
11/02/2003 13h56

Apesar do acesso "grátis", internauta inglês prefere serviços pagos

Da Redação Em Sâo Paulo

Apesar de todo o estardalhaço criado quando o primeiro provedor "gratuito" -o FreeServe- foi lançado na Inglaterra, em setembro de 1998, o acesso "grátis" não emplacou como o esperado no país. Cinco anos após a grande onda da Internet sem assinatura, 3 em cada 4 internautas ingleses preferem pagar pela qualidade a ter acesso "gratuito" à Web.
A ascensão e queda do FreeServe ilustra a montanha-russa que foi o mercado de provimento de acesso "gratuito" no país. Apenas cinco meses após o lançamento, o provedor havia conquistado 1 milhão de usuários, e seu portal, tornado-se o mais visitado da Europa. Em abril de 2000, já eram quase 2 milhões de cadastrados.
No entanto, na ponta do lápis, o negócio não fechava. Desde o lançamento, o FreeServe registrava prejuízos trimestrais em torno de US$ 8 milhões. No final de setembro de 2000, a perda nos três meses anteriores bateu em US$ 26 milhões. Devido a essa sangria, em apenas um ano o preço unitário das ações da empresa na Bolsa de Valores de Londres despencou de 9 libras para 1,6. Em dezembro, a companhia foi vendida para a Wanadoo (da France Telecom), e a aventura do maior provedor sem assinatura da Grã-Bretanha terminou.
No auge da bolha do acesso "grátis" -entre 1999 e 2000-, quase 500 empresas ofereciam esse serviço na Inglaterra. De clubes de futebol a redes de supermercado, centenas de provedores ofereciam aos internautas CDs que possibilitavam o uso da Internet sem custo fixo -pagando-se apenas as tarifas locais.
Mas assim como o FreeServe, o caixa desses provedores "gratuitos" eram ralos de dinheiro. Sem o dinheiro das assinaturas e sem a anunciada explosão da publicidade online e do e-commerce ter acontecido, eles rapidamente ficaram sem fundos. O enxugamento foi brutal. Atualmente, menos de 20 provedores oferecem acesso "grátis" na Inglaterra. A grande maioria tem no serviço "free" apenas um chamariz para os outros pacotes, todos pagos (são os chamados serviços de valor agregado). Além disso, o internauta do acesso gratuito tem direito a um mínimo de serviços -geralmente, apenas um e-mail com poucos MB de espaço.
Isonomia
O modelo inglês para o mercado de Internet oferece condições isonômicas para a relação entre operadoras e provedores. Em abril de 2001, a Oftel, órgão regulatório das telecomunicações, obrigou a estatal British Telecom a oferecer pacotes de tarifa única (flat) para os provedores. A BT é dona da maior parte das redes de telecomunicações no país e, até então, cobrava o acesso à Internet por minuto, exatamente como no Brasil atualmente. O modelo criou um código não-geográfico para o acesso -0845- que pode ser adotado por qualquer provedor. Isso possibilitou a diferenciação entre tráfego de Internet e de voz. A legislação permitiu que as operadoras compartilhassem parte de sua receita com os provedores, devido ao aumento do tráfego na rede. Também foi permitido que as empresas de acesso fechassem acordos comerciais com as operadoras, em busca das melhores taxas de remuneração.
A adoção da tarifa flat deu grande impulso ao uso da Internet nos lares ingleses. Entre 2001 e o final de 2002, a taxa de casas com acesso à Web saltou de 26% para quase 50%. O sistema inglês serviu de inspiração para a nova regulamentação proposta pela Anatel, que também prevê a adoção de uma tarifa única e código não-geográfico.
Estabelecidas condições de competição igual entre os provedores "grátis" e os pagos, a preferência dos ingleses migrou ao longo de 2002 para os serviços com assinatura fixa. Segundo números do governo britânico, atualmente apenas 26% dos internautas usam acesso "grátis" -11 pontos percentuais a menos do que em janeiro de 2002. Já a fatia que prefere assinar serviços discados subiu de 63% para 74%.
De acordo com Christian de Larrinaga, chairman do provedor Network Brokers, o acesso gratuito perdeu usuários devido à escassez de serviços e de conteúdo diferenciado e de qualidade. "Ao assinar um provedor, o internauta tem conexões mais confiáveis, serviços de valor agregado (como e-mails extras e mais espaço de caixa postal), domínios personalizados e muito mais", compara.
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