que as deixa deprimidas, ou a chamada "Psicologia Positiva", é a mais nova tendência do campo, e revistas nacionais importantes comumente avaliam a felicidade e suas charadas.
No final, as questões parecem ser: Por que não ficamos mais felizes quando ficamos mais ricos? E se o dinheiro não pode trazer felicidade, como nossas mães sempre disseram, exatamente onde e como a encontramos?
Essas são perguntas cruciais, certamente valem o trabalho de nossas melhores mentes, e inevitavelmente levam a, você nunca vai adivinhar -o reino budista do Butão. Encontramos os butaneses pelo livro de Layard. É um povo isolado no Himalaia cujo rei decidiu, em 1998, que o objetivo do país seria a Felicidade Nacional Bruta. Uma coisa louvável sob todos os aspectos. O problema é que o rei permitiu que a televisão entrasse no país pela primeira vez no ano seguinte.
"E então os butaneses puderam ver a mistura comum de futebol, violência, traição sexual, propaganda, lutas e afins", escreve Layard. "Eles adoraram, mas o impacto em sua sociedade fornece um experimento notável sobre como a mudança tecnológica pode afetar atitude e comportamento... logo se observou um aumento profundo em rompimentos familiares, crimes e consumo de drogas."
Nos últimos anos, o governo butanês vem tentando banir do país a televisão, ou ao menos os programas mais odiosos. Boa sorte. Mas o infortúnio do rei e seu povo é verdadeiramente uma história para nosso tempo. Na maior parte das discussões inteligentes sobre o que há de errado em nossa sociedade, sobre o que existe entre nós e nosso êxtase, a televisão leva uma surra tremenda.
Para começar, dá uma dieta constante de violência, sexo sem alma, desonestidade, traição e intriga -aquele bufê eletrônico com o qual nós e nossos filhos continuamente nos fartamos. Não que a violência e o sexo sem alma não aconteçam na vida real, mas não com tanta freqüência que a televisão faz parecer. E agora os dados estão claros: quanto mais televisão assistimos, mais anestesiados, violentos e sem base nos tornamos.
No entanto, há outro grande problema no que concerne a relação da televisão com a felicidade. Layard e outros sociólogos concluem que nossa felicidade não depende tanto do que temos, mas sobre como nossas coisas se comparam com o resto do mundo, como o vizinho da frente ou o sujeito no escritório ao lado. As pessoas na televisão são outro meio de comparação, com suas riquezas e corpos jovens. Simultaneamente somos bombardeados com propagandas que nos fazem confundir necessidades e vontades. Você já está formando o quadro da situação.
"Não acho que a televisão faça muito bem", disse Layard em recente entrevista telefônica de seu escritório em Londres. (Sim, os britânicos têm uma queda pelos eufemismos). "Ela eleva o glamour e o apego ao sucesso e muitas pessoas que têm sucesso na televisão não são muito boas. E a propaganda faz você achar que precisa de coisas das quais realmente não precisa. Todos nós sabemos que um dos segredos para a felicidade é estar satisfeito com o que se tem. Fiz uma pesquisa nos EUA que mostrou que quanto mais você assiste televisão, menos feliz você é."
Uma solução simples: menos televisão, é claro. Layard também sugere maior investimento nas coisas que realmente nos tornam felizes -família e amigos, um trabalho significativo do qual gostemos, envolvimento na comunidade, menos ênfase em ter e mais em dar. O economista britânico não está exatamente ansioso com isso tudo. Mas do jeito que vai a vida e pelo que os estudos demonstram, algo terá que mudar.
"Acho que haverá uma espécie de renascimento espiritual ou de um sentido maior de solidariedade entre as pessoas", diz Layard. "Essas coisas dão voltas. Esse tem sido um dos períodos mais ferozmente individualistas, e eu acho que vamos começar a ver alguma reação contra isso. O fato de as pessoas estarem lendo esses livros mostra que estão desencantadas com a idéia de que a busca pelo ganho pessoal vai fazer todos terem uma vida agradável e significativa."
Boliche é um esporte de equipe
Ou talvez o problema seja o boliche. Talvez não o boliche por si só, mas alugar um par de sapatos e uma bola e depois jogá-la pelas pistas sozinho. Ou talvez... ok, é melhor começar do início.
Há seis anos, o professor de governo de Harvard Robert Putnam publicou um livro chamado "Bowling Alone" (boliche sozinho), que resumiu em recente ensaio na Time.
"Argumentei que o tecido das comunidades americanas esgarçou-se muito desde meados da década de 60", escreveu Putnam. "Acompanhei um mergulho do número de associados em Associações de Pais e Professores, sindicatos e clubes de todo o tipo, uma queda de longo prazo nas doações de sangue, jogos de cartas e caridade; e quedas de 40 a 60% em jantares, reuniões cívicas, lanches de família, piqueniques e sim, de jogos de boliche em equipe."
As conclusões alarmantes de Putman em "Bowling Alone" foram recebidas como as advertências de Al Gore sobre o aquecimento global, ou seja, com silêncio ou ceticismo. Mas então, no mês passado, a revista American Sociological Review publicou um estudo no qual se pediu a 1.467 que descrevessem com quem recentemente discutiram assuntos importantes. Em pesquisa similar em 1984, foram listados três amigos íntimos. Vinte anos depois, de acordo com o estudo, esse número caiu para dois.
Putnam tenta não se vangloriar, mas agora diz que o debate sobre a profundeza de nosso isolamento social acabou. Estamos terrivelmente solitários, e como resultado, "nossos filhos não prosperam. O crime aumenta. A política fica mais dura. A generosidade encolhe. A morte vem mais cedo", escreveu na "Time".
Como Layard, Putnam diz que a televisão em grande parte é culpada pelo estado das coisas. (Só um pouco mais de crítica à televisão, prometo).
"A televisão não é de todo ruim em termos de união social", disse Putnam em recente entrevista. "Assistir ao noticiário é bom para a saúde cívica. Mas a maior parte dos americanos não assiste ao noticiário. Eles assistem 'Friends ' em vez de fazerem amigos. A televisão de entretenimento é letal para nossa conexão social porque assistimos sozinhos. Não é que gostamos tanto de televisão. É que é tão fácil. Você não tem que coordenar. Não tem que ligar. Aperte o botão, e está ali."
Mais culpados
Mas e a expansão urbana? Putnam diz que a cada 10 minutos de tempo da casa ao trabalho corta nossa conexão social em 10%. E nossa incapacidade de lidar com as mudanças mais drásticas na força de trabalho americana desde a Revolução Industrial?
"Entre 1960 e hoje, um terço dos trabalhadores americanos mudaram da cozinha para o escritório, mas não houve mudança na estrutura do local de trabalho, na forma como projetamos os dias de trabalho e as carreiras", diz Putnam. "Ainda estamos operando com uma imagem da Era Industrial de como trabalho e família devem se encaixar. Assumimos que todo mundo trabalha de nove às cinco e todo mundo tem mulher em casa, quando quase ninguém tem. Precisamos tornar possível para homens e mulheres reconciliarem suas obrigações profissionais com as obrigações comunitárias e de família."
Também ajudaria, diz Putnam, se os americanos finalmente ouvissem suas mães.
"É impressionante como as posses materiais têm pouco efeito sobre a felicidade", diz Putnam. "Os dados, as evidências, são claros. O dinheiro pode comprar a felicidade, mas não muita, e somente se você for um agricultor indiano. Ninguém vai estar feliz daqui a um ano, se ficar muito mais rico. As conexões, por outro lado, são muito fortes. Conexões de família. Cônjuges. Amigos."
Fato histórico pouco conhecido.
Tradução: Deborah Weinberg UOL Busca - Veja o que já foi publicado com a(s) palavra(s) | |