
17/01/2003 18h04

Classes mais baixas patrocinam Internet "grátis" dos mais ricos

Da Redação Em São Paulo

Uma das principais críticas ao atual modelo de Internet "grátis" no Brasil é o fato de que a conta vai ser paga pelo usuário de telefone fixo. Como há mais ricos que pobres com acesso à Internet e mais pobres que ricos com telefones, as classes mais baixas acabam pagando o subsídio às mais altas.
O superintendente de universalização da Anatel, Edmundo Matarazzo, considera injusto que os usuários dos serviços de telefonia sejam punidos com o subsídio ao acesso à Internet. "Os 42 milhões de usuários de telefonia não podem sustentar os 12 milhões de usuários de Internet", disse.
Para se ter uma idéia do que isso representa, basta ver como se dá a distribuição de telefone, computador e acesso à Internet em casa por classe social.

Pesquisa feita em abril de 2002 pelo Ibope mostra que 81% dos pesquisados pelo Ibope e pertencentes à classe A tinham computador em casa com acesso à Web. Dos entrevistados da classe C, apenas 9% tinham Internet em casa. Daqueles pertencentes à classe D e E, irrisório 1% acessava Internet de casa.
Em contrapartida, do total de telefones fixos residenciais, a pesquisa Ibope mostra que 60% deles estão em domicílios pertencentes às classes C, D e E. Apenas 8% estão nas casas dos que estão no topo da pirâmide. A pesquisa foi feita em oito regiões metropolitanas e Distrito Federal.
O atual modelo de provimento de acesso "gratuito" no Brasil baseia-se em provedores subsidiados por operadoras de telefonia, como iG-Telemar, iBest-Brasil Telecom e iTelefônica-Telefônica, com remuneração a partir das tarifas de interconexão (leia o texto "Entenda o que é interconexão").
Como há mais pobres com telefone do que com acesso à Internet, na hora de zerar a conta do provimento dito "grátis", as classes C, D e E acabam pagando para que as classes A e B se beneficiem do serviço.
Injustiça
"Não é justo eu pagar a conta de um serviço que eu não uso, e nem pretendo usar", protestou a aposentada Ostelina Rosa Gabriel, 75, moradora de Parada de Taipas, um dos bairros mais pobres de São Paulo, cuja renda média é um décimo da renda do bairro mais rico, Morumbi. "Se eu só uso o telefone, por que deveria pagar também a conta da Internet?"
Não menos inconformada está a empregada doméstica Ana Baldaia de Lima, 53, moradora de Guaianazes _distrito que ocupa a distante 87ª colocação entre 97 bairros que tiveram a renda familiar pesquisada pela Prefeitura de São Paulo. Ana não tem computador em casa e jamais acessou a Internet. "As classes mais baixas sempre acabam sendo exploradas. Infelizmente, esse é mais um caso de pessoas que tiram de quem não tem para dar a quem tem até demais".
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