14h06 28/10/2004
Médico celeste critica despreparo
Cardiologista do Cruzeiro diz que falta de um desfibrilador no campo comprometeu assistência a Serginho. Do Pelé.Net
BELO HORIZONTE - A morte do zagueiro Serginho, do São Caetano, durante partida contra o São Paulo, na noite de quarta-feira, no Morumbi, gerou críticas do médico cardiologista do Cruzeiro, Roberto Felipe, ao atendimento prestado ao jogador no campo do Morumbi. Para o médico mineiro, um aparelho desfibrilador deveria ter sido utilizado.
"O que a gente sabe é o seguinte: existe um despreparo geral no atendimento ao atleta. É inconcebível que você tenha um atendimento dentro de campo sem um desfibrilador, que é aquele aparelho que ressuscita a pessoa naquele momento", observou Roberto Felipe, em entrevista à Rádio Itatiaia.
De acordo com o cardiologista, apenas um desfibrilador poderia, por meio de choque, reanimar o jogador nos casos de mal súbito. "Mesmo quando você faz as manobras ressuscitatórias na hora, dificilmente você vai conseguir reanimar o paciente só com o murro no peito e a manobra de massagem. Você teria que ter um desfibrilador", lamentou o médico.
Também o chefe do Departamento Médico do Atlético-MG, Rodrigo Lasmar, considera que o fato do desfibrilador não ter sido levado para dentro do campo pode ter sido determinante para a morte do zagueiro do São Caetano. Segundo ele, o uso do aparelho não dá 100% de chances ao paciente, mas aumenta as chances de mantê-lo vivo.
"Isso, na verdade, é uma situação que pode ser melhorada, talvez, mas é uma situação que é mundial. Tem que existir uma padronização de atendimento de atleta no mundo todo. O desfibrilador existia ontem no Morumbi. O seu uso, necessariamente, não impede que o atleta venha a ter uma parada cardiorrespiratória e venha ao óbito, mas em muitos casos ele ajuda", observou.
Roberto Felipe concorda com o colega e ressalva que não se pode afirmar que Serginho seria salvo com o uso do desfibrilador ainda no gramado do Morumbi. "A chance dele aumentaria muito, a gente não pode dizer com certeza. Sem o desfibrilador a chance dele cai muito", avaliou.
Outra crítica do médico do Cruzeiro foi quanto aos exames a que os jogadores de futebol são submetidos. "O problema é que o clubes às vezes fazem o exame clínico sumário e pronto. Agora, tem serviços que fazem esses exames, o Cruzeiro faz. Existe uma chance menor de ter um problema", disse Roberto Felipe, sem citar quais os clubes seriam negligentes.
Mais uma vez, o médico do Cruzeiro avalia que não há como se cercar totalmente para evitar problemas como o de Serginho. "A medicina não é matemática, dois e dois não são quatro. Você pode fazer um teste de esforço, que dá uma especificidade de 80%, 90% e a pessoa ter algum problema. Talvez devido a custo e política pública de não dar importância a isso", destacou.
Segundo Rodrigo Lasmar, todos os jogadores que chegam ao Atlético passam por uma avaliação completa, inclusive com exames cardiovasculares. No entanto, o médico disse que diagnosticado algum problema específico no coração, por exemplo, o jogador não é tratado pelos profissionais do clube, mas encaminhado a um especialista.
"Primeiramente, quando o atleta é contratado pelo clube, ele passa por uma avaliação minuciosa e ele é encaminhado a todos os especialistas de uma área, caso seja necessário. Por exemplo, um cardiologista, um neurologista. Isso quando existe uma história que necessita de uma avaliação mais detalhada", comentou Rodrigo Lasmar, que também compõe o departamento médico da Seleção Brasileira.