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27/12/2008 - 00h40

A praga de Leopoldo

Prospect
Tim Butcher
A história se ri do povo do Congo. No início de novembro, o país deveria estar celebrando um marco na história de direitos humanos internacional, uma das primeiras ocasiões em que manifestantes em torno mundo se uniram para protestar em ampla escala.

Exatamente há 100 anos, o comportamento dos agentes coloniais do rei belga Leopoldo II provocaram justamente isso. Na época, o Congo era uma "questão" que gerou uma tempestade de publicidade, da Europa até os EUA, e atraiu vastas multidões a debates públicos para condenar o comportamento dos representantes de Leopoldo que pilhavam a borracha natural da bacia do rio Congo. Hoje, a história está se repetindo, com a China, e não a Bélgica, liderando a exploração do país.

Nos primeiros anos do último século, celebridades como Mark Twain e Arthur Conan Doyle se envolveram na questão, junto com personagens como Roger Casement, o diplomata britânico mais tarde executado por traição, e George Washington Williams, jornalista americano negro com mais audácia do que a Oprah.

Graças em parte a essa campanha, Leopoldo II foi forçado, em novembro de 1908, a desistir de chamar o Congo de seu território pessoal e entregá-lo ao governo da Bélgica. O Congo não seria mais administrado secretamente por exploradores irresponsáveis. Nascia uma colônia belga comprometida com padrões de direitos humanos mais elevados. Entretanto, celebrar esse centenário não parece apropriado diante dos atuais eventos.

As batalhas hoje no Kivu do Norte e do Sul forçaram a fuga de 250.000. Como se não bastasse, a transferência de poder há um século foi um amanhecer falso da esperança. O Congo, ou a República Democrática do Congo (RDC), para usar seu nome moderno, tem estado preso a uma espiral de sofrimento desde então. O que já era ruim durante o governo belga e piorou gradativamente desde a independência em 1960.

Estima-se que 1.500 almas morrem todos os dias na RDC como resultado da violência e conflitos. Não houve um único período no Iraque pós-Saddam e no Afeganistão afligido pelo Taleban com um total de mortes diário que chegasse perto. Alguns morrem lutando. A maior parte, contudo, morre por que, neste mais fracassado dos países, os padrões de saúde, água e nutrição reverteram para a Idade Média.

Quando atravessei este vasto país - que, de um lado ao outro, é a distância de Londres e Moscou - fazendo pesquisas para um livro, fiquei impressionado com a escala de sua decadência. Meu trabalho como jornalista já tinha me levado a países subdesenvolvidos. O Congo, entretanto, estava decaindo tão ativamente que o relógio parecia andar para trás.

Depois da Guerra Fria, especialistas em relações internacionais tornaram uma nova prioridade consertar os governos fracassados e, após 11 de setembro, houve conversas sobre a necessidade de impedir que Estados desmoronassem, pelo menos para secar o meio de cultura para o ressentimento contra o Ocidente e a modernidade. Mas ninguém foi capaz de impedir a queda da RDC.

No Congo, quase não há instituições que mereçam o título. O sistema de saúde é pontual e mal atinge áreas fora da capital, Kinshasa. A malha rodoviária acabou. Não há bancos. Mandar uma carta tem sido impensável há décadas.

E o exército é um conflito anárquico de brutos indisciplinados. No Leste, que detém muitas das riquezas minerais do país, o exército é um agrupamento de rebeldes e auto-proclamados combatentes pela liberdade, com pouca lealdade à estrutura de comando central. A maior parte ingressou ao serviço em busca dos poucos dólares pagos por dia como parte de um processo de paz internacional, uma resposta ao conflito que afligiu o Congo de 1998 a 2003.

Grupos que estavam tentando se matar até pouco tempo hoje devem combater lado a lado. Poderia ser engraçado, se os riscos não fossem tão altos para aqueles que são forçados a viver uma existência pós-apocalíptica, selvagem em áreas como os Kivus, no Leste.

Aqui as pessoas aprendem com a dura experiência o que acontece quando unidades "do exército" passam pela região. Os aldeões podem esperar perder tudo, inclusive a dignidade das meninas (que são estupradas rotineiramente) e a vida de qualquer um tolo o suficiente para se defender. Eu estimo que a maior parte dos refugiados da atual crise não fugiu dos rebeldes, e sim do governo, das próprias pessoas que deveriam estar cuidando do povo.

Quem tenta explicar o atual combate em termos de diferenças tribais, entre os Banyamulenge associados aos tutsis do Leste do Congo e alguns grupos associados aos hutus, está enganado. Sim, o genocídio de Ruanda em 1994 afetou esta região. Entretanto, em um Estado tão fracassado quanto o Congo, fricções tribais relativamente pequenas podem virar uma crise nacional. E a atual crise precisa ser compreendida como nos tempos do rei Leopoldo: como uma batalha pelos ricos recursos naturais do Congo.

Muitos grupos tribais do país se ressentem da elite governante em Kinshasa. Esses ressentimentos foram exacerbados pela inveja diante dos amplos contratos recentemente assinados entre a China e o governo presidente Joseph Kabila. A ira se concentrou na probabilidade de Kabila e seu círculo íntimo, de sua base na província de Katanga no Sul, ganharem vastas somas desses acordos opacos.

O apetite da economia chinesa criou tensão pela África, com empresários chineses dispostos a gastar amplas somas por matérias-primas escassas. Países como Zâmbia e Serra Leoa, acostumados a depender de ajuda, viram-se com uma renda sem precedentes. Detalhes dos contratos e dos subornos lucrativos são raros. Mas a escala se tornou clara quando, há dois anos, a China prometeu ao Congo US$ 5 bilhões (cerca de R$ 10 bilhões) em troca dos direitos a grande parte de seu cobre, cobalto, ferro e outros minerais.

A soma enorme gerou massas desprovidas nas regiões do Congo, que não verão um centavo de Kinshasa da forma como as coisas estão. Também inspirou os rebeldes influenciados pelos tutsis dos Kivus, liderados pelo general Laurent Nkunda, que tentam forçar Kabila a compartilhar os lucros.

O fato de Ruanda fornecer armas, munição, homens e comunicações aos rebeldes de Nkundu é um dos piores segredos da África. O Ocidente se faz de cego, olhando para Ruanda com os olhos dos eventos de 1994, quando 800.000 tutsis e hutus moderados foram assassinados por extremistas hutus. Diante de tal cenário, o atual governo controlado pelos tutsis de Ruanda não pode estar errado.

Entretanto, Ruanda é Israel da África Central, um país criado pelo sofrimento, com um exército muito superior aos de seus vizinhos e influência pela região dos grandes lagos. Nossa sensação de culpa por 1994 não deve nos impedir de criticar Ruanda por fomentar a atual violência. Nem tampouco a culpa pelos resultados da confusão colonial na África há mais de um século nos impedir de criticar os chineses por provocarem um novo ciclo de violência.

Tim Butcher é jornalista e escritor

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