08h57 01/10/2008 "Novo" Santa Cruz quer virar S/A e vai apostar em futebol profissional
Recém-eleito para comandar a equipe que foi rebaixada à Série D do Campeonato Brasileiro, Bezerra Coelho quer transformar o Santa Cruz em um clube-empresa
Márcio Markman, especial para o Pelé.Net
RECIFE - Administrador de empresas formado pela USP, ex-deputado estadual, ex-deputado federal, ex-prefeito de Petrolina, cidade mais próspera do sertão pernambucano, por três mandatos e atual secretário de Desenvolvimento Econômico e homem e confiança do governador do estado, Eduardo Campos. Esse é o currículo do novo presidente do Santa Cruz Futebol Clube, Fernando Bezerra Coelho, que teve seu nome referendado nesta terça-feira, em uma eleição simbólica, no Arruda.
Bezerra Coelho (e) ao lado do novo vice-presidente do Santa Cruz, Sidnei Aires
Para um clube que em três anos saiu da Série A para a recém-criada Série D, vive a maior crise da sua história de 94 anos e vem de sucessivas administrações marcadas pela fragilidade na gestão e falta de investimento em infra-estrutura e na base, a eleição de Bezerra Coelho tem sido comemorada como a contratação de um super-craque.
Mesmo antes de assumir o clube, o novo presidente já impôs uma nova dinâmica na administração. Atuando em várias frentes, tem estudado a contabilidade deficitária e confusa do que ele chama de "Santa Cruz velho", enquanto planeja, com o apoio de grandes consultorias, transformar o Tricolor em clube-empresa. Seus diretores começaram a fase de visitas a grandes clubes do futebol brasileiro para conhecer de perto experiências que têm dado certo, como o plano de sócios e o trabalho das categorias de base do Internacional.
Em entrevista exclusiva ao Pelé.Net, Bezerra Coelho fala sobre em que condições assume o Santa Cruz e os primeiros desafios que terá pela frente.
Pelé.Net: A primeira proposta de impacto que sua gestão propõe é a transformação do Santa Cruz em clube-empresa. Em que pé está esse processo?
Fernando Bezerra Coelho: "Consultores da Ernest & Young e Delloite estão fazendo a modelagem dessa nova proposta de gestão, que teria um fundo de investimentos para fazer as melhorias no estádio, para cuidar da questão do centro de treinamentos e para a montagem do time. Há muitos obstáculos ainda, você precisa que ter o 'Santa Cruz velho' radiografado, tratar com os credores. Mas é uma frente de trabalho importante".
Pelé.Net: A transformação de um clube em empresa já foi propagada como a saída para diversos clubes, mas o que se vê na prática é que existem pouquíssimas experiências nesse sentido. O que justifica o Santa Cruz ir por esse caminho?
Fernando Bezerra Coelho: "Alguns clubes tentaram, a maioria desistiu. O Palmeiras tentou, mas fez uma parceria simples com a Traffic. Há modalidades diversas, mas a mais enxuta, que deixa mais dividendos para o clube, é a do fundo de investimento de risco. Estamos centrando esforços para tentar viabilizá-la. É uma frente de trabalho grande, uma corrida de obstáculos, e esperamos que tudo de certo para que em dezembro ou janeiro já possamos estar captando recursos para esse fundo".
O novo presidente do Santa Cruz trouxe para a mesa diretora do clube o administrador do Complexo Industrial Portuário de Suape, Sidnei Aires, como vice-presidente do Executivo, além do desembargador Bartolomeu Bueno, para a Presidência do Conselho Deliberativo.
A promessa da nova gestão é de promover uma verdadeira revolução no Santa Cruz, implementando uma administração moderna e profissional. No último final de semana, por exemplo, Sidnei Aires e dois futuros diretores visitaram o Internacional, para conhecer as experiências de gestão do time gaúcho.
"Focamos nosso trabalho em cima do Internacional, pelo número de sócios que eles têm e pelo trabalho de base que realizam. Passamos o dia no clube olhando a parte financeira, administrativa, o trabalho das categorias de base e fomos ao jogo com o Grêmio, para observar o movimento de entrada da torcida, questões como bilheteria, borderô", comentou o futuro diretor de Comunicação do clube, Antônio Carlos Vieira Júnior.
Pelé.Net: Qual vai ser a primeira medida prática que sua gestão irá tomar ao assumir o clube?
Fernando Bezerra Coelho: "Assim que tomarmos posse, os auditores vão mergulhar nas contas do Santa Cruz. O clube não tem conta corrente, não tem cheque. Também vou me reunir com o pessoal da Receita Federal, da Justiça do Trabalho, para evitar seqüestros nas contas do 'Santa Cruz velho'. Mas a verdade é que o trabalho já começou e temos procurado atuar em várias frentes. Nosso pessoal esteve em Porto Alegre, conhecendo as experiências de Internacional e Grêmio em relação ao projeto de sócios, que é um outro caminho para a arrecadação de recursos e o clube poder ter uma receita estável. Vamos retomar a campanha da doação pela conta de luz, que não foi muito bem sucedida até aqui no Santa Cruz, mas que representa um nível de arrecadação relevante para o Atlético-MG. Há também a experiência que alguns clubes de São Paulo já realizam, que é a cesta de investidores, com um grupo de pessoas que divide as despesas da compra de um jogador e é remunerado quando ele é vendido".
Pelé.Net: Esses projetos são relevantes, mas há muita coisa urgente para ser feita no Arruda, não?
Fernando Bezerra Coelho: "Sim, todas essas propostas levam um certo tempo para ser viabilizadas. Não é do dia para a noite. Temos que maturar e pensar qual o melhor formato para todas elas. Acho que a hora é de arrumação da casa, de buscar a melhor organização. Também não quero que conselheiros ou sócios comecem a dar dinheiro ou a contribuir. Precisamos primeiro organizar o clube. E como apagar o incêndio e começar a tocar o clube? Com a doação de gente que está colaborando, que pede para não ter o nome revelado. Com essa ajuda, poderemos sair da inércia e resolver questões como o pagamento das folhas atrasados dos funcionários, por exemplo".
Pelé.Net: O torcedor do Santa Cruz é conhecido por ter o perfil popular e, mais do que saber de gestão, clube-empresa ou fundo de investimento, tem a preocupação direta com o futebol. Qual o planejamento para essa área? A idéia do diretor de futebol remunerado continua forte?
Fernando Bezerra Coelho: "Vai ter diretor de futebol remunerado. A gente já fez alguns contatos, mas estamos estudando as melhores opções e vamos definir isso em novembro, quando também será anunciada a comissão técnica. A contratação de jogadores vai depender do orçamento que a gente vai poder destinar para o futebol, mas também começa em novembro. A idéia é fazer uma pré-temporada em dezembro e aí é outro desafio que a gente vai ter pela frente. Temos que encontrar um local para treinar, pois em dezembro já vamos ter iniciado a reforma do gramado do Arruda. Já estamos em contato com a empresa, que ficou de nos mandar o orçamento, e precisaremos de 90 dias para a reforma".
Pelé.Net - A reforma do gramado está diretamente ligada à reforma do estádio para que o Arruda possa sediar um jogo da Seleção Brasileira, pelas Eliminatórias?
Fernando Bezerra Coelho: "A gente está muito animado de que vamos conseguir, através das colaborações, os recursos para as melhorias na iluminação, no gramado e na dependência física. São investimentos pesados, mais de R$ 5 milhões, para deixar o estádio do Arruda em condições de receber a Seleção Brasileira. Vou anunciar na hora certa, mas nós já temos boa parte desses recursos garantidos".
Pelé.Net: Com que sentimento o senhor assume o clube?
Fernando Bezerra Coelho "Estamos muito animados. O clima é de colaboração. Nós já mantivemos vários contatos com empresas muito fortes que querem colaborar de forma expressiva nesse novo projeto para o Santa Cruz".