
22/12/2002 09h16

Conta do acesso gratuito "não fecha", diz provedor

Da Folha de S.Paulo

Os três maiores provedores de acesso pago à internet no Brasil -UOL, AOL e Terra- dizem que o acesso gratuito é insustentável como modelo de negócio.
"A conta não fecha. Não há como cobrir os custos só com publicidade e comércio eletrônico", afirma o diretor-geral do Terra, Fernando Madeira. A avaliação é confirmada pela empresa de consultoria Tendências, que analisou o impacto do contrato entre o iG e a Telemar sobre a concorrência no mercado de internet.
Segundo o estudo da consultoria, a cobrança de assinaturas (da qual os provedores gratuitos abrem mão) representa de 70% a 80% da receita total dos provedores de acesso pago. A publicidade e o comércio eletrônico representam apenas 30% devido à penetração ainda reduzida da internet no Brasil.
Madeira diz que o Terra entrou na primeira onda do acesso gratuito, em 2000, apenas como estratégia de proteção de seu mercado.
"Sempre olhamos com desconfiança a forma como os provedores de acesso gratuito conseguiam sobreviver. Parece claro agora que eles têm participação na receita das companhias telefônicas", afirma Madeira. O executivo afirma que os assinantes de acesso pago ficam, em média, 40 minutos por dia conectados à internet, tempo distribuído entre o horário comercial e o noturno.
Os usuários do acesso gratuito ficam menos tempo conectados e concentram o uso na madrugada e finais de semana, quando a tarifa telefônica é reduzida.
Mais receita
Segundo o diretor-geral do Terra, os provedores de acesso pago geram mais receita para as empresas de telefonia do que os provedores de acesso gratuito. "Se eles são remunerados pelo tráfego, nós também temos direito", diz Madeira.
O vice-presidente da America Online Brasil, Milton Camargo, concorda com Madeira: "Se existe para um, tem de existir para todos. É o princípio da isonomia", afirma.
Ele diz que a AOL não acredita no modelo de acesso gratuito, mas convive com esse tipo de concorrente e não acha que ele tomará o mercado dos provedores de acesso pago, que oferecem serviços que os gratuitos não têm.
"Vimos muitos provedores de acesso gratuito nascerem e morrerem. A AOL vai continuar, porque tem um modelo de negócio sustentável e compromisso com o assinante", declarou.
Saco sem fundo
Claus Vieira, diretor-geral do UOL, lembra que a empresa também aderiu à onda dos provedores de acesso gratuito em 2000, quando lançou o Net Gratuita. "O acesso gratuito gera tráfego telefônico e audiência na rede, mas a receita do negócio não paga o acesso. É um saco sem fundo para perder dinheiro", diz ele.
Na avaliação de Vieira, se o tráfego para a internet for excluído da tarifa de interconexão das companhias telefônicas -conforme sugere a proposta de regulamento colocada em consulta pública pela Anatel-, o acesso gratuito à internet vai desaparecer, e todos os provedores terão de trabalhar com as condições reais do mercado.
Ele discorda de que o acesso gratuito seja a receita para a democratização da internet. A principal barreira para inclusão digital, diz, é o custo do computador.
Abranet
O presidente da Abranet (Associação Brasileira dos Provedores de Acesso, Serviços e Informações de Rede Internet), Roque Abdo diz que o parecer da Seae (Secretaria de Acompanhamento Econômico) recomendando que a Telemar estenda as vantagens dadas ao iG aos demais provedores foi importante porque confirmou a falta de isonomia de tratamento.
Mas, segundo ele, a associação quer mercado competitivo, sem transferência de recursos por parte das teles para nenhum provedor. Segundo ele, mesmo se a Telemar propusesse remuneração aos demais provedores, não haveria clareza se as condições seriam iguais às obtidas pelo iG. "Existem benefícios cruzados de difícil identificação", diz.
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