
01/09/2004 18h51

Como o software livre afeta o PC da sua casa

Cezar Taurion * Especial para o UOL Mundo Digital

O usuário doméstico usa seu PC para apoio às suas atividades diárias e quer apenas que o software que rode neste equipamento cumpra as funcionalidades para as quais foi criado. Este usuário não modifica o código fonte do software, pelo simples fato de não ter conhecimento para isso e, também, por não ser um hacker. Para lembrar, o código fonte é o próprio software, escrito em uma linguagem de alto nível (como C, Cobol ou Java). É a estrutura do software, sendo diferente do código binário ou código diretamente lido pelo hardware. O código fonte é uma estrutura lógica que só os programadores ou aqueles que entendem da linguagem de programação estão capacitados a desvendar.
Os usuários domésticos não querem, e nem sabem, instalar sistemas e periféricos e preferem que as máquinas já venham com os softwares básicos (sistema operacional e suíte de escritório) instalados. Qualquer periférico adicional deve ser instalado na tomada, conectado ao computador e ativado por plug-and-play. O usuário doméstico privilegia basicamente simplicidade de uso (ligar e usar), acesso a softwares populares (troca de arquivos com outros indivíduos e facilidade de obter suporte informal, por amigos e colegas) e custos reduzidos.
Neste contexto, vamos analisar a situação dos pacotes de aplicativos de escritório tradicionais, que são suítes (conjuntos de programas) que incluem editor de textos, planilha eletrônica, programa para preparação de apresentações, banco de dados, além de programa de e-mails e alguns outros produtos. Versões proprietárias dessas suítes representam negócios bilionários para as empresas que as produzem.
Hoje, para o típico usuário doméstico, a combinação do sistema operacional mais comum do mercado, junto com uma suíte proprietária, apresenta um excesso de desempenho, com uma oferta de funcionalidades que está acima das necessidades desses usuários. Pagar por funcionalidades que não serão exploradas é algo que desestimula o potencial comprador. Para este público, a oferta de alternativas em software livre torna-se bastante atraente. Entretanto, pelo fato de existir um virtual monopólio de software, todo e qualquer micro adquirido pelo usuário já vem com um conjunto de softwares instalados. Querendo ou não utilizá-lo, o usuário paga por ele. Como não tem sentido pagar e depois desinstalar, acaba-se usando o software proprietário que veio com o computador.
E que alternativas de software livre estão disponíveis para o usuário doméstico? Como substituto das suítes proprietárias famosas, seja rodando em Linux, seja rodando em Windows, temos o OpenOffice. Reconhecido como um produto de alta qualidade, ele implementa funcionalidades similares, incluindo um editor de textos (Writer), uma planilha eletrônica (Calc) e um programa similar ao PowerPoint, o Impress. Entretanto, não implementa nenhum software de banco de dados e não tem aplicativo de e-mail. O OpenOffice também não conta com editor de HTML, incluído em algumas versões de pacotes de escritório. Caso o usuário precise dessas funcionalidades, todas essas lacunas podem ser preenchidas com alternativas de outros softwares livres.
O OpenOffice é diferente dos pacotes proprietários. Ele não é uma suíte de programas, mas, sim, um único programa com diversos módulos. Sendo um único programa, as opções para todos os módulos podem ser definidas em uma única caixa de diálogos. As opções que se aplicam a todos os módulos somente precisam ser assinaladas uma única vez. Isso significa também que diversos tipos de documentos podem ser abertos sem a necessidade de sair do programa. Por exemplo, se um usuário estiver trabalhando em uma planilha, ele pode abrir uma apresentação sem sair do programa.
O OpenOffice salva seus arquivos em formato comprimido. Isto quer dizer que ler e gravar documentos pode ser um pouco mais demorado, principalmente em máquinas com processadores mais antigos. Por outro lado, torna os arquivos até 60% menores. Se você tiver problemas de espaço em disco, essa é uma diferença importante. Além disso, tamanhos menores significam menos tempo de envio de arquivos via e-mail.
As experiências de usuários têm mostrado que em documentos básicos gerados por programas proprietários, o OpenOffice consegue ler e trabalhar sem problemas, embora em determinadas situações possa haver algumas perdas de layouts. Os usuários mais sofisticados, que utilizam macros, também enfrentam problemas de compatibilidade. As planilhas protegidas por senhas não podem ser abertas pelo OpenOffice. Outra fonte de incompatibilidade são objetos embutidos, como uma planilha inserida em um documento de texto. Mas, no geral, a opção OpenOffice pode e deve ser considerada pelo usuário doméstico.
O software livre chegou para ficar e abre novas alternativas para os usuários. O principal ganho é a possibilidade que ele nos traz de escolher, permitir que usemos nos nossos computadores os softwares de que realmente precisamos, e pelos quais percebemos valor real compatível com seu custo.
(*)Cezar Taurion é gerente de Novas Tecnologias Aplicadas da IBM Brasil e autor do livro "Software Livre - Potencialidades e Modelos de Negócios"
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