Dono de uma torcida tão fanática quanto fiel, o Corinthians sempre simbolizou
o amor pelo futebol. Mesmo quando sua equipe era ofuscada pelo potencial
dos adversários, o Corinthians manteve-se de pé, com sua torcida ao seu
lado. Foi o que aconteceu durante os 23 anos que o separaram de um título,
finalmente conquistado em 1977.
O Corinthians carregou por décadas a imagem de um clube que jogava mais com a raça do que com a técnica. Também teve a fama de ser regionalista -é o Campeão Paulista do século, com 23 conquistas.
Mas a década de 90 chegou para acabar com esses mitos. O Corinthians expandiu seus domínios ao resto do país e conquistou três Campeonatos Brasileiros. E entrou para a história como campeão do primeiro Mundial de Clubes da Fifa, realizado em janeiro de 2000.
Principalmente no final da década de 90, suas conquistas foram marcadas por toques de classe entre seu jogadores, que exibiam uma técnica refinada sem abrir mão da famosa raça corintiana. O Corinthians das multidões passou a ser também o time do belo futebol.
Sob a luz romântica de um lampião a gás no bairro paulistano do Bom
Retiro, cinco operários conversam sobre a possibilidade de criar um
novo clube de futebol. Eles estavam extasiados com o jogo de um time inglês
chamado Corinthian
que andava dando show no Brasil. Venceu o poderoso Paulistano por 5 x 2
e o Fluminense por 8 x 0. Por que não ter um "scratch" como aquele, mesmo
que fosse só no nome? A idéia se concretizaria dias depois, numa barbearia
da região. As atas das primeiras reuniões foram escritas a lápis, em papel
de embrulhar pão, e se perderam com o tempo. Mas os relatos orais dos primeiros
corintianos não deixam dúvidas: o Sport Club Corinthians Paulista foi mesmo
fundado, já com este nome, no dia 1º de setembro de 1910.
O passo seguinte foi comprar uma bola
e conseguir um local para jogar. Um terreno na Rua José Paulino, que, antes,
servia como depósito de lenha, foi o escolhido (e por causa disso ganhou
o apelido de "Lenheiro"). Capinado pelos próprios jogadores, ele foi inaugurado
com um treino que teve Rafael Perrone como capitão do time A e Anselmo Correia,
goleiro e capitão do time B.
O primeiro jogo para valer só aconteceria dias depois, em 10 de setembro.
Com Valente, Perrone e Atílio; Lepre, Alfredo e Police; João da Silva, Jorge
Campbell, Luiz Fabi, Cézar Nunes e Joaquim Ambrósio, o Timão entra em campo
contra o União Lapa, vestido de bege
e preto. Assim como o nome do clube, as cores do uniforme também vinham
do Corinthians inglês. Mas tanta inspiração britânica não garantiu um bom
resultado na estréia. Derrota por 1 x 0.
No jogo seguinte, 2 x 0 sobre o Estrela Polar, Luiz Fabi entra para a história ao marcar o primeiro gol do clube (ele marcaria o segundo também). Já no terceiro "match", a primeira goleada: 5 x 0 na Associação Atlética da Lapa. O Corinthians se firmava como um dos melhores times da várzea paulista, onde já despontava o belo futebol do garoto Neco. Com 17 anos, ele atuava apenas no segundo quadro (um elenco de menor importância que o time principal), mas não precisaria de muito tempo para ser titular e se transformar num dos maiores ídolos da história do Timão.
Só que os campinhos lamacentos estavam pequenos demais para as pretensões corintianas. O negócio era jogar no Velódromo Paulista, o grande estádio da época, que pertencia ao Paulistano e ficava na Rua da Consolação. Ora, por que não? Por que não encarar de igual para igual o Paulistano, o Mackenzie e Associação Atlética das Palmeiras, os clubes da elite, dos estudantes bem de vida?
1913 - 1921 Entre os primeiros
Em 1913, a grande chance de estar no meio dos grandes aparece: o São Paulo
Athletic, primeiro campeão paulista da história, desiste de disputar campeonatos
de futebol, deixando uma vaga na Liga Paulista, a rival da Associação Paulista
de Esportes Atléticos (APEA) na realização dos dois campeonatos estaduais
que existiam na época. Para conquistar a vaga, o Corinthians precisaria
vencer o Minas Gerais, do bairro do Brás. Se passasse, teria ainda de enfrentar
na decisão o São Paulo Railway ou o São Paulo do Bixiga, os dois outros
candidatos. O Timão não só bateu o Minas Gerais (1 x 0) como surrou o São
Paulo do Bixiga (4 x 0). Conquistava, assim, seu
lugar ao sol no Campeonato Paulista. Os heróis daquela jornada: Casemiro
do Amaral, Fúlvio e Casemiro González; Police, Alfredo e Lepre; Cézar Nunes,
Peres, Luiz Fabi, Rodrigues e Campanella.
Mais do que o quarto lugar entre cinco concorrentes no primeiro Paulista,
a experiência valeu para revelar dois futuros ídolos: Neco, que defenderia
a camisa alvinegra até 1930, um verdadeiro recorde de permanência no clube;
e Amílcar Barbuy, centroavante e centro-médio das Seleções Paulista e Brasileira.
Com eles no time, o Corinthians enfrentaria adversários
estrangeiros de igual para igual e chegaria ao seu primeiro título,
invicto, em
1914. Repetiria a dose, também sem derrotas, em 1916. Só não foi campeão
em 1915 porque, de olho em uma vaga no campeonato da APEA (que dava mais
prestígio), o clube resolveu abandonar a Liga. Quando pensou em voltar atrás,
era tarde demais. Resultado: sem ter onde jogar, os melhores craques foram
emprestados e o resto da equipe passou a temporada fazendo amistosos no
interior.
Em 1917, o Paulistão é unificado, reunindo em uma mesma competição o chamado
"Trio de Ferro" da capital: Corinthians, Palestra Itália e Paulistano. Este
é também o ano do primeiro encontro do Corinthians com seu rival
mais tradicional, o Palmeiras (que ainda se chamava Palestra Itália).
Foi desastroso: 3
x 0 para os palestrinos. Nos anos seguintes, um longo período de vacas
magras. Nada de título. Mas a essa altura, com o destino traçado, o Corinthians
já figurava "entre os primeiros do nosso esporte bretão", como diz a letra
do seu hino. Em 1918, ano da estréia
em confrontos fora do Estado, o clube constrói o seu primeiro estádio.
Os próprios atletas botaram a mão na massa para erguer o Campo
da Ponte Grande, que ficava no bairro da Ponte Grande, perto do atual
Canindé, estádio da Portuguesa de Desportos.
1922 - 1930 A década é do Timão
Os anos foram gloriosos entre 1922 e 1930. Dos nove Campeonatos Paulistas
disputados no período, o time faturou seis, sendo dois tricampeonatos. O
título mais importante foi o de 1922. Primeiro, porque, naquele ano,
comemorava-se o centenário da Independência do Brasil. Segundo, porque a
taça foi conquistada contra o poderoso Clube Atlético Paulistano, o time
da elite, espécie de antítese corintiana naquele início de século. Entre
os heróis de 1922, o maior deles é o zagueiro Armando Del Debbio, que, ao
lado de Tuffy e de Grené, formaria a legendária zaga do tri de 1928, 1929
e 1930. Destaque também para o meia-esquerda Tatu, autor de um dos gols
do título; para o atacante Gambarotta; e para os já consagrados Neco e Amílcar.
Bi em 1923, tri em 1924, sempre mantendo a mesma base, o clube se lança
a uma aventura em 1926. Troca o campo da Ponte Grande pelo do Parque
São Jorge. A nova casa deu uma sorte tremenda, e as taças não pararam
de chegar. Corinthians Tricampeão Paulista pela segunda vez na década: 1928,
1929 (invicto) e 1930.
A base do time quase não mudou nas três conquistas: Tuffy, Grané e Del Debbio;
Nerino, Guimarães e Munhoz; Filó, Apparício, Neco, Rato e De
Maria.
1931 - 1934 Enfim, o profissionalismo
Em 1931, o Corinthians sofre um duro golpe: de uma só vez, Del Debbio, Filó,
Rato e De Maria vão para a Itália defender a Lazio de Roma. Em seu lugar,
ficam substitutos de pouca ou nenhuma expressão. É o início da crise que
se agravaria dois anos depois. Tempos de nomes como Chola, Boulanger, Gallet.
E de goleadas humilhantes para o Palestra
(0 x 8), para o Santos (0 x 6) e para o São Paulo (1 x 6) - todas no mesmo
campeonato, o de 1931. A torcida, inconformada, põe fogo na sede do clube,
e a diretoria em peso pede demissão.
Mas os ventos do profissionalismo - que, oficialmente, começa no Brasil
em 1933 - também sopraram para os lados do parque São Jorge. Entre 1933
e 1934, o uruguaio Pedro Mazzulo é contratado para ser o primeiro técnico
do clube. Nesse período, surgem mais dois nomes que viriam a fazer parte
da história do Timão: Zuza
e Teleco, os dois centroavantes, os dois goleadores endiabrados.
1935
- 1939 A primeira redenção
Eis um período de grandes decepções. No Paulista de 1935, o time perde o
título para o Santos em pleno Parque São Jorge. Tem coisa pior? Tem: deixar
o troféu do ano seguinte escorregar pelos vãos dos dedos justamente diante
do arquiinimigo Palestra Itália. O Corinthians havia vencido o primeiro
turno e mantinha uma invencibilidade
de 36 jogos. Mas na melhor de três, o Palestra levou a melhor: 1 x 0,
0 x 0 e 2 x 1.
Mas 1937 é o ano da redenção. O time ganha seu primeiro
título profissional, com o zagueiro Jaú (futuro titular do Brasil na
Copa do Mundo de 1938) na defesa, o clássico José Augusto Brandão no meio-campo,
o veterano Filó (de volta da Itália) e o infernal goleador Teleco no ataque.
Na presidência do clube, um espanhol apaixonado: Manoel
Correcher. Essa é também a base do time bicampeão invicto em 1938, acrescida
do baiano Servílio de Jesus, chamado "O Bailarino", que parecia dançar com
a bola nos pés. Nesse ano, a final teve que ser realizada em dois dias.
No domingo, a chuva interrompeu a partida que o São Paulo vencia por 1 x
0. Na terça-feira, disputaram-se os minutos finais da primeira etapa e todo
o segundo tempo. O Corinthians chegou ao empate com um gol de Carlito -
juram os são-paulinos
que marcado com a mão - e ficou com a taça.
Em 1941, o Corinthians só não é campeão invicto por conta de um escorregão,
na última rodada, contra o Palestra. De resto, foi um triunfo total. O time
era ótimo, e a linha média Jango, Brandão e Dino, impecável. Nos anos
seguintes, no entanto, o time vai perdendo seu poderio técnico, ao mesmo
tempo em que o São Paulo de Leônidas da Silva surge como força emergente.
O título de 1941 seria, por longos e sofridos dez anos, a primeira e única
festa corintiana no recém-inaugurado estádio do Pacaembu.
Durante esse tempo, não faltaram contratações bombásticas, como a do veterano zagueiro Domingos da Guia, de 32 anos, em 1944. Nem de goleadores, como Milani e Hércules.
Entre 1942
e 1950, o Corinthians foi vice-campeão nada menos que cinco vezes, sendo
três delas seguidas. Ganhou quatro vezes a Taça São Paulo (em 1942, 1943,
1947 e 1948), torneio que reunia os três primeiros colocados do ano anterior.
Mas o título paulista, que era bom, necas. A situação só começa a mudar
a partir de 1949,
quando uma fornada de pratas-da-casa buriladas pelo técnico Rato (o mesmo
Rato campeão como jogador nos anos 20) chega ao time principal. Com o goleiro
Cabeção, o lateral Idário e o meia Luizinho na equipe, o Corinthians conquista
o Torneio Rio-São Paulo de 1950.
1951-
1955 O melhor Corinthians de todos os tempos?
Aqui começa a campanha do fim do jejum. E em grande estilo: em 1951, o clube
joga a sua primeira partida internacional. No Estádio Centenário, de Montevidéu,
no Uruguai, surra um Combinado Uruguaio por 4 x 1. No ano seguinte, pelo
Campeonato Paulista, o ataque formado por Cláudio, Luizinho, Baltazar, Carbone
e Mário assinala 103 gols em apenas 28 jogos - quase quatro por partida!
Pela primeira vez no profissionalismo uma equipe alcançava a marca centenária.
O Corinthians era um timaço. No gol, estava Gilmar dos Santos Neves, futuro
campeão mundial pela Seleção Brasileira em 1958 e até hoje reconhecido como
o melhor brasileiro na posição em todos os tempos. Curiosamente, ele tinha
vindo do Jabaquara, como contra-peso de uma negociação envolvendo o médio
Ciciá. Gilmar se consagrou, Ciciá sumiu na poeira do tempo.
Os companheiros de defesa de Gilmar eram Homero, um zagueiro sério, vindo
do Ypiranga, e Olavo, ex-Portuguesa Santista, tão seguro quanto regular,
um dos recordistas em partidas seguidas com a camisa do Corinthians. Pelo
lado direito da defesa ficava um filho de espanhóis que compensava a falta
de técnica com muita vontade e, por isso, era idolatrado pela torcida: Idário.
Pela esquerda, Antônio Julião, um beque duro que, de vez em quando, atingia
a bola. O centro-médio era o clássico Roberto Belangero, uma cria da casa,
que só jogava de cabeça erguida, elegante, soberano.
Mas era na linha de frente, à época ainda formada com cinco homens, que
aquele Corinthians se destacava. Cláudio,
o ponta-direita, era chamado "O Gerente", o dono do time, dentro e fora
de campo. Exímio cobrador de faltas e pênaltis, cansou-se de colocar a bola
milimetricamente na cabeça do centroavante Baltazar. Este tinha nas cabeçadas
fenomenais o seu ponto forte, que o levou a participar da Seleção Brasileira
nas Copas de 1950 e 1954.
Pela meia-direita, Luizinho era um artista. Jamais perdia a oportunidade
de valorizar o espetáculo dando um drible a mais. Rodolfo Carbone, o camisa
10, teve curta porém marcante passagem como titular da equipe. Pela esquerda,
o carioca Mário, outro malabarista, de quem se dizia nunca - ou quase nunca
- ter marcado um gol. Preferia o drible à conclusão.
Com a entrada de Goiano no lugar de Julião ou as substituições de Carbone
e Mário por Rafael e Simão, este foi, para muitos, o maior Corinthians de
todos os tempos. O compositor Alfredo Borba fez até uma marchinha
para celebrar a equipe.
Tendo como presidente o folclórico
Alfredo Ignácio Trindade e como técnicos primeiro Rato (na campanha
do bi de 1951 e 1952) e depois Oswaldo Brandão, esses
homens conquistaram tudo o que lhes era possível conquistar: três Campeonatos
Paulistas, em 1951, 1952 e 1954; três Torneios Rio-São Paulo (para os clubes,
o máximo que havia em conquistas nacionais até então), em 1950, 1953 e 1954;
a Pequena Taça do Mundo, na Venezuela, em 1953; o Torneio Internacional
Charles Miller, em 1955; além de uma excursão
vitoriosa à Europa em 1952.
1956 - 1961 Começa a agonia
Entre 6 de fevereiro de 1955 (data da final do campeonato de 1954, contra o Palmeiras) e 13 de outubro de 1977 (noite da decisão do campeonato daquele ano, contra a Ponte Preta), a torcida corintiana não festejou nenhum título digno de nota.
Na medida que o Santos se transformava no "Santos de Pelé", o desespero
corintiano só aumentava. Só contra o time da Vila Belmiro, foram onze anos
sem vitória em jogos de Campeonato Paulista, entre novembro de 1957 e março
de 1968. No começo ninguém notava. Em 1957, o time chegou a conquistar definitivamente
a Taça dos
Invictos em um heróico 3 x 3 contra o próprio Santos, justamente na
primeira partida que deu início ao tabu. Depois virou o fio e o clube perdeu
justamente as duas únicas partidas do campeonato que não podia: para o Santos,
na penúltima rodada, 1 x 0; e para o São Paulo, na última, 1 x 3. De líder
absoluto, terminou em terceiro. Nem o grande Gilmar dos Santos Neves livrou
a cara do Timão.
De tanto colecionar decepções, em 1961, depois de uma campanha horrorosa,
o Corinthians chega a ser chamado de "Faz-me
Rir". Não à toa, nesse período nenhum jogador se destaca. O brilho é
disputado nos bastidores, numa contenda em que os grupos do lendário Vicente
Mateus e de Wadi Helou se engalfinham pelo poder.
1962 - 1976 O martírio parece não ter fim
Nem mesmo o aparecimento do craque Rivellino,
em 1965, foi capaz de devolver a tranqüilidade ao Parque São Jorge. Quanto
mais o tempo passava, mais o drama
corintiano ia tomando contornos épicos. Tentou-se até a contratação de Garrincha
em fim de carreira. Àquela altura já consumido pela bebida e com 32 anos
de idade, o Anjo das Pernas Tortas não tinha mais a mínima condição de fazer
a alegria do povo corintiano. Ele esteve na conquista do Rio-São Paulo,
é verdade. Mas
foi um título tão chocho... A torcida queria um título de verdade, para
comemorar sozinha e não junto com três rivais. Para todos os efeitos, apesar
da taça, o Timão continuava na fila.
Em 1969, um ano depois de quebrado o incômodo tabu contra o Santos (e contra Pelé), o time liderava o Campeonato Paulista. Havia chances reais de afogar aquele martírio de uma vez por todas. Mas a morte de lateral Lidu e do ponta-esquerda Eduardo num acidente de carro abala a equipe, e as esperanças viram fumaça.
A mesma e triste toada marca o início dos anos 70. Em 1974,
quando o clube finalmente vai a uma final (a do Paulista, como campeão do
primeiro turno), a chance é desperdiçada. Palmeiras 1 x 0, no Morumbi.
À essa altura, Rivellino já era campeão do mundo com a Seleção Brasileira, craque incontestável, ídolo de um garotinho argentino de 10 anos chamado Diego Armando Maradona. Mas a torcida perdera a paciência e queria ver cabeças rolando. Para salvar o pescoço, o presidente Vicente Matheus escolhe Rivellino, o grande camisa 10 corintiano, como o bode-expiatório da eterna má fase. Matheus acusa o jogador de fazer corpo mole na final do Paulista de 1974. Rivellino acaba vendido para o Fluminense.
No Campeonato Brasileiro de 1976 há, de novo, uma esperança no ar. O time
ainda é limitado, com poucas ou quase nenhuma estrela. Mas a Fiel acredita.
Viaja os 400 quilômetros que separam as cidades de São Paulo e Rio de Janeiro
e divide o Maracanã com a torcida do Fluminense. Naquela semifinal, era
a máquina tricolor (Rivellino, Carlos Alberto Torres e Paulo César Caju)
contra um alvinegro apenas esforçado. Os cariocas saem na frente com Carlos
Alberto Pintinho. Mas, debaixo de um temporal que desaba no maior estádio
do mundo, o volante Ruço
empata de meia-bicicleta.
Nos pênaltis, o goleiro Tobias garante a festa de 70 000 felizes paulistanos na volta para casa. A alegria dura sete dias, quando a taça fica com os gaúchos do Internacional. Mas é ali, naquela invasão do Maracanã, que começa a florescer um novo Corinthians. Ou melhor: renasce o velho Corinthians forte, brigador e vencedor.
1977 - 1988 Felicidade ainda que tardia
A história é bem conhecida dos corintianos. Eram passados 36 minutos do
segundo tempo da terceira partida decisiva do Campeonato Paulista de 1977,
contra a Ponte Preta. A falta próxima da grande área cobrada pelo lateral-direito
Zé Maria vai parar nos pés do ponta Vaguinho, que acerta a junção da trave
direita com o travessão. Na volta, o lateral-esquerdo Wladimir tenta de
cabeça, mas o zagueiro ponte-pretano Oscar, postado em cima da linha, salva
o gol que parecia inevitável. Na volta, o meia Basílio,
comprado para o lugar de Rivellino apesar de seus apenas razoáveis recursos
técnicos, manda a bola de primeira, para o fundo do gol adversário. E vira
herói para sempre.
Ah, como os corintianos aguardaram aquele momento. Mais precisamente,
22 anos, oito meses e seis dias. A partir do gol de Basílio, começava uma
nova e gloriosa era na história do Timão. No ano seguinte, já com o craque
Sócrates ao lado de Palhinha (o melhor entre os remanescentes campeões de
1977), o time jogou bonito mas não ganhou o bi. Ficou para 1979,
ano em que o Palmeiras de Telê Santana, campeão dos três turnos possíveis,
morreu na praia, eliminado pelo Corinthians nas semifinais com um gol de
canela de Biro-Biro. Aí foi só despachar novamente a Ponte Preta na decisão.
Depois de uma breve derrapada entre 1980
e 1981 (com direito ao descenso à Taça de Prata, a segunda divisão do
Campeonato Brasileiro), o time retoma o rumo com o bi de 1982 e 1983, embalado
pela experiência da Democracia
Corinthiana, em que jogadores e dirigentes decidem juntos os destinos
da equipe. O movimento peitou o jeito arcaico de os clubes brasileiros tratarem
seus atletas, aboliu a concentração, liberou a cervejinha e promoveu uma
maior conscientização política dos jogadores do elenco. Os cabeças eram
Sócrates, Wladimir e Casagrande, apoiados pelo diretor de futebol Adílson
Monteiro Alves.
Perdido o tri em 1984, e desfeitas as ilusões com a máquina que não chegou
a engrenar em 1985, o Timão toma um susto em 1987. De penúltimo colocado
e quase rebaixado, na reta final a equipe comandada pelo técnico Formiga
consegue 13 vitórias em 19 jogos e chega à final contra o São Paulo. Perde,
mas retoma o rumo no ano seguinte. O Paulistão de 1988
é conquistado com o gol do magricela e atrevido centroavante Viola,
de 19 anos.
1989 - 2000 Ambição sem fronteiras
Retomada e consolidada a hegemonia em São Paulo, era hora de vôos mais altos.
A partir de 1989, o objetivo corintiano passou a ser a afirmação nacional.
O projeto, iniciado com as boas participações no Brasileiro e na Copa do
Brasil de 1989, dá frutos já em 1990. Com os lançamentos e os gols de falta
do craque Neto,
o time chega ao seu primeiro título de campeão brasileiro. Disputa a Libertadores
em 1991, volta a mandar jogos
no Parque São Jorge em 1992, chega à decisão do Paulista
de 1993. Na conquista nacional seguinte - a Copa do Brasil de 1995 -,
o ídolo maior já é Marcelinho, carioca de criação, corintiano por adoção.
É ele o regente daquele ano inesquecível, emoldurado com o 21º Campeonato
Paulista, mais um em cima do Palmeiras, que também tinha vinte conquistas
até ali.
Em 1997, o Corinthians se lança em sua primeira aventura em busca de um
parceiro forte que bancasse o time. O casamento com o Banco Excel foi rápido,
mas deu cria: o Campeonato Paulista de 1997, conquistado graças a contratações
como a do zagueiro Antônio Carlos e as dos atacantes Túlio e Donizete. O
time joga bonito também em 1998, ano do segundo título brasileiro, sob o
comando de Wanderley Luxemburgo. A equipe não tinha mais o goleiro e capitão
Ronaldo.
Quem ergueu a taça foi zagueiro paraguaio Gamarra. Maior expoente das pretensões
de internacionalização do clube, ele precisou de apenas uma temporada para
virar ídolo da Fiel. Seguro, sempre bem posicionado, incapaz de machucar
um adversário e de dar chutões, o elegante Gamarra parecia infalível. Raramente
perdia uma disputa de bola, jamais chegava atrasado, estava sempre lá para
salvar o Timão. Foi considerado o melhor zagueiro do mundo e deixou saudades
quando se transferiu para o Atlético de Madrid, da Espanha. Na decisão do
Brasileiro contra o Cruzeiro, no Morumbi, a torcida já sabia que ele estava
de malas prontas. E numa última tentativa de segurar o craque, apelou em
coro: "Fica! Fica! Fica!" Não adiantou. Gamarra foi mesmo embora.
Nada que uma boa comemoração não resolvesse. Seis meses depois, o clube já festejava a 23ª taça de campeão paulista. E no final de 1999, o terceiro Campeonato Brasileiro, dessa vez sob o comando do técnico Oswaldo Oliveira (ex-auxiliar de Luxemburgo) e tendo o volante colombiano Rincón como líder e novo capitão da equipe.
A virada para o ano 2000 encontrou um Corinthians rico, graças à parceria
firmada com o fundo de investimentos norte-americano Hicks,
Muse, Tate & Furst. E recheado de craques, como o goleiro Dida, o volante
Vampeta, o capitão Rincón e os atacantes Edílson e Marcelinho. Como campeão
nacional do país-sede, o clube participa do primeiro Campeonato
Mundial de Clubes, torneio organizado pela Fifa e que reuniu também
timaços como o Real Madrid, da Espanha, o Manchester United, da Inglaterra,
e o Vasco da Gama, do Rio de Janeiro. Em pleno Maracanã, o Timão bateu,
nos pênaltis, o Vasco dos atacantes Romário e Edmundo e ficou com o cobiçado
título. O Corinthians se tornou assim o primeiro campeão do mundo reconhecido
pela Fifa.
O clube começava o primeiro semestre do ano como favorito para todas as competições que participaria: Campeonato Paulista, Copa do Brasil e Libertadores. Mas o técnico Oswaldo de Oliveira sabia muito bem o que queria: o título da Libertadores, pois a derrota para o Palmeiras nos pênaltis no ano anterior ainda estava engasgada. A competição era prioridade, e nada parecia capaz de impedir o Corinthians de conquistar seu primeiro título sul-americano. Para isso, clube sacrificou o Paulista e a Copa do Brasil jogando com reservas.
Mas um novo confronto com o Palmeiras transformou o sonho no pior dos pesadelos. Nova derrota nos pênaltis. E, para piorar, num erro do principal jogador do elenco, o meia Marcelinho Carioca, que teve a sua cobrança defendida pelo palmeirense Marcos. A eliminação na Libertadores foi devastadora. Custou a cabeça do técnico Oswaldo de Oliveira, campeão paulista, brasileiro e mundial pelo clube.