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03/02/2004 18h52

Vai começar a guerra das pesquisas na Web

John Markoff
The New York Times

No Fórum Econômico Mundial na Suíça no mês passado, a Microsoft, a peso-pesado do software, e a Google, combativa empresa de pesquisas na Internet, se entreolharam como lutadores entrando no ringue.

Bill Gates, o presidente da Microsoft, declarou sua admiração pelo "alto nível de QI" dos criadores da Google. "Nós adotamos uma abordagem que agora percebo que estava errada", disse ele sobre a decisão inicial de sua empresa de ignorar o mercado de pesquisas. Mas acrescentou: "Vamos alcançá-los".

Os quatro principais executivos da Google que participaram do fórum, em Davos, não estavam menos obcecados pelos movimentos de Gates. "Tivemos muitas oportunidades de ver Bill e a Microsoft aqui em Davos", o principal executivo da Google, Eric E. Schmidt, escreveu em um e-mail para um colega, que foi distribuído para os funcionários através da lista interna da empresa.

A Microsoft está atentamente debruçada sobre o portfólio de patentes da Google, caçando potenciais vulnerabilidades, afirmou Schmidt. E como a Google conduz seus negócios usando Linux -o software de código aberto que se tornou o maior concorrente do Windows-, a Microsoft teme que esteja em desvantagem. "Com base em suas reações viscerais a qualquer discussão sobre 'código aberto'", Schmidt escreveu na mensagem, "eles estão obcecados pelo código aberto como modelo comercial."

Preparem-se para Microsoft versus Vale do Silício, segundo round.

Na última vez, em meados dos anos 90, a Netscape Communications, outra valente novata de alta tecnologia da Área da Baía de San Francisco, comercializou seu navegador da Web, deflagrando a corrida do ouro das pontocom. A companhia disse a quem quisesse ouvir que seu novo programa reduziria o sistema operacional Windows, carro-chefe da Microsoft, a um "conjunto de drivers de dispositivo ligeiramente defeituoso".

Acontece que a Microsoft -baseada no subúrbio de Redmond, em Seattle, longe do coração da indústria tecnológica americana- estava escutando.

Gates, acordando tarde para a ameaça que a Internet representava para seus negócios, dirigiu o poder de fogo da Microsoft para a Netscape e eliminou a rival, que mais tarde foi adquirida pela America Online e hoje é uma sombra do que já foi, num canto obscuro da Time Warner.

Em conseqüência disso, sua companhia foi alvo de uma ação federal antitruste, despertando o espectro de uma quebra da Microsoft. Afinal a Microsoft escapou com uma simples exigência de operar sob um acordo relativamente brando, homologado pelo tribunal.

Hoje, quase todo mundo no Vale do Silício, desde capitalistas de risco e engenheiros de chips a corretores de imóveis e donos de restaurantes, começa a perguntar: a Google será a próxima Netscape?

Gates, que há mais de uma década promete a seus clientes -mas ainda não cumpriu- "a informação na ponta de seus dedos", decidiu que o negócio de pesquisas na Internet é ao mesmo tempo uma séria ameaça e uma oportunidade valiosa.

Co-fundador e atualmente o principal arquiteto de software de sua empresa, Gates reconhece prontamente que a Microsoft "fracassou" no mercado de pesquisas na Internet. Apesar de sua grande visão inicial, Gates demonstrou pouca inclinação para produzir software que melhorasse a capacidade dos usuários de computador de encontrar informações - até que viu os dólares no negócio.

Essa oportunidade coube a dois estudantes de graduação em ciência da computação em Stanford, Sergey Brin e Larry Page, que desconsideraram o senso comum da indústria de que a tecnologia de pesquisa se tornaria uma mercadoria barata e marginal.

Enquanto as empresas dominantes na Internet lutavam entre si pelos portais da Web, a promessa do comércio eletrônico e o acesso a provedores como America Online, a Google desenvolveu uma máquina de buscas veloz, que logo se tornou quase um acesso universal à Internet. Ela desbancou as máquinas de pesquisa existentes porque a tecnologia inventada por Brin e Page faz um trabalho muito melhor, apresentando resultados que satisfazem os pedidos dos internautas.

Hoje a Google tem um número enorme de usuários: 200 milhões de buscas em um dia médio. Isso dá uma grande vantagem sobre seus concorrentes que tentam alcançá-la.

"O sistema que tem mais usuários é o mais beneficiado", disse Nancy Blachman, cientista da computação que é autora de um guia independente para a utilização da Google. "A Microsoft enfrenta um tremendo desafio porque a Google aperfeiçoa seu sistema observando como os usuários refinam suas buscas."

Mas a Google fez mais que desenvolver uma tecnologia interessante. Ao contrário de muitas pontocom dos anos 90, ela também descobriu como transformá-la em um negócio altamente lucrativo. A companhia demonstrou que concentrar a publicidade nas palavras-chaves inseridas nas buscas pelos internautas é a forma mais eficaz de publicidade online.

Isso provocou uma batalha de três vias entre a Microsoft e suas duas rivais do Vale do Silício: a Yahoo!, sediada em Sunnyvale, Califórnia, e a Google, cujo quartel-general fica perto, em Mountain View. Salientando a importância das máquinas de busca para a publicidade na Internet, a Yahoo! disse recentemente que pretende encerrar sua dependência exclusiva da Google para resultados de buscas, e montou seu próprio laboratório de pesquisa para tentar superar a liderança da nova rival.

O sucesso financeiro da Google é claro. Em 2001 a empresa virtualmente não teve faturamento; no ano passado registrou vendas de quase US$ 1 bilhão e lucros de aproximadamente US$ 350 milhões, segundo vários executivos familiarizados com os números privativos das finanças da empresa.

Quanto à Microsoft, seus executivos já começaram a gabar-se de um crescimento acentuado das rendas de publicidade na Internet com a parceria entre sua MSN e a Overture, hoje uma divisão da Yahoo!, que também foi pioneira na publicidade em pesquisas na Web. Em seu segundo trimestre fiscal, que terminou em 31 de dezembro, a Microsoft registrou US$ 292 milhões em publicidade online, um aumento de 47% em relação ao mesmo período no ano anterior. A companhia disse que seu faturamento total em publicidade online, que inclui outras fontes além de anúncios em buscas, atingiu US$ 1 bilhão no último ano.

No final deste ano a Microsoft deverá revelar sua própria tecnologia de pesquisa, que segundo Gates ajudará a Microsoft a se equiparar à Google. Na semana passada a Microsoft lançou a versão de teste de um conjunto especial de botões de software para seu navegador, destinados a dirigir os usuários para sua máquina de pesquisas MSN e serviços relacionados. Para a Google, porém, a maior ameaça é que a Microsoft decida que a pesquisa na Internet, assim como já ocorreu com o navegador da Web, deva ser parte integral de futuras versões do sistema operacional Windows.

Mas por enquanto a liderança da Google parece formidável. No ano passado, Rick Rashid, vice-presidente da Microsoft que chefiou a divisão de buscas da companhia, foi ao posto avançado da empresa no Vale do Silício para fazer uma demonstração da máquina de buscas experimental Microsoft Research. Pouco depois, porém, Mike Burrows, um dos pioneiros originais em pesquisas na Internet, na Digital Equipment, que mais tarde ajudou a criar a máquina de buscas experimental da Microsoft, silenciosamente desertou. Ele foi para a Google.

Mesmo que possa proteger sua liderança tecnológica, a Google sucumbirá ao poder de marketing da Microsoft?

Ética de trabalho

A Google compartilha a intensa ética de trabalho do Vale do Silício que caracterizou companhias como a Netscape. Seu novo quartel-general, um campus espaçoso que já foi ocupado pela fabricante de computadores SGI, fica do outro lado da rua da base original da Netscape.

Mas muitos executivos veteranos do Vale do Silício são céticos sobre a capacidade da Google de manter sua cultura corporativa quando abrir seu capital, ainda este ano. A oferta pública inicial, muito esperada, deverá criar centenas de multimilionários instantâneos entre seus funcionários, mas deixará muitos outros, terceirizados, sem ganhos significativos. Como conseqüência disso, algumas pessoas temem que a Google esteja promovendo uma sociedade de classes em suas fileiras.

Até agora, porém, a deslealdade limita-se principalmente à filial Adwords da empresa, voltada para a criação e a colocação de publicidade dirigida nas buscas. Essa operação cresceu rapidamente com trabalhadores temporários.

Claramente, porém, será difícil manter seu espírito de corpo tão robusto depois da entrada na Bolsa, dizem aqueles que fizeram passeios de montanha-russa semelhantes no Vale do Silício.

"O desafio que a Google enfrenta é descobrir como manter um alto índice de inovação" diante de um evento perturbador como a oferta pública, disse um ex-executivo da Netscape, que também teme que os dois jovens fundadores, apesar de todo o seu brilhantismo, talvez não se encaixem bem no tipo de equipe administrativa necessária para dirigir a Google como empresa pública de rápido crescimento.

Ainda assim, enquanto a Google tem claras vulnerabilidades, a Microsoft é vista no Vale do Silício como uma concorrente poderosa, mas não especialmente criativa. Além de seu negócio central em Office e Windows, a Microsoft não tem grandes sucessos recentes para indicar, e sim uma lista crescente de decepções. Estas incluem o console de videogame Xbox e a caixa de sintonia de cabo Ultimate TV.

Em outras palavras, outros rivais combateram a Microsoft e viveram para contar. "Na TiVo, conseguimos encarar o canhão de US$ 40 bilhões", disse Stewart Alsop, um capitalista de risco que ajudou a financiar a criação do gravador de vídeo digital TiVo, que permite que os espectadores gravem com facilidade a programação em vídeo para assistir em outros horários. "Nós escapamos daquela bala", ele disse, quando a Microsoft "fechou a Ultimate TV e saiu do ramo."

Outros executivos que competem com a Microsoft disseram que a posição da Google talvez seja mais defensável do que supõem os executivos da Microsoft.

"A boa notícia para a Google é que o que eles fazem tem muitas ramificações", disse Rob Glaser, principal executivo da RealNetworks, que concorre com a Microsoft em software para reprodução de vídeo e áudio digital em computadores pessoais. "Não é facilmente copiável em um passo".

Outros dizem que embora a decisão do Departamento de Justiça seja fraca, poderá ser suficiente para impedir que a Microsoft transforme as pesquisas na Internet em parte integral do sistema operacional, assim como ele absorveu o navegador da web.

"Eles não podem superar a Google em preço, e não acho que possam se safar com a pesquisa integrada", disse S. Jerrold Kaplan, executivo do setor que foi concorrente da Microsoft quando estava na Lotus, a fabricante de planilhas que hoje faz parte da IBM.

Evangelho Google

Enquanto se prepara para a oferta pública, a Google tenta evitar o destino da Netscape concentrando-se intensamente em suas próprias medidas para satisfazer os clientes. Nos computadores na sede da Google, a homepage exibe constantemente um gráfico que reflete como ela está se saindo nas pesquisas, em comparação com as concorrentes. A menor queda de desempenho provoca um alarme, disse um executivo da empresa.

A Google também atraiu um veterano do Vale do Silício, William V. Campbell, presidente da Intuit, para servir como consultor. Seu evangelho para os "Googlers", como os funcionários se autodenominam, é: Ignorem a iminente chegada da Microsoft como concorrente e concentrem-se no cliente.

Boa sorte. A Microsoft já começou uma campanha de recrutamento destinada a desmoralizar os funcionários da Google, segundo executivos desta última. Recrutadores da Microsoft têm telefonado para funcionários da Google em suas casas, pedindo que vão para a Microsoft e sugerindo que suas opções de ações se desvalorizarão quando a Microsoft entrar para valer no mercado de pesquisas.

"Nossa abordagem tem sido buscar os melhores talentos", disse Lisa Gurry, diretora de produtos da MSN. "Além disso, não posso acrescentar nada."

A Microsoft está atualmente contando com a Overture para suas listagens de buscas pagas, disse Gurry. Mas a Google não está parada. Como reconheceu o próprio Gates, ela reuniu uma notável coleção de tecnólogos. E eles estão concentrados ao mesmo tempo em manter a liderança da empresa na tecnologia de buscas assim como em desenvolver uma série de novos serviços.

Para ajudar em seu trabalho, a Google vem silenciosamente desenvolvendo o que especialistas da indústria consideram o maior centro de computação do mundo. Na última primavera, a empresa tinha mais de 50 mil computadores distribuídos em mais de 12 centros de computação no mundo todo. O número passou de 100 mil em novembro, segundo uma pessoa que tem conhecimento detalhado do centro de computação da Google. A companhia está apostando firme que a Microsoft terá dificuldades para adequar seu tempo de resposta à torrente cada vez maior de pedidos de buscas feitos pelos usuários.

Acesso exclusivo

Além do poder de fogo de computação adicional, a Google tem uma ampla lista de novos serviços que vai apresentar conforme transcorra a competição com a Microsoft e a Yahoo. Por exemplo, recentemente lançou o serviço de rede social Orkut, destinado a concorrer com Friendster, LinkedIn e outros. Ainda secreto, há um serviço de correio eletrônico que terá um componente publicitário.

A companhia também tem se empenhado para encontrar novas fontes de informação para indexar, além do material que já está armazenado digitalmente. Em dezembro, iniciou uma experiência com editoras de livros para indexar trechos de livros, resenhas e outras informações bibliográficas para usuários da web.

E a Google embarcou num esforço ambicioso conhecido como Project Ocean, segundo uma pessoa envolvida na operação. Com a cooperação da Universidade Stanford, a companhia pretende digitalizar toda a coleção da vasta Biblioteca Stanford publicada antes de 1923, que não tem mais restrições de direitos autorais. O projeto poderá acrescentar milhões de livros digitalizados com acesso exclusivo pela Google.

Pelo lado do marketing, a empresa está correndo para aumentar suas forças no exterior. Wayne Rosing, vice-presidente de engenharia da Google, foi escolhido para viajar pelo mundo para inserir a máquina de busca da empresa em economias e tecnologias locais. Ele está concentrado inicialmente em 12 países.

Page, o co-fundador, está até tentando convencer Schmidt, o executivo veterano do Vale do Silício recrutado da Novell Inc., para dirigir a Google, e outros na companhia para comercializar um telefone com assistente digital pessoal embutido, que permitirá que internautas acessem a Google de qualquer lugar.

Com toda a hiperatividade da Google, ainda paira a sensação entre muitos veteranos do Vale do Silício de que já viram esse filme. A companhia pode não ter a arrogância da Netscape, mas ainda não está claro que todo o seu marketing inteligente, tecnologia e identificação de marca possam suportar o ataque da Microsoft, quando ele vier.

Afinal, assim como o Vale do Silício, Gates aprendeu com alguns de seus erros. Em Davos, ele admitiu tristemente que a Google "nos deu um pontapé", lembrando o que era a Microsoft duas décadas atrás.

"Nossa estratégia era fazer um bom serviço em 80% das pesquisas comuns e ignorar as outras", ele disse. Mas "são as 20% restantes que contam", acrescentou, "porque é aí que está a percepção de qualidade."

Gates prometeu não repetir o erro.

Tradução de Luiz Roberto Mendes Gonçalves


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