06h00 02/11/2008 Renato Gaúcho diz que não voltou ao Vasco para "pagar mico"
Técnico revela que reassumiu a equipe totalmente entregue e com o sentimento de que a Série B era inevitável
Luciano Paiva, especial para o Pelé.Net
RIO DE JANEIRO - Assim como a Fênix, personagem da mitologia grega e egípcia que ao morrer entrava em auto-combustão e, tempos depois, renascia das próprias cinzas, o técnico Renato Gaúcho encontrou novamente no Vasco a oportunidade de ressurgir. Recuperado da enxurrada de críticas, rótulos e piadas após perder a final da Libertadores pelo Fluminense, o comandante revela: "Não voltei a São Januário para pagar mico, avisei ao grupo de jogadores que na frente deles não estava parado um manezinho qualquer". Neste domingo, o desafio é no clássico contra o Flu, seu ex-time, às 19h10.
Da mesma maneira como em 2005, o gaúcho mais carioca do futebol brasileiro volta a afirmar que o Vasco não cairá para a Série B, mesmo com um período muito curto para se trabalhar. Além disso, neste bate-papo com a reportagem do UOL Esporte, Renato ainda comenta a relação conturbada com o atacante Dodô nas Laranjeiras, fala sobre seus planos para o futuro, sobre a troca de comando no clube cruzmaltino e sobre o amigo Diego Armando Maradona, agora técnico da Argentina.
Luciano Paiva/UOL Esporte
O técnico Renato Gaúcho deixa bem claro que não está no Vasco para pagar mico
Vipcomm/Divulgação
Em sua segunda passagem pelo Gigante da Colina, Renato tem a sua tarefa mais difícil
Pedro Ponzoni/UOL Esporte
Na época de Fluminense, Renato diz que suas palavras foram muito mal interpretadas
Aos 46 anos, mestre quando o assunto é auto-confiança, aquele que um dia foi padeiro em Guaporé, no Rio Grande do Sul, só não comeu o pão que o Diabo amassou porque jamais desistiu de seus sonhos e acreditou em seu potencial. Dono de uma personalidade forte e marcante, Renato desafiou a ordem natural das coisas e não trocou a sua alma pelo sucesso no futebol. E com a mesma ousadia dos tempos de jogador, agora fora das quatro linhas, o homem que afirma já ter provado para todo mundo que não precisa provar nada para ninguém, diz, na segunda parte desta entrevista, sem pestanejar: "Vou treinar a seleção".
Pelé.Net: O que o levou a aceitar o desafio de tentar salvar o Vasco da Série B? Te motivou a oportunidade de tentar amenizar um pouco tudo o que aconteceu no Fluminense?
Renato Gaúcho: Não tenho de provar nada para ninguém, eu tenho é de fazer o meu trabalho. Tive propostas do Santos, mas nem quis escutar. Eu queria ficar em casa até dezembro. Só que foi um pedido especial do presidente Roberto Dinamite. Mas também quis ajudar esses jogadores. As coisas estão melhorando, porém, o tempo é curto. Cheguei no Vasco e o grupo estava entregue, não tinham forças e, para eles, a Segunda Divisão já era uma realidade. Mas aí entra o lado de quem já foi jogador. Você tem de colocar o cara para correr, trabalhar, jogar, trazê-los para o seu lado. É um esforço tremendo.
Pelé.Net: Você sente que em um momento complicado como este, em relação aos jogadores menos rodados, eles te enxergam como uma referência muito forte?
Renato Gaúcho: A primeira coisa que falei ao chegar no clube foi que na frente deles estava um vencedor, um cara que ganhou 16 títulos como profissional. Se eu não acreditasse em vocês, estaria jogando meu futevôlei. Agora, vocês têm de acreditar em mim. Vocês acreditam em mim? Eles responderam positivamente. Então vamos trabalhar. Não é um manezinho que está parado aqui, e não voltei ao Vasco para pagar mico. Se eu sentir que vou pagar mico, amanhã pego meu boné e vou embora. O meu compromisso com o Dinamite é de boca e vai até o dia 7 de dezembro. Se eu sair, vocês que se virem com outro técnico.
Pelé.Net: Qual situação é mais complicada, a de 2005 ou de agora?
Renato Gaúcho: Depende, tudo é questão de tempo. No início daquele trabalho eu tive de montar um relógio, embaixo d'água e com uma luva de boxe. Tenta lá.
Pelé.Net: Qual vai ser o gosto de livrar o clube do rebaixamento?
Renato Gaúcho: Mais uma vez vai ser um baita trabalho. Aceitei porque escutei muita gente dizer que era o pior time da história do Vasco, que o clube não tem mais salvação. Só que eu vi no rosto de cada um dos jogadores o quanto eles querem sair dessa situação. Vai demonstrar a força de um trabalho e a capacidade do técnico. Neste momento, meu único objetivo é livrar o clube do rebaixamento. É por isso que nem quero pensar em falar sobre renovação ou não. Já me vieram com esse papo, mas não quis escutar.
Pelé.Net: Tem diferença entre o Vasco do Eurico e do Roberto?
Renato Gaúcho: Não tenho bronca alguma do Eurico, mas você tem saber levá-lo, tem de saber trabalhar com ele. Se não souber fica complicado. Assim como gosto do Roberto, que tem boas idéias para o clube. São duas pessoas diferentes e trabalho tranqüilamente com eles. Não tenho nada a reclamar dos dois.
Pelé.Net: No início de sua gestão, a presença do Dinamite foi muito cobrada no clube. A presença do presidente faz mesmo muita falta?
Renato Gaúcho: O exemplo sempre tem de vir de cima. Mas até agora as coisas parecem ter melhorado muito, pois sempre fizeram todos os esforços para me proporcionarem todas as condições de trabalho. O Dinamite é uma pessoa que ainda vai crescer muito nesta função.