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30/01/2004 18h10

"Bombardeio Google" começa a pegar

Tom McNichol
The New York Times

Houve um tempo -digamos, dois meses atrás- em que a digitação da frase "miserable failure" (fracasso miserável) na caixa de busca do Google apresentava um resultado inesperado: a biografia oficial da Casa Branca do presidente George W. Bush.

Mas agora o presidente está disputando o topo da lista com o ex-presidente Jimmy Carter, a senadora Hillary Rodham Clinton, democrata de Nova York, e o autor-cineasta Michael Moore.

Esta estranha batalha eleitoral está sendo travada pelo "bombardeio Google", ou a manipulação dos mecanismos de busca na Internet para produzir, neste caso, um comentário político. Diferentemente de travar discussão política na Internet por outros meios, como hackeamento de sites para desfigurá-los ou alterar sua mensagem, o bombardeio Google é um esporte coletivo, tirando proveito de uma inovação de indexação na Internet que levou o Google à supremacia entre os mecanismos de busca.

Os perpetradores tiveram sucesso recrutando um pequeno grupo de cúmplices para criar links entre seus sites e um site alvo usando um texto âncora específico (as palavras que são clicadas em um link). Quanto maior o tráfego nos sites que ligam uma página da Internet a uma frase em particular, mais o Google tende a associar tal página com a frase -mesmo que, como no caso da biografia oficial do presidente, o termo não esteja presente no site de destino.

"Eu realmente fiquei surpreso com a facilidade que foi fazê-lo", disse o mentor do esforço contra Bush, George Johnston, um programador de computador de 46 anos de Bellevue, Washington, que escreve um blog de tendência liberal na Internet chamado Old Fashioned Patriot (patriota à moda antiga). "Foram necessárias seis semanas para colocar a biografia de Bush como o resultado nº 1. Quando comecei, não tinha idéia que atrairia a participação de gente de todo o mundo".

O bombardeio Google se tornou rapidamente um esporte de sofá entre aqueles que têm uma mensagem para transmitir e talvez tempo demais sobrando em suas mãos. Por quase um ano, o primeiro resultado de busca no Google para o termo "weapons of mass destruction" (armas de destruição em massa) era uma página satírica feita para lembrar uma mensagem de erro que dizia: "Essas Armas de Destruição em Massa Não Podem Ser Exibidas".

O Liberty Round Table, um grupo libertário, iniciou uma bomba Google que criava um link entre o Centro para a Ciência de Interesse Público, um grupo de defesa da nutrição, com o termo "nazistas dos alimentos". Agora, o grupo está tentando tornar o site da Receita Federal americana como o primeiro resultado da busca do termo "organized crime" (crime organizado). Outras bombas Google recentes têm buscado associar Bush, Clinton e o senador Rick Santorum, republicano da Pensilvânia, a várias frases que não podem ser reproduzidas.

O Google minimiza a importância do bombardeio Google, dizendo que os resultados de busca apenas refletem o que está acontecendo na Internet.

"Nós vemos isto como perguntas obscuras e que realmente não são muito procuradas na Internet", disse Craig Silverstein, o diretor de tecnologia do Google. "Eu não acho que seja possível fazer este tipo de coisa com perguntas com termos bem definidos, como 'IBM'. Assim, como só afeta uma pergunta entre as mais de 200 milhões por dia que recebemos, é difícil ver isto se transformando em um problema."

Mas algumas pessoas da área dizem que o Google pode estar mais preocupado do que deixa transparecer. O sucesso da empresa, em grande parte, foi obtido graças à capacidade de seu algoritmo de exibir páginas de Internet relevantes e descartar as irrelevantes ou falsas. A crescente popularidade do bombardeio Google não deve ser um desdobramento bem-vindo para uma empresa que deve começar a vender ações para o público em poucos meses.

"O Google diz que apenas reflete o que está na Internet, mas está na verdade refletindo um grupo muito pequeno de pessoas que está tentando manipular o sistema", disse Danny Sullivan, que edita o Search Engine Watch. "O bombardeio Google nunca deixará de existir, mas o Google precisa torná-lo menos recompensador para as pessoas que gastam tempo fazendo isto."

Manipulação de resultados

O Google certamente não é o único mecanismo de busca cujos resultados podem ser enganados por usuários agindo em conjunto. A biografia de Bush também é o primeiro resultado da busca por "miserable failure" no Yahoo!, que emprega tecnologia Google e HotBot; ela é o segundo resultado no MSN Search. Todos os mecanismos de busca, em vários graus, analisam links para o cálculo de relevância de uma página em uma pesquisa em particular. Disseminar links suficientes pela Internet apontando para um mesmo site utilizando um mesmo texto âncora alterará o resultado da busca. O efeito é ampliado por frases de busca menos populares, já que há menos links concorrentes.

Algumas bombas Google podem ter sido executadas com menos de 20 links. O que importa não é o número de links, mas a popularidade dos sites que realizam os links e a relativa obscuridade do termo pesquisado.

Os autores das bombas visam o Google pelo mesmo motivo que Willie Sutton roubava bancos -é lá que está a recompensa. O Google lida com mais de 200 milhões de buscas por dia e seu um percentual de buscas online nos Estados Unidos é de 34,9%. O rival mais próximo é o Yahoo!, com 27,7%, segundo a comScore Networks, que levanta o comportamento do consumidor.

As pessoas têm tentado manipular os resultados desde que os mecanismos de busca apareceram na Internet em 1995. Uma indústria de "otimização de ferramentas de busca" se desenvolveu em torno da prática de ajustar o site de uma empresa para que aparecesse no topo da lista da busca por certas palavras-chaves. Otimizadores menos éticos criaram domínios fantasmas que canalizam os usuários para um site por meio de redirecionamentos enganadores ou criando portais fantasmas repletos apenas de palavras-chaves.

Os mecanismos de busca proíbem este tipo de manipulação ruidosa para fins comerciais, e o Google elimina regularmente sites de seu mecanismo de busca por realizarem tais práticas. Mas os mecanismos de busca não podem fazer muito para impedir grupos de sites e blogs legítimos de trabalharem em conjunto para alterar resultados de busca, como está acontecendo com as bombas Google.

"Picareta sem talento"

A primeira bomba Google explodiu no outono de 1999, quando uma busca pela frase "more evil than Satan himself" (mais maligno que o próprio Satã) exibia como primeiro resultado a página home da Microsoft. Na época, o Google negou que seu algoritmo de busca tinha sido vítima de uma peça. Em vez disso, insistiu a empresa, a posição na listagem era um reflexo preciso dos muitos críticos da Microsoft na Internet, que se referiam à empresa, de forma independente, como sendo mais maligna que o próprio Satã. Mas bombas subseqüentes deixaram claro que o resultado da Microsoft provavelmente não foi acidente.

Adam Mathes, blogueiro e especialista em ciência da computação de Stanford, é quem costuma receber o crédito de ter cunhado o termo "bombardeio Google", há quase três anos, para descrever a prática de manipular os resultados do Google por meio da criação de links pela Internet. Mathes iniciou uma bomba Google como uma piada às custas de um amigo e artista gráfico, Andy Pressman, conseguindo listar o blog de Pressman como o primeiro resultado para a frase "picareta sem talento". Quando posteriormente foi entrevistado para um emprego no Google, Mathes se sentiu compelido a confessar sua campanha.

"Era claramente algo grande para eles", disse Mathes. "Eles me disseram: 'Sim, nós tivemos muitas reuniões sobre bombas Google'. Não acho que não tenha conseguido o emprego por isto, mas certamente não foi a melhor ação pró-carreira."

Recentemente, as bombas Google ganharam um tom político. Enquanto as forças da coalizão se preparavam para invadir o Iraque em março, Steve Lerner, blogueiro de 22 anos e aluno da Universidade York, em Toronto, criou uma página paródia para o resultado da busca do Google para "French military victories" (vitórias militares francesas), que declarava que nenhum documento tinha sido encontrado e sugeria uma busca alternativa: "Você quer dizer: derrotas militares francesas?"

Lerner não buscou enganar o Google; sua ação acabou se tornando uma espécie de bomba acidental. Lerner simplesmente postou a página paródia em seu blog, a partir da qual outros bloggers começaram a criar links para ela. Logo, a grande quantidade de links conduziu a página como uma bala para o primeiro lugar na pesquisa. A página paródia ainda desfruta de uma alta posição na pesquisa Google.

"Eu só fui um pequeno fator na coisa toda", disse Lerner. "Eu coloquei alguns links para a página e então outras pessoas também o fizeram, e simplesmente se espalhou."

Ira republicana

No final de outubro, Johnston, que se diz "de esquerda", iniciou uma bomba Google para vincular a biografia de Bush à frase "fracasso miserável", palavras usadas pela campanha presidencial do deputado Dick Gephardt, do Missouri, para descrever o mandato de Bush.

O sucesso aconteceu após seis meses de campanha. Johnston disse não saber ao certo quantos links foram necessários para capturar o primeiro lugar, mas alguns blogs tiveram um grande papel, incluindo o TalkLeft e o Media Whores Online.

"O motivo de ter funcionado é que havia muitas pessoas de mentalidade semelhante que consideraram isto engraçado e espalharam", disse Johnston. "Tem que ser algo que faça as pessoas rirem ou capture a imaginação delas."

É claro, nem todos riram. Quando a biografia do presidente ocupou o primeiro lugar como "fracasso miserável", alguns conservadores ficaram convencidos de que o chamado controle liberal da mídia tinha se estendido para as ferramentas de busca. Um visitante da página de comentários do freerepublic.com, um fórum conservador de notícias, sugeriu um boicote ao Google e lamentou: "Por quanto mais tempo vamos ter que agüentar a tendência liberal da mídia! Se já não bastasse controlarem a Rádio Pública Nacional, agora o Google???"

Mas alguns postadores com conhecimento em tecnologia explicaram posteriormente como as bombas Google funcionam, e agora os membros do fórum estão apoiando uma contrabomba para vincular "fracasso miserável" a Michael Moore. (Moore já está listado em primeiro lugar para o termo na busca AOL.)

O Google afirma que tal atividade ainda não está prejudicando a qualidade geral de seus serviços. A empresa diz que espera que os bombardeios Google sigam em breve o caminho de muitas modas na Internet.

"É o tipo de coisa que as pessoas gostam de fazer uma vez porque é divertido destacar uma página de forma que tenha um efeito poderoso", disse Silverstein. "Mas não é algo que as pessoas passarão a vida fazendo."

Claramente, qualquer um que venha a passar a vida tentando manipular resultados de ferramentas de busca terá que ser chamado de fracasso miserável. E quantos assim podem existir?

Tradução: George El Khouri Andolfato





 

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