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 SOFTWARE LIVRE

21/10/2004 16h26

Computação filantrópica com software livre

Cezar Taurion *
Especial para o UOL Mundo Digital

O conceito de se usar redes de PCs para resolver problemas computacionais popularizou-se com o sucesso do projeto SETI@Home, de busca por vida extraterrena. O já famoso projeto SETI (Search For ExtraTerrestrial Intelligence) é uma pesquisa científica que se propõe a detectar vida inteligente fora da Terra, e é considerado um dos mais sérios projetos científicos dessa natureza.

A idéia surgiu em 1959, quando dois cientistas, Phil Morrison e Giuseppe Cocconi, propuseram ouvir sinais com largura de banda estreita (como os das emissões de TV), mas que fossem diferentes do ruído emanado das estrelas e de outras fontes naturais. Tais sinais seriam evidência de tecnologia e, portanto, de vida inteligente. A escolha de sinais de rádio deu-se por eles sofrerem pouca interferência e atenuação (perda de potência) e por serem o meio mais provável de detectar vida inteligente extraterrena.

O SETI@Home é baseado na idéia de voluntariado, onde um usuário toma a decisão deliberada de ceder ciclos ociosos de seu PC para contribuir com uma determinada organização a executar uma tarefa, seja pesquisa por vida extraterrena, cura do câncer, pesquisa climatológica, seja por qualquer outra iniciativa. Esta modalidade de computação está sendo chamada de "computação filantrópica".

A idéia por trás deste projeto é simples. Após o usuário se cadastrar como voluntário no site específico, um pequeno programa é transferido (através de download) para o seu PC. Este programa é responsável pela comunicação via Internet com o servidor central, bem como pela utilização dos ciclos ociosos do PC, para execução da tarefa computacional solicitada. A aplicação também não deve interferir com utilização diária do PC, e apenas consome ciclos de processador quando o computador estiver inativo. De maneira geral, ela opera como um "protetor de tela".

O projeto SETI@Home tem sido auxiliado de muitas maneiras. Além dos voluntários que contribuem com ciclos de seus PCs (mais de 5 milhões de usuários cadastrados), e que retornaram mais de 1,3 bilhão de resultados, muitas outras colaborações foram efetuadas, como traduções do site para outros idiomas e criação de softwares de apoio.

O que aprendemos com o SETI@Home? A utilização de milhares de PCs cria um computador virtual que pode ser considerado um dos mais potentes do mundo. Se todo o trabalho efetuado para o projeto fosse feito por um único PC com microprocessador Pentium, seriam necessários mais de 1, 3 milhão de anos de trabalho computacional contínuo.

O resultado da computação filantrópica é extremamente interessante. Uma rede voluntária de PCs apresenta uma capacidade computacional equivalente à de muitos dos maiores supercomputadores do mundo, mas a custos irrisórios. O potencial também é fantástico. Se imaginarmos que poderemos ter cerca de 1 bilhão de PCs conectados à Internet e uns 10% deles, ou seja, 100 milhões, com seus processadores de pelo menos 1 GHz, disponibilizarem ciclos de processador para iniciativas deste tipo, teremos um poder computacional imenso que poderá contribuir em muito para o avanço das pesquisas em todas as áreas do conhecimento humano.

Na esteira do projeto SETI@Home diversas outras iniciativas, bem-sucedidas e outras nem tanto, começaram a pipocar pela Web.

Por que não lançarmos iniciativas similares no Brasil? Temos campo para pesquisas únicas como doenças tropicais (malária, dengue, leishmaniose e outras) e biotecnologia (pesquisas de transgênicos de tomates e alfaces). A malária desperta pouca atenção nos países do primeiro mundo, pois está praticamente erradicada neles. Em 2002, por exemplo, foram registrados apenas 1.300 casos nos EUA, com oito mortes. Em contraste, nos países subdesenvolvidos e emergentes estima-se que mais de 1 milhão de pessoas morram, por ano, devido a esta doença.

Temos uma população disposta a colaborar, como nos mostram os exemplos de ações como o Criança Esperança e o Natal Sem fome. E centenas de milhares de internautas com PCs dispostos a ceder tempo ocioso de suas máquinas. O resultado dessa doação virtual será de grande valia para nossa sociedade. As universidades poderiam também propor esse tipo de projeto aos seus alunos, até mesmo com incentivo de créditos para os participantes. O uso do modelo de softwares livres para o desenvolvimento destas aplicações contribuiria significativamente para o sucesso das iniciativas.

A razão para isso é simples. Como a computação é voluntária, é absolutamente imprescindível que os softwares sejam desenvolvidos e distribuídos com custo zero. Com livre acesso ao código-fonte, o software será desenvolvido comunitariamente, diluindo os custos de desenvolvimento por toda a comunidade de colaboradores e, portanto, não gerando necessidade de recuperação destes investimentos na sua licença de uso.

(*)Cezar Taurion é gerente de Novas Tecnologias Aplicadas da IBM Brasil e autor do livro "Software Livre - Potencialidades e Modelos de Negócios"




 

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