08h04 02/07/2008

Sem pressa, Paulinho McLaren aposta em consolidação como técnico

Novo comandante do Rio Claro, ex-centroavante admite que está atrás de seus contemporâneos, mas projeta objetivos ousados na nova carreira.

Guilherme Costa, especial para o Pelé.Net

SÃO PAULO - A precocidade talvez seja uma das características mais presentes no futebol atual. Jogadores muitas vezes são alçados de forma afoita aos times profissionais, e recebem com a mesma velocidade o status de ídolos ou insuficientemente bons para sua condição. Dentro e fora de campo, tudo na carreira deles acontece com rapidez cada vez maior. Menos para o ex-atacante Paulinho McLaren.

Contrariando essa idéia de precocidade, Paulo César Vieira Rosa começou a carreira no Bandeirante de Birigui, em 1981. Durante anos, perambulou pelo interior de São Paulo. Só começou a chamar atenção de outros clubes do Brasil em 1989, quando teve uma passagem pelo Figueirense.

Depois disso, a carreira de Paulinho teve ascensão contundente. O centroavante chegou sem alarde ao Santos, mas foi artilheiro do Campeonato Brasileiro de 1991 e se consolidou como ídolo alvinegro. Naquela época, ganhou o apelido de McLaren por ter feito um gol contra o Bahia e comemorado de forma alusiva à direção de um carro. No dia seguinte, o brasileiro Ayrton Senna da Silva venceu pela primeira vez em sua carreira o Grande Prêmio do Brasil de Fórmula 1.

Já como McLaren, Paulinho vivenciou a experiência de jogar no exterior - migrou para o Porto no fim de 1992 e venceu um Campeonato Português e uma Supercopa de Portugal. Além disso, o centroavante passou por Internacional-RS, Portuguesa, Cruzeiro, Fluminense, Atlético-MG, Miami Fusion (Estados Unidos) e Santa Cruz antes de encerrar a carreira, em 1999.

A transição pós-aposentadoria também foi marcada pela paciência. Paulinho chegou a se aventurar como empresário e teve uma experiência como treinador do Taquaritinga na Copa Federação Paulista de Futebol de 2005, mas só agora, nove anos e muito estudo depois, resolveu apostar alto em um novo cargo. Para isso, aceitou um convite e dirigirá o Rio Claro, time em que já havia trabalhado nas categorias de base.

"Eu sei que saio um pouco atrás dos ex-jogadores da minha geração, mas eu fui me preparar e procurei fazer uma transição consistente. Eu hoje penso em ser o treinador da seleção brasileira no futuro, mas não tenho pressa e não pretendo queimar etapas", avisou Paulinho em entrevista exclusiva ao Pelé.Net.

Pelé.Net - Você ganhou o apelido de McLaren por conta de uma comemoração alusiva à direção de um carro e teve a carreira marcada pelo estilo despojado. O futebol atual carece de jogadores com esse mesmo perfil?
Paulinho McLaren -
Jogadores assim fazem falta, sem dúvida alguma. O futebol passou por uma mudança drástica nas gerações que vieram depois da minha e passou a ser tratado como um grande negócio. Nós nos espelhávamos nos ídolos que construíram a história e em suas passagens folclóricas, mas hoje o mercado é diferente. Os atletas não conseguem criar identidade com os clubes e o futebol está muito profissional fora de campo. Essas mudanças transformam a mentalidade dos atletas, que são vistos como ferramentas.

Pelé.Net - O Túlio Maravilha é o grande exemplo do seu estilo no futebol atual?
Paulinho McLaren -
Ele é uma figura. É meu amigo e consegue promover os jogos de uma forma muito legal. Jogadores com essa irreverência fazem falta. Quando eu fazia um gol e comemorava com uma brincadeira, as pessoas me paravam no hotel ou na rua para discutir aquela jogada. Hoje eu passo por aí e as pessoas me pedem para ensinar aquelas coisas. Os jogadores irreverentes marcaram época.

Outro problema é que os garotos das escolinhas de futebol querem ser jogadores do Milan, e não de um grande clube daqui. E querem ser como o Cristiano Ronaldo, e não como um grande jogador brasileiro. Os garotos que se espelham em atletas europeus tendem a formar uma geração muito fria. O jogo brasileiro é diferente, com uma característica da dança ligada ao futebol. Os caras lá fora não têm esse gingado.

Pelé.Net - Você era um centroavante marcado pelo poder de finalização. O futebol também se ressente de atletas com essa característica atualmente?
Paulinho McLaren -
Ah, sim. A pressão e a cobrança sobre os meninos são muito grandes. Jogadores assim não aparecem porque não há tempo para trabalhar. Hoje em dia há pouco tempo de maturação e muitas vezes não são respeitadas todas as etapas da transformação dos atletas. A maior transferência do mercado brasileiro do ano passado foi a do Alexandre Pato, que só tinha 17 anos. Mas o sub-20 é o processo final da formação do atleta e ele não pode pular essa etapa. A troca de categoria está muito rápida atualmente. Banalizaram demais.

A base sempre foi uma grande diferença para o futebol brasileiro e caras como Candinho, Pepe, Cabralzinho e o Ênio Andrade, que era genial, ajudaram a formar essa cultura. Espero que a minha geração, com caras como [Alexandre] Gallo, Adílson [Batista] e Zetti, possa fazer o mesmo com os garotos do futuro.

Pelé.Net - Esse tempo de maturação é uma das justificativas para o sucesso da sua carreira? Apesar de ter começado a jogar em 1981, você só se consolidou no mercado brasileiro a partir do início da década de 1990...
Paulinho McLaren -
Eu acho que as coisas são mais rápidas hoje porque na minha época não havia toda essa estrutura. Mas eu passei por todas as fases e isso me ajudou. Eu não queimei etapas. A molecada atual não está curtindo as coisas e isso facilita o desgaste. Hoje você vê jogadores como o Robinho falando em aposentadoria aos 28 anos.

Pelé.Net - O tempo de maturação também é a justificativa para você só apostar na carreira de treinador agora, quase nove anos depois da aposentadoria como atleta?
Paulinho McLaren -
Eu tive oito convites para treinar equipes antes, mas queria terminar a faculdade e cumprir minha fase de estágios. Eu queria entender o jogador como um todo e passar por equipes de base era fundamental nesse processo. Até porque a geração de 17 ou 18 anos é o grupo de atletas que eu vou encontrar lá na frente. Eu queria estar mais preparado para administrar a relação humana, e por isso eu fui estudar. Terminei a faculdade de educação física, até porque essa qualificação é uma exigência do mercado atual. Já dei entrada até no meu Cref [registro de profissionais no Conselho Regional de Educação Física].

Pelé.Net - Por ter esperado algum tempo e buscado uma preparação, você acha que sai atrás de outros ex-jogadores da sua geração que já iniciaram a carreira de técnicos?
Paulinho McLaren -
Eu sei que saio um pouco atrás dos ex-jogadores da minha geração, mas eu fui me preparar e procurei fazer uma transição consistente. Eu hoje penso em ser o treinador da seleção brasileira no futuro, mas não tenho pressa e não pretendo queimar etapas.

Pelé.Net - E o que mudou no futebol do tempo em que você atuava para a nova fase como treinador?
Paulinho McLaren -
Ah, a preparação. Eu sou do tempo em que o Santos subia para a Escola Paulista de Medicina, em São Paulo, para fazer avaliações. Hoje em dia, quase todo clube tem estrutura para isso. A dinâmica de jogo e a mentalidade também mudaram. Hoje em dia o cara não é mais só jogador; é atleta. Eu carrego algumas coisas dos treinamentos, como a idéia de quem dá chutão tem de pagar dez flexões. Nós precisamos valorizar o jeito brasileiro de jogar, que é com a bola no chão. Mas algumas coisas mudaram, como a valorização da velocidade.

Pelé.Net - De quais formas você usa seus exemplos da carreira para como ferramenta pedagógica?
Paulinho McLaren -
Eu sempre falo para os atletas que eu sou o futuro deles. O mercado é muito grande, a exigência é enorme e o cara precisa de muitos requisitos. Para isso, as palavras-chave são comprometimento e disciplina. Lá atrás eu tinha isso e hoje em dia é muito pior. Cada geração tem uma característica e atualmente existe essa busca por atletas completos.

Além disso, eu sempre procuro conversar com os atletas e mostrar a diferença do mundo de hoje para o que existia quando eu era jogador. O segredo é humanizar a relação, e só quem já vestiu um shortinho e foi para o campo sabe a dificuldade que existe ali.

Pelé.Net - Em 2005, quando você teve uma passagem como treinador do Taquaritinga, disse que seu principal exemplo como treinador era o Ênio Andrade. Os anos mudaram essa convicção ou ele segue como seu maior modelo?
Paulinho McLaren -
Ele tinha uma característica muito interessante de pensar em soluções para grandes problemas. Ele sempre dizia que a dificuldade exigia mudanças. Ele levava você ao quartinho dele, que tinha uns 300 jornais do Brasil inteiro, e mostrava: "Olha o que esse jogador falou", "olha como o treinador pensa o jogo". Quando você chegava nas partidas, as coisas que ele dizia sempre faziam diferença. Isso desenvolvia uma relação de confiança.

Eu vou pegar um time novo, com média de idade de 19 anos. Então, meu trabalho vai ser como um pai que ensina a andar. Vou pegá-los pela mão, dar dois ou três passos e deixar que eles caiam umas 50 vezes. Minha idéia é empurrar os atletas para descobrir e construir. Para isso, preciso ser chato e trabalhar em busca da excelência.




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