Esqueça a substância. Nesta semana estou totalmente voltada para a forma, nas primeiras impressões, a deixar a teatralidade dominar o dia.
Eu abracei esta mentalidade após assistir à primeira aparição do presidente Obama no palco internacional. Ou mais precisamente, após perceber que as Américas não tinham nenhuma chance de competir com a substância de sua visita de oito dias e três encontros de cúpula à Europa, cobrindo assuntos tão diversos quanto a criação de uma nova ordem financeira mundial, controle de armas nucleares, eliminação da ameaça da Al Qaeda e reconstrução das relações dos Estados Unidos com o mundo muçulmano.
Não há como superar isso. A próxima incursão internacional de Obama será no sul, com uma parada de um dia no México antes de seguir para a 5ª Cúpula das Américas em Trinidad e Tobago, onde as questões na agenda são a prosperidade humana, segurança de energia e sustentabilidade ambiental.
Não me entenda mal: estas são questões críticas. Mas para extrair o máximo da primeira visita de Obama à América Latina e Caribe - em um momento que seu status de astro do rock ainda é forte- uma cúpula de dois dias de reuniões basicamente a portas fechadas, uma fotografia com os outros 33 líderes das Américas e a emissão de uma declaração de mais de 10 páginas com todo o tipo de boas intenções, não basta.
Então, o que eu quero? Outra rodada da ofensiva de charme de Obama. Uma oportunidade para que ele converse diretamente com as pessoas e as convide a pensar, como fez na Europa, "a respeito do futuro e não do passado", sobre a possibilidade de elaborar "soluções comuns para nossos problemas comuns", sobre a urgência de um "novo espírito de ativismo e responsabilidade" e sobre a noção de que "a América está mudando, mas não basta que apenas a América mude".
A região está pronta para isso. "Não deve ser subestimada a importância de um tom diferente, de um estilo diferente, especialmente na América Latina, onde uma grande fonte de irritação tem sido o tratamento que recebe dos Estados Unidos, em vez de substância", disse Michael Shifter, do centro de estudos Diálogo Interamericano, com sede em Washington.
Pesquisas recentes mostram que Obama é ainda mais respeitado na América Latina do que nos Estados Unidos. Com um evento como o encontro na prefeitura de Estrasburgo, França, ou a mesa redonda com estudantes em Istambul, Turquia, Obama conseguiu reduzir o sentimento antiamericano que fervilha na região.
"Nós não temos há muito tempo um líder mundial com o apelo de Obama", disse Simon Rosenberg, presidente do centro de estudos de inclinação de esquerda NDN, em Washington, que acrescentou que o poder do presidente de estender a mão não se deve apenas às comunicações atuais, mas também ao seu desejo de falar direta e abertamente às pessoas de todas as partes. "A política de baixo para cima que vimos na eleição está se transformando em global", disse Rosenberg.
Enquanto escrevo esta coluna, Obama tem apenas dois eventos públicos marcados para sua viagem ao sul: um evento "digital" no México, no qual ele "se comunicará com um grande número de pessoas", segundo um alto funcionário do Departamento de Estado, e um discurso durante a cerimônia de abertura da Cúpula, após os discursos da presidente da Argentina, Cristina Kirchner; do presidente da Nicarágua, Daniel Ortega; do primeiro-ministro de Belize, Dean Barrow; e do primeiro-ministro de Trinidad e Tobago, Patrick Manning. Não exatamente o Grammy Latino.
A Casa Branca diz que a agenda de Obama ainda não foi finalizada. Mas mesmo se ele não tiver a oportunidade de falar diretamente para as pessoas das Américas desta vez, é improvável que Obama será superado como foi o presidente George W. Bush na última Cúpula das Américas. Em 2005 em Mar del Plata, Argentina, o presidente da Venezuela, Hugo Chávez, liderou uma contra-cúpula que culminou em um comício em um estádio de futebol, que roubou grande parte da atenção da mídia.
Chávez certamente era o astro do rock naquele momento, mas sua popularidade era alimentada em grande grau pelo enorme sentimento anti-Bush e pela oposição às políticas e estilo do governo Bush. Desta vez, o novo presidente americano é simplesmente popular demais para Chávez tentar um show paralelo semelhante. "Isso apenas prejudicaria Chávez", disse Shifter.
Talvez meu desejo de um encontro de Obama com as pessoas tenha muito a ver com o que vi em Mar del Plata. Muitas das pessoas que marcharam eram motivadas pela raiva e amargura, não por qualquer coisa que pudesse ser classificada como edificante ou construtiva. Enquanto Chávez explora o populismo para criar divisão, Obama parece estar tentando algo diferente.
"Nós estamos unidos por nossa busca de uma vida que seja produtiva e que tenha propósito", disse Obama aos estudantes em Istambul. E quando as pessoas percebem isso, "a desconfiança começa a desaparecer e nossas pequenas diferenças não mais ofuscam as coisas que compartilhamos. E é onde o progresso começa".
*Marcela Sanchez é uma jornalista baseada em Washington desde o início dos anos 90 e uma colunista distribuída para vários jornais há mais de seis anos.
Tradução: George El Khouri Andolfato