09h03 22/08/2008

Perto do desfecho, Jardel busca resgatar fase positiva da carreira

Atacante de 34 anos acertou com o Criciúma para disputar a Série B do Campeonato Brasileiro e tenta superar dramas pessoais para reviver grandes momentos.

Guilherme Costa, especial para o Pelé.Net

SÃO PAULO - Três títulos estaduais no Rio de Janeiro, dois no Rio Grande do Sul e um em Goiânia. Quatro taças do Campeonato Português e uma da Copa da Uefa. Artilheiro da Copa Libertadores de 1995 e da Liga dos Campeões da Europa de 1999/2000. Chuteira de ouro em duas temporadas e o melhor jogador do futebol lusitano três vezes. São muitos os feitos que fazem do centroavante Jardel um dos jogadores brasileiros mais vitoriosos dos últimos anos. E que o afastam do enorme ponto de interrogação que ele passou a ser.

Além dos gols, feitos individuais e títulos, a carreira de Jardel foi marcada por problemas fora das quatro linhas. O jogador enfrentou um divórcio traumático quando estava na Europa e depois admitiu ter passado por problemas com drogas e álcool.

Frank Leonhardt/AFP
Jardel conquistou duas vezes a chuteira de ouro como o maior artilheiro da temporada
Yoshikazu Tsuno/AFP
Sua fama de artilheiro acabou rendendo convocações para a seleção brasileira
Fernando Ribeiro/AE
Agora no Criciúma, o atacante quer reviver os bons momentos de sua longa carreira
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A rotina desregrada e os problemas fora de campo destruíram a imagem de um dos maiores jogadores da história recente do futebol português. Jardel tornou-se ídolo no Porto, time em que ganhou o apelido de Super Mário - alusão ao personagem de games e ao primeiro nome do centroavante. Também fez sucesso em uma passagem pelo Sporting de Lisboa.

Depois da incursão pelo Sporting, porém, Jardel transformou-se em mera sombra do grande definidor que foi na década de 1990. Ele colecionou passagens apagadas por Bolton (2003 a 2004), Ancona (2004), Palmeiras (2004), Newell's Old Boys (2004), Alavés (2005), Goiás (2005 a 2006), Beira-mar (2006 a 2007), Anorthosis Famagouste (Chipre, 2007) e Newcastle Jets (Austrália, 2007 a 2008).

Em todas essas oportunidades, Jardel atingiu pouco mais do que frustrações. Por conta disso, ele encarou um recomeço para a carreira quando acertou contrato com o Criciúma até o fim da Série B do Campeonato Brasileiro de 2008.

O acerto com o Criciúma tornou-se uma chance de Jardel resgatar a fase boa de sua carreira. Perto do desfecho - ele pretende jogar por mais dois ou três anos -, o centroavante vislumbra no atual momento uma chance de apagar os erros recentes.

Em entrevista ao Pelé.Net, Jardel fala sobre a chance de recomeçar no Criciúma, o fim da carreira e perspectivas como o lançamento de uma marca com seu nome e um trabalho com palestras a atletas.

Pelé.Net - Quando a sua contratação foi anunciada, você chegou a dizer que via o Criciúma como um recomeço para sua carreira. O sentimento é realmente esse?
Jardel -
Sem dúvida alguma. Eu estou muito feliz com a oportunidade que eles estão me dando aqui no Criciúma. Acho que seria impossível estar melhor. Eu estreei marcando um gol e estou muito confiante para esse momento. As portas estão voltando a se abrir para mim e eu quero voltar ao meu normal.

Pelé.Net - Como você vê sua condição atualmente? Você já está rendendo tudo que pode?
Jardel -
Eu estou 100% fisicamente, mas ainda estou recuperando o ritmo. Estou jogando, entrando na equipe e pegando confiança. Estou confiante para essa retomada e quero voltar a fazer muitos gols aqui no Criciúma.

Pelé.Net - Sua recuperação física foi orientada por um projeto de alunos da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Como aconteceu isso?
Jardel -
Eu fiz todos os testes na Universidade Federal do Rio Grande do Sul para saber qual era minha real condição física. Eles mediram força, velocidade, potência e outros aspectos para ver o que eu precisava trabalhar mais. Então montaram um programa de treinos para mim e isso me ajudou demais. Quando cheguei ao Criciúma, fiz mais um mês de pré-temporada para complementar isso. Hoje eu posso dizer que estou muito bem psicologicamente e fisicamente.

Pelé.Net - Nos últimos anos, você teve aparições na mídia em função de problemas particulares e envolvimento com drogas. O que mudou na sua vida nesse aspecto e qual foi a importância da religião para isso *?
Jardel -
Você precisa buscar forças para sair desse momento ruim, mas não é nada fácil. Eu tentei encontrar apoio na palavra de Deus e acho que isso foi importante. Parei de andar com as más companhias, comecei a trabalhar mais e falar menos e me entreguei ao meu trabalho. Coloquei na cabeça que eu posso voltar a ser grande.

* Nota da redação: Durante a semana, quando conversou por telefone com a reportagem, Jardel disse que faria um encontro religioso em sua casa naquela noite e que esse é um de seus principais passatempos atualmente.

Pelé.Net - Qual é o limite desse recomeço? Que estágio você pretende atingir nesse novo momento da carreira?
Jardel -
Antes de mais nada, quero voltar a fazer gols. Se possível, quero continuar aqui no Criciúma. É claro que vão aparecer propostas se eu for bem porque eu tenho um nome forte, mas eu estou feliz aqui e quero trabalhar com essa mesma tranqüilidade. Acho que ainda posso jogar dois ou três anos bem antes de encerrar a carreira. Ninguém desaprende a fazer gols.

Pelé.Net - E você já pensa no que vai fazer quando o momento de encerrar a carreira chegar?
Jardel -
Eu vou voltar a morar em Porto Alegre quando parar de jogar. Estou pensando no que eu posso fazer, mas talvez eu siga trabalhando com atletas. E provavelmente eu vou abrir uma marca para mim. Quero explorar o nome Jardel. Sobre os próximos anos, quero encerrar aqui ou no Grêmio.

Pelé.Net - Você usa de alguma forma as experiências negativas que teve durante a carreira para motivar seus companheiros no Criciúma?
Jardel -
Eu tento passar tudo que aconteceu comigo, as dificuldades que eu tive, o envolvimento com coisas negativas e o quanto o trabalho depende da nossa iniciativa. Se você tiver dedicação, um pouco de sorte e conviver com pessoas boas, vai atrair coisas boas. Só assim vai ter frutos do seu trabalho.

Passo minha experiência aos jogadores e tento mostrar o quanto isso pode ajudar a vida profissional e pessoal deles. Falo sempre nas palestras e essa é outra coisa que eu pretendo fazer quando encerrar a carreira. Penso em dar palestras para falar sobre a minha experiência.

Pelé.Net - O livro "Jardel - os meus segredos", que tem sua biografia, tem sido um sucesso de vendas em Portugal. Você pensa em publicá-lo no Brasil também?
Jardel -
É uma idéia que eu tenho, sim. Eu tenho uma história muito bonita tirei muitas lições das coisas negativas. Acho que eu posso transmitir isso para os outros também. É mais um projeto para quando eu estiver perto de parar.




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