18h57 26/11/2008 Com eleições confirmadas, Maurício Assumpção projeta Bota do futuro
Novo presidente assegura salários em dia e o fim do "chororô" em General Severiano
Bruno Rousso e Pedro Ponzoni, especial para o Pelé.Net
RIO DE JANEIRO - Bebeto de Freitas assumiu o Botafogo em 2003. Durante seus dois mandatos, reestruturou o clube, promoveu o retorno à elite do futebol brasileiro e recuperou o orgulho dos torcedores. Mas agora o pouco simpático dirigente é passado. A partir de janeiro de 2009, o Alvinegro iniciará a "Era Maurício Assumpção". Candidato único, o cirurgião dentista (46 anos) e futuro presidente do Glorioso recebeu em seu consultório, em Copacabana, a reportagem do UOL Esporte. De fala firme e com idéias claras, ele assegurou, antes de tudo, a saúde financeira do clube. Ou seja, na próxima temporada, nada de salários atrasados.
Paralelamente a isso, porém, o time será mais modesto - os gastos com o futebol serão reduzidos em 30% -, o que não significa perda de qualidade. Com "pés no chão", visão empresarial e foco permanente nas categorias de base, Assumpção afirma que durante sua gestão "vai acabar essa coisa de o Botafogo ser coitadinho. O Botafogo é grande e é assim que precisa ser tratado", frisa.
Em meio à tentativa de manter os principais jogadores do elenco, a equipe do novo mandatário alvinegro já iniciou projetos que visam tornar o Engenhão uma rica fonte de renda. Lojas, restaurantes e outros atrativos poderão ser implantados no estádio. E por falar na diretoria, está decretado o fim do amadorismo e, conseqüentemente, dos colaboradores. Carlos Augusto Montenegro e Ricardo Rotemberg, homens fortes do futebol durante a gestão de Bebeto e autores de declarações polêmicas, não terão mais voz ativa. "Eles vão tirar férias merecidas", diz Assumpção.
Maurício Assumpção assume o Botafogo e assegura salários em dia no Alvinegro
Botafoguense apaixonado, o futuro presidente pretende deixar o coração de lado. A idéia é ser o mais racional possível e tornar o clube, já gigante em história, gigante também em estrutura. Mas tudo em seu tempo. Com calma, Maurício espera somar ao passado alvinegro um futuro de glórias.
Confusão às vésperas da eleição
Na terça-feira, uma notícia surpreendeu Maurício Assumpção. Marcos Portella, até então seu vice-presidente geral, pediu desligamento da chapa e tentou criar uma oposição, que seria encabeçada por Cláudio Good, também ex-aliado de Assumpção. Porém, o estatuto do clube não permitiu a concretização do plano. Com isso, o futuro presidente anunciou Antônio Carlos Mantuano como seu novo vice.
Até o fim da tarde desta quarta-feira, Marcos Portella, através do Movimento Carlito Rocha (uma corrente política forte dentro do clube), estava tentando anular o pleito. Porém, a junta eleitoral do Botafogo "bateu o martelo" e manteve as eleições para esta quinta, em General Severiano, das 9h às 21h.
UOL - O senhor poderia fazer uma comparação do que está sendo a gestão Bebeto de Freitas e o que pode ser diferente no seu mandato?
Mesmo com os pés no chão, futuro presidente pensa grande para 2009
MA - Assim vocês querem me complicar (risos). Mas falando sério, eu tenho evitado ao máximo falar da gestão Bebeto de Freitas. Ele fez coisas muito importantes para o Botafogo. Quando assumiu, o time estava na segunda divisão e acabou voltando para a elite. Além disso, agora o clube tem um estádio (o Engenhão), que é um dos mais modernos do país. Enfim, ele conseguiu coisas muito positivas.
UOL - Qual será o perfil da sua gestão?
MA - Em primeiro lugar, não será a minha gestão, mas sim de um grupo de botafoguenses. Meu mandato terá um perfil de uma empresa. Vamos tentar gerir e conduzir o clube desta forma. Vários grupos vão se movimentar para trazer negócios que possam reestruturar determinados setores do clube. Vai ser uma gestão empresarial, mas com uma particularidade, nós mexemos com a emoção de uma torcida. Segundo a Fifa, somos um dos 12 maiores clubes do século, ou seja, de nada vai adiantar se o futebol não conquistar títulos.
UOL - Por que o senhor foi escolhido como candidato único?
MA - A história começou com uma reunião do Carlos Augusto Montenegro (atual colaborador da diretoria) no Ibope. Neste encontro estiveram os dois grupos: o Carlito Rocha e o meu, que é presidido por Antônio Mantuano. Nesta reunião, não chegamos a um consenso, mas alguns dias depois se decidiu pela união das chapas. Porém, eu não vou estar sozinho, o financeiro, o marketing e o administrativo vão trabalhar juntos.
UOL - O Montenegro, o Ricardo Rotenberg e o Manoel Renha, que atualmente são colaboradores da diretoria terão algum cargo na sua gestão?
MA - O Montenegro e o Rotenberg vão tirar férias merecidas, pois estão muito desgastados. Já o Renha, vai ser o braço direito de André Silva. Ele não vai ter um cargo oficial. Porém, não podemos abrir mão da sua credibilidade e sua atuação. Somado a isso, o Renha se propôs a ajudar.
UOL - Como será utilizado o Engenhão? Há algum projeto para otimizar a utilização do estádio? E em relação a uma possível parceria com o Flamengo, quando o Maracanã for fechado para reforma, no meio de 2009?
MA - Estamos buscando melhorar a comercialização do Engenhão, vinculando a ações de marketing que deverão ser planejadas e eficazes. Em relação a uma possível parceria com o Flamengo ou qualquer outro clube eu desconheço. Porém, estamos abertos a negócios. O que for rentável poderá ser conversado.
UOL - O novo vice-presidente de futebol, André Silva, disse que orçamento será reduzido em 30%. Isso é garantia de salários em dia?
MA - Colocar salários em dia é uma condição primordial em nosso mandato. Não teremos boas condições de trabalhar direito se os salários não estiverem em dia. Além disso, caso os vencimentos não estiverem sendo pagos como poderemos cobrar rendimento e atitude?
UOL - Quais são seus planos para os esportes olímpicos e as categorias de base?
MA - A base vai ser o grande foco destes três anos. Não podemos imaginar o futuro do Botafogo sem mirar a base. Algumas questões e determinadas atitudes eu vou explicar em janeiro. Porém, posso adiantar uma coisa: essas mudanças passam pela construção de um novo Centro de Treinamento ou pelo menos uma reforma geral do nosso (Marechal Hermes).
UOL - Como será a relação do Botafogo com a CBF e Federação de Futebol do Estado do Rio de Janeiro (Ferj)?
MA - Em relação à Federação, recentemente eu fiz uma visita de cortesia ao presidente Rubens Lopes. Além disso, nosso futuro representante na Ferj, André Barros, foi no arbitral do Campeonato Estadual de 2009 com autorização do Bebeto de Freitas. Quanto à CBF, vou me reunir com o Ricardo Teixeira nos próximos dias. Um dos assuntos será tentar trazer os clássicos regionais com mando do Botafogo para o Engenhão.
UOL - O senhor acredita que o Botafogo não tinha força na Ferj e na CBF e que os erros de arbitragem podem ser influenciados por isso?
MA - Acredito que não foi escolhida a melhor tática. Por outro lado, outros clubes se aproveitaram disso. Quanto à arbitragem, de modo geral ela é muito fraca. Em minha opinião, deveria se investir mais na arbitragem brasileira fazendo seminários e avaliações, por exemplo. Porém, acredito que seria importante profissionalizar o quadro. Acho que o árbitro deveria ser pago somente para isso. Não acho interessante, o cara ser árbitro e bombeiro ou árbitro e professor, por exemplo.
UOL - A gestão do Bebeto foi marcada por reclamar muito, colocar Botafogo como coitadinho. O que você acha que deveria ser feito para mudar esse panorama?
MA - Essa história do chororô demonstra que eles têm grande identificação com o clube, mesmo com pouco tempo. Em 15 dias, o Cuca montou um grupo novo e o trabalho foi fantástico. Disputamos a final do Campeonato Estadual com o Flamengo quando ninguém imaginava. No início do campeonato colocaram o Fluminense como um dos favoritos. Precisamos transformar essa identificação toda como algo positivo. Em pouco tempo, o jogador veste a camisa. Quando um árbitro erra parece que sua mulher está sendo insultada e o filho zoado na escola. Precisamos acabar com essa história de que o Botafogo é sempre perseguido e coitadinho.
UOL - O senhor poderia comentar as possíveis renovações de contrato de alguns jogadores principais, que terão contrato encerrado ao fim do ano, como: Lucio Flavio, André Luis, Túlio, Renato Silva, Diguinho e Jorge Henrique.
MA - O André Silva (vice de futebol) e o Renha têm conversado com eles. Porém, a palavra final é minha. Quanto ao Lucio Flavio, especificamente, tem algumas reuniões agendadas para essa semana. O técnico Ney Franco, inclusive, fez muito elogios a ele.
UOL - Quais são os planos para a próxima temporada? Será um time com um craque pelo menos, ou totalmente pés no chão? Será composto por jogadores jovens e revelações de clubes menores?
MA - Eu não quero deixar a presidência com as receitas comprometidas e uma dívida insustentável. Dentro do possível, vamos tentar viver de forma cíclica. Nosso grupo é composto por 60 jogadores entre juniores e profissionais. Precisamos reduzir o número de atletas. Vamos ter jogadores tarimbados e jovens promissores. Na Série B têm muitos.
UOL - Vocês pretendem trazer algum jogador com status de ídolo?
MA - O ídolo vende e traz torcida. Para o Estadual acho difícil trazer um jogador deste tipo. Mas para o Brasileiro é possível. De qualquer forma, temos jogadores que estão identificados com a torcida como o Lucio Flavio, Túlio e Leandro Guerreiro. Acredito que no Brasileiro, as contas vão estar mais equilibradas.
UOL - O Túlio Maravilha poderia reforçar o Botafogo no Brasileiro?
MA - Eu como botafoguense tenho uma eterna gratidão pelo Túlio. Ele comandou o time que foi campeão brasileiro de 1995. Porém, não sei qual é a realidade dele neste momento. Além disso, ele é vereador em Goiânia. Acredito que seria um projeto legal se ele viesse para marcar o milésimo gol dele pelo Botafogo.