09h07 13/08/2008

Após Fenerbahce, Zico busca consolidação no mercado europeu

Ex-treinador do clube turco não pensa em voltar a dirigir alguma seleção e diz que nunca pensou em assumir o cargo preenchido hoje por Dunga

Renan Prates, especial para o Pelé.Net.

SÃO PAULO - Um dos maiores nomes da história do futebol brasileiro em campo, Arthur Antunes Coimbra, o Zico, ainda tenta consolidar seu nome como treinador no futebol mundial.

TOSHIFUMI KITAMURA/AFP
Em 2006, Zico foi o técnico da seleção do Japão na Copa do Mundo da Alemanha
Reuters
Zico se destacou ao levar o Fenerbahce às quartas da Liga dos Campeões 2007/2008
AFP?Vanderlei Almeida
O ex-jogador cumprimenta o príncipe Naruhito, do Japão, no Rio de Janeiro
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Após boa passagem pela seleção japonesa na Copa do Mundo de 2006, Zico se consagrou na Turquia no comando do Fenerbahce, pelo qual chegou às quartas-de-final da Liga dos Campeões. Agora, está sem clube.

Zico já rechaçou sondagens para voltar ao Brasil - o Atlético-PR foi o último -, pois quer consolidar a sua carreira na Europa. "O objetivo no momento é mesmo encontrar um clube num país europeu para dar seqüência a minha carreira como treinador", afirmou. Com esse objetivo em mente, nem mesmo a seleção nacional passa pela sua cabeça. Ao menos no momento.

Na entrevista ao Pelé.Net por e-mail, Zico falou também sobre a situação do Flamengo no Brasileirão e arriscou dizer quem se assemelha ao seu futebol nos dias atuais. Confira a entrevista na íntegra.

Pelé.Net - Como você vê a chegada de Roberto Dinamite, um dos maiores ídolos da história do Vasco, sendo presidente do clube? Pensa em fazer o mesmo no Flamengo?
Zico - Acho ótimo que ex-jogadores de futebol, ex-atletas, se envolvam em seus clubes, entidades, federações e lutem para melhorar com um olhar de quem já esteve lá dentro. Mas não acho fundamental isso. O caso do Dinamite é especial porque se trata de um amigo, que torço para que consiga tirar o Vasco da situação. Há muito tempo era esperada a chegada dele à presidência. No meu caso, já não tenho nenhuma pretensão desse tipo. Ajudaria o Flamengo de outras formas.

Pelé.Net - E a atual situação do Flamengo? Houve algum erro de planejamento no seu ponto de vista? Acha que o Caio Júnior terá força para fazer o time retomar o caminho das vitórias?
Zico - Houve uma perda de peças importantes sem reposição rápida. E isso num campeonato como o Brasileiro, longo e com uma janela de transferências, pode atrapalhar muito. Atrapalhou, e agora o Caio Júnior está tentando mexer. O Flamengo tem bons jogadores, mas no Brasileiro é preciso elenco, por isso ele está sofrendo.

Pelé.Net - A sua intenção como treinador é buscar os principais centros do futebol europeu ou voltar ao Brasil? Voltar a dirigir alguma seleção? A seleção brasileira poderia fazer parte dos planos?
Zico - Não descarto voltar a dirigir uma seleção, mas o objetivo no momento é mesmo encontrar um clube num país europeu para dar seqüência a minha carreira como treinador. Olha, até hoje não sonhei com a seleção. Dunga jamais tinha sido treinador antes de assumir e está fazendo um bom trabalho de renovação. Não digo se estou ou não preparado, simplesmente nesse momento isso não passa pela minha cabeça.

Pelé.Net - Como você avalia a sua passagem pelo Fenerbahce? Serviu para colocá-lo na rota dos grandes clubes europeus? Fenerbahce x Galatasaray é mesmo o maior clássico do mundo? O mais violento? Se possível, compare com Flamengo x Fluminense.
Zico - Num balanço, vejo que o resultado foi muito positivo. Vencemos com o time no ano do Centenário, conseguimos resultados expressivos no cenário europeu, e o Luis Aragonés pegou um time mais confiante, mais reconhecido, com um grupo mais experiente em jogos internacionais. O que acontece na Turquia mistura paixão pelo futebol e religião, ingredientes que não temos no Brasil desta forma. E isso torna a disputa lá mais violenta do ponto de vista de torcida, mais agressiva mesmo. É diferente do Fla-Flu. Os brasileiros não entendem o futebol da mesma forma como os turcos. Aqui tem apenas a paixão.

Pelé.Net - Quem foi sua inspiração na carreira de treinador? Se possível, cite um técnico no mundo e um no Brasil que você acha o melhor e o porquê disso.
Zico - Citar um técnico é difícil, acho que tenho um pouco de muitos com quem trabalhei quando era jogador... Telê [Santana], [Cláudio] Coutinho, [Paulo Cesar] Carpegiani, enfim, muitos com quem trabalhei que me influenciaram. Para citar um, citaria o Telê.

Pelé.Net - Você acha que o que fez no Japão está para o que o Pelé fez nos Estados Unidos - devolver a eles o prazer de jogar futebol, valorizar e atrair os holofotes para a liga local? Como é a relação do torcedor japonês? Você ainda dá palpites na seleção japonesa? Acredita que o Japão possa, algum dia, ter uma posição de destaque no futebol mundial?
Zico - Não gosto dessas comparações. O que fiz no Japão foi me doar como jogador, como conhecedor da estrutura do futebol, para promover um time amador a profissional e ajudar a profissionalização do futebol no país. Isso na primeira etapa. Como treinador da seleção, minha luta foi para tornar o futebol asiático um pouco menos preso, explorar mais a criatividade, dar liberdade aos jogadores. Acho que deu bons resultados também. Hoje já não tenho mais nenhuma ligação com a seleção. A grande dificuldade deles está na alimentação e na formação atlética, que em geral é muito limitada. São baixos, sofrem muito com lesões. Isso atrapalha hoje que o jogo está muito físico. Essa é uma grande barreira que eu torço para o Japão superar.

Pelé.Net - Você acha que o brasileiro não respeita seus ídolos? Sente falta de mais carinho e reconhecimento por tudo o que já fez no futebol?
Zico - São duas situações. Acho que grandes figuras realmente não tiveram o merecido reconhecimento, mas isso ocorre em outras áreas e outros países também. E eu não tenho do que me queixar. Agradeço a Deus sempre por ter me dado a chance de vestir a camisa do Flamengo, que era meu sonho, e consegui muito mais do que isso com a camisa 10, que era do meu ídolo Dida. Hoje recebo o carinho de todos aonde vou.

Pelé.Net - Existe algum jogador que se assemelhe ao Zico no futebol atual? Por quê?
Zico - Meu estilo de jogo era de um atacante que vinha buscar e chegava ao gol. Talvez o Kaká, que tem este jeito também. Mas são poucos os jogadores hoje com essas características.

Pelé.Net - Para muitos torcedores brasileiros (principalmente os que não são flamenguistas) você tem um rótulo pejorativo por não ter vencido as Copas de 82 e 86 (como jogador) e 98 (como técnico). Como você lida com isso?
Zico - Com tranqüilidade. Não sou o único a não vencer uma Copa e, como disse, realizei sonhos importantes de infância. Claro que queria ter sido campeão do mundo com a seleção, mas isso acabou sendo menor diante de tanta coisa boa que vivi e vivo até hoje graças ao futebol.

Pelé.Net - No CFZ, você acaba lidando com o outro lado da moeda, tendo contato direto com revelação e negociação de atletas. Como vê o êxodo cada vez mais precoce dos atletas para o exterior? Não acha que eles saem muito despreparados? Outra coisa: até onde o CFZ pode chegar?
Zico - O êxodo é inevitável, infelizmente. Por motivos diversos em que o principal é o econômico. Não dá para nossa moeda competir com o dólar, euro e libra. Mas acho realmente que boa parte sai do país muito jovem e sem preparo adequado. Mas não há muito o que fazer, apenas esperar, pois a maioria que vai assim acaba voltando. Sobre os objetivos, acho que é um degrau de cada vez. Passamos 10 anos tentando subir no Rio e não conseguimos. Agora este é o degrau, chegar à Primeira do Rio. Depois, consolidar na elite do Rio o clube, que hoje é presidido pelo meu filho Bruno e tem outro filho, o Júnior, como um dos diretores. E aí vamos pensar nas próximas metas.

Pelé.Net E a geração de talentos no clube? Algum "novo Zico" já foi revelado?
Zico - Nunca pensei em ter um clube para fabricar jogadores assim. Acho que o nascimento não de um Zico, porque não penso que podemos comparar as pessoas assim, mas de bons jogadores deve ser um processo natural. Estamos trabalhando, alguns jogadores estão espalhados por aí. Mas o mais importante é que nosso clube, que é empresa, se preocupa com a formação de todos os meninos que passam por lá. Esta, sim, é uma prioridade.




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