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03/01/2009 - 00h01

Hamid Karzai, presidente do Afeganistão: a coalizão usa bandidos; mais soldados não vão ajudar

USA Today
Kim Barker
O presidente do Afeganistão, Hamid Karzai, deu uma entrevista ao correspondente do "Chicago Tribune" em Cabul na semana passada. Karzai reagiu a críticas feitas por Barack Obama quando ainda era candidato à presidência dos EUA, e por sua vez criticou as operações militares lideradas pelos americanos em seu país e pediu mais enfoque para o combate ao terrorismo no vizinho Paquistão do que no Afeganistão. Abaixo, trechos da entrevista.

Chicago Tribune - O que o senhor acha de ser descrito [pelo então candidato presidencial Obama] como fraco ou passando tempo demais em um bunker?

Hamid Karzai -
Bunker? Estamos em uma trincheira, e nossos aliados estão conosco na trincheira. Estávamos em uma colina com um sucesso glorioso em 2002 (depois de expulsar o regime taleban após dos atentados de 11 de Setembro nos EUA), totalmente apoiados pela população afegã. ... E os taleban e a Al Qaeda foram derrotados sem luta, especialmente no sul do Afeganistão. ... Agora precisamos olhar para trás e descobrir por que estamos em uma trincheira. Por que estamos em um bunker? Milhares de taleban voltaram para suas casas e começaram uma vida normal. As forças da coalizão começaram a empregar bandidos e foram com esses bandidos às casas de centenas de idosos e moradores de comunidades, os assustaram e os fizeram fugir do Afeganistão.

Estou surpreso de que a população afegã ainda tenha tanta confiança no que estamos fazendo. Me surpreende que as pessoas, depois de ter sido bombardeadas tantas vezes, com seus filhos e famílias mortos, destroçados, ainda me procuram como seu presidente. ... E podemos sair facilmente do bunker, ou como eu digo, da trincheira, se começarmos a corrigir nosso comportamento.

A comunidade internacional deveria corrigir seu comportamento e o governo afegão deveria ser ajudado a fazer mais. ... Durante anos temos dito que devemos nos concentrar nos santuários [dos rebeldes]. Fomos ignorados. Durante anos tenho dito que a guerra ao terrorismo não é no Afeganistão, que é nos campos de treinamento, nos santuários [no Paquistão].

Em vez de ir para lá, a coalizão percorreu as aldeias afegãs, invadiu as casas das pessoas e... [tem cometido] matanças extrajudiciais em nosso país. O último exemplo foi anteontem em Khowst, onde um homem, uma mulher e um menino de 12 anos foram mortos. Eram da Al Qaeda? E, mesmo que fossem, havia uma ordem de um tribunal para executá-los dentro de suas casas? E se eles fossem, o menino de 12 anos também era da Al Qaeda? Ou a mulher? E se esse comportamento continuar estaremos em uma trincheira mais profunda do que estamos hoje. E a guerra contra o terrorismo acabará em uma derrota infeliz.

CT - O que o senhor quer dizer com "a coalizão contratou bandidos"?

Karzai -
Eles contrataram bandidos [afegãos]... bandidos ou chefes guerreiros ou seja o que for. Eles criaram milícias com pessoas que não tinham limites de comportamento e que eram enviadas às casas das pessoas para vasculhar, para prendê-las e intimidá-las. E tentamos dizer a eles durante sete anos que isso é errado. Tentamos controlar isso. Houve uma certa melhora, mas continua acontecendo. ... E isso tem de parar se quisermos ter sucesso. Somente então poderemos começar a construir o governo afegão.

CT - Mas o Ocidente agora fala em fazer uma espécie de movimento de Despertar [os lutadores árabes principalmente sunitas no Iraque que hoje servem ao governo] no Afeganistão, o que faria exatamente isso que o senhor está falando - dar força aos grupos tribais.

Karzai -
Isso é errado. Se criarmos milícias novamente, estaremos arruinando este país ainda mais. Não é isso que eu quero. Eu tenho dito há muito tempo, em primeiro lugar em formar uma força policial adequada. Durante muito tempo isso não aconteceu, mas agora está começando a acontecer. E falei durante muito tempo sobre recuperar a confiança das comunidades, o que significa, na primeira etapa, parar de assediá-las, parar de invadir suas casas, parar de detê-las sem motivo e parar de bombardear as aldeias. Quando isso acontecer, começaremos o processo de recuperação. Os taleban foram derrotados com a ajuda das mesmas pessoas que hoje estão sob o ataque das forças da coalizão. E esse ataque deve parar.

CT - Como mais tropas vão resolver os problemas do Afeganistão?

Karzai -
Enviar mais tropas para cidades afegãs, para as aldeias, não vai solucionar nada. Enviar mais tropas para controlar a fronteira é sensato. Enviar mais tropas para ajudar os afegãos a recuperar os territórios que tínhamos, que cometendo erros terríveis perdemos para os taleban, faz sentido. É aí que eu preciso de ajuda. Não preciso de ajuda em outros lugares.

CT - Mas os EUA estão falando em mandar 4 mil soldados para as províncias de Wardak e Logar, próximas a Cabul, no mês que vem. O que o senhor acha disso?

Karzai -
Acho que não precisamos de forças lá. Acho que precisamos delas na fronteira e acho que precisamos delas especialmente para recuperar (a província sulina de) Helmand, sob o controle do povo afegão e da lei afegã.

CT - Existe um prazo para as tropas estrangeiras deixarem o Afeganistão?

Karzai -
Não existe um prazo, exatamente. Não queremos isso. Queremos uma data de sucesso, não um prazo final. Queremos tempo para o sucesso. Queremos tempo para cumprir a missão. E cumprir a missão é derrotar o terrorismo e um Afeganistão próspero, pacífico e democrático.

CT - O senhor acredita que seu vizinho Paquistão leva a sério a guerra ao terrorismo?

Karzai -
O presidente [Asif Ali] Zardari sim, sem dúvida - não há dúvida sobre isso. E espero que ele e seu governo tenham sucesso nesse sentido. ... Eu tenho plena confiança nele e em suas intenções. Ele sofreu pessoalmente uma perda colossal [o assassinato em dezembro passado de sua mulher, a ex-primeira-ministra Benazir Bhutto] nas mãos do terrorismo, por isso tenho certeza de que ele vai fazer a coisa certa.

CT - E sobre a capacidade do governo civil paquistanês de controlar os poderosos exército e órgãos de inteligência de seu país?

Karzai -
Essa é outra questão. A intenção do presidente Zardari é certa. A capacidade é algo em que todos devemos ajudar.

CT - Qual é a situação neste momento das negociações com os taleban?

Karzai -
Eu gostaria muito de negociar com eles. Essa foi minha opinião desde o primeiro dia. Mas não tenho o endereço deles. Não sei onde encontrá-los. Você pode encontrar os taleban paquistaneses... mas não sei onde encontrar os taleban afegãos.

CT - O que o senhor pensa do presidente eleito Obama?

Karzai -
Eu o acho uma pessoa muito capaz e tenho certeza de que ele tem uma compreensão das necessidades e dificuldades do povo afegão. Não estou tratando seus comentários como críticas a mim. Ele lê reportagens... Veja, estamos passando por um período muito difícil, tanto para os EUA como para o Afeganistão nesta guerra contra o terrorismo. E essa é uma jornada que já dura muito tempo e vai continuar por muito tempo ainda. E nessa jornada há dias em que você não está contente com o outro. Há dias em que você fala mais alto que baixo. Às vezes a liderança americana tolerou meu discurso extremamente duro, e estou grato a eles por isso. E às vezes eu tolerei sua falta de conhecimento e de informação sobre o Afeganistão.

CT - De muitas maneiras, parece que o senhor se tornou a face do que deu errado no Afeganistão, e as pessoas simplesmente culpam o presidente Karzai por tudo. O que o senhor acha disso?

Karzai -
É absolutamente errado, mas eu sou o presidente. Naturalmente as pessoas vão me culpar. Eu sou o presidente, sou o saco de pancadas. ... E a população afegã tem expectativas, a comunidade internacional tem expectativas, eu tenho expectativas, a população afegã tem expectativas sobre as comunidades internacionais. ... Mas a população afegã sabe que meu coração é dela e meu trabalho é para ela.

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