
31/01/2003 13h24

Gartner prevê fim da Internet grátis na AL

Da Redação Em São Paulo

O provimento de acesso gratuito vai acabar na América Latina. A previsão consta da última análise do mercado de Internet latino-americano feita pelo Gartner Dataquest em janeiro deste ano, com projeções até 2006. O Gartner Dataquest é um braço do Gartner Group, a principal consultoria independente para tecnologia e telecomunicações no mundo.
"Dentro de um ou dois anos, o modelo de negócios dos provedores gratuitos passará por um teste decisivo com o modelo pago", diz o documento. "E o pago sairá vitorioso por vários motivos".
Duas das seis razões apontadas para o fim do acesso livre estão relacionadas com a publicidade online -base de sustentação da maioria dos gratuitos. Hoje provedores pagos e gratuitos de todo o mundo disputam os 2% da publicidade mundial destinada aos veículos online. E os anunciantes estão ficando cada vez mais criteriosos na hora de decidir onde colocar seu dinheiro.
Pelo que diz o Gartner, os provedores gratuitos não são vistos como veículo ideal para anunciar, pois não podem fornecer dados concretos sobre o número de usuários.
A imprecisão dos dados, segundo o Gartner, deve-se à duplicidade de assinaturas, que torna as estatísticas do acesso livre pouco confiáveis. "Hoje, muitos assinantes do serviço pago usam os provedores gratuitos apenas como backup. No passado isso ajudou a inflar as estimativas de número de usuários, mas não há necessidade de duas assinaturas", diz a analista Marta Kyndia no documento.
Apesar de os provedores gratuitos terem colaborado para o aumento do número de internautas na região -segundo o Gartner, saltou de 5,8 milhões, em 2002, para 14,7 milhões em janeiro de 2003-, eles não devem resistir ao declínio da receita da venda de publicidade nem mesmo em países em que o modelo de negócios é considerado um sucesso, como na Argentina.
Na Argentina, as centenas de provedores gratuitos não têm gastos com infra-estrutura de acesso e recebem das duas telefônicas locais parte da receita gerada pelo aumento do tráfego na rede (leia o texto "Internet paga sai mais barata do que a 'grátis' na Argentina").
"Os provedores gratuitos argentinos atraem usuários, mas não estão ganhando dinheiro, pois a receita de anunciantes secou", justifica o Gartner. A queda na receita de anunciantes já levou ao fim da Internet livre no Brasil. Os provedores gratuitos que sobreviveram à crise da nova economia não dependem integralmente da receita publicitária e têm acordo com operadoras de telefonia que lhes garante custos de conexão zero ou reduzidos (clique aqui para ver a cronologia da Internet grátis no Brasil)
No México, o acesso livre nem existe mais. Os dois principais provedores gratuitos, Terra e Tutopia, mudaram para o modelo pago no começo do ano passado, depois de uma temporada fracassada tentando conquistar um internauta já acostumado a usar o Prodigy, provedor pago da Telmex, a operadora de telefonia local. Esse provedor detém 60% do mercado mexicano.
Para se manter no negócio sem a receita da publicidade, os provedores gratuitos terão de oferecer -e cobrar- a seus usuários serviços de valor agregado, como mais espaço na caixa postal, hospedagem de site e e-mails adicionais. Deixariam, portanto, de ser gratuitos.
Na América do Norte, essa mudança para o serviço semi-gratuito (acesso livre, com vantagens pagas) exigida pela queda de publicidade não revelou-se um bom negócio (leia texto: "Internet gratuita fracassa nos EUA e no Canadá").
As duas últimas razões apontadas pelo Gartner para o fim da Internet gratuita referem-se à qualidade dos serviços e à estratégia de negócios. A qualidade oferecida pelos provedores gratuitos é tida como mais baixa que a oferecida pelos pagos, afirma o relatório, que diz ainda que os gratuitos enfrentarão estratégias cada vez mais agressivas dos provedores pagos, como a redução de preços de mensalidade sem comprometimento da qualidade dos serviços.
Mudança de rumo
Apesar do cenário favorável, os provedores pagos não devem ficar de braços cruzados se quiserem se manter no jogo. Segundo o Gartner, pequenos e médios provedores devem oferecer serviços personalizados e procurar um nicho, como o setor corporativo. Já os provedores grandes devem oferecer uma gama maior de serviços que inclua hospedagem de site, comércio eletrônico e acesso banda larga por ADSL, cabo e fibra ótica.
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