07h00 14/03/2009

Uma década após aposentadoria, Renato Gaúcho ainda sente falta do futebol

Agora fora das quatro linhas, o técnico destaca que soube parar no momento certo: "O mais importante foi que tive consciência e não paguei mico", afirma

Luciano Paiva, especial para o Pele.Net

RIO DE JANEIRO - A saudade é a maior prova de que o passado valeu a pena. Dez anos depois de ter encerrado a sua carreira como jogador profissional, não há pensamento que reflita com precisão cirúrgica o sentimento que se apossou do coração mole de Renato Gaúcho. O amor pelo futebol, ocupação a qual se dedicou durante 20 anos, ainda grita silenciosamente em seu peito quando ele, agora técnico, assiste às partidas sem poder entrar em campo: "Eu te digo que chego até a sonhar com determinadas situações. A falta que sinto de jogar profissionalmente é muito grande", conta Renato, o filho mais bem sucedido, entre os 14 irmãos, da família Portaluppi.

Arquivo
Renato Gaúcho, ainda jovem, comemora o título do Mundial Interclubes pelo Grêmio
Reprodução
No Flamengo, o jogador conquistou o ainda discutido Campeonato Brasileiro de 1987
Reprodução
Com Gaúcho, do Flamengo, na decisão do Brasileiro de 1992. Foto causou problema
http://e.i.uol.com.br/futebol/renatogaucho208.jpg
No Fluminense, em 1995, Renato Gaúcho comemora o Estadual do Rio de Janeiro
Arquivo/UOL Esporte
Ainda no Flu, mas como técnico, foi vice da Libertadores e campeão da Copa do Brasil
Luciano Paiva/UOL Esporte
Num momento de descontração, Renato Gaúcho fala sobre a sua vida no futebol
Vipcomm/Divulgação
Na sua última passagem como treinador do Vasco, não livrou o time do rebaixamento
PERFIL DE RENATO GAÚCHO
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Fora do mercado desde o rebaixamento do Vasco para a Segunda Divisão do Campeonato Brasileiro de 2009, Renato também falou sobre o Grêmio e sobre o desempenho de Ronaldo com a camisa do Corinthians.

No décimo aniversário de sua aposentadoria, o gaúcho de Guaporé, atualmente com 46 anos, relembrou, à reportagem do UOL Esporte, os momentos que antecederam aquele 14 de março de 1999. Renato Gaúcho, que conquistou 16 importantes títulos e escreveu o seu nome na história do futebol brasileiro, deu adeus aos gramados defendendo a camisa Bangu na derrota para o Flamengo por 2 a 0, no Estádio Moça Bonita, pelo Campeonato Estadual do Rio de Janeiro.

"Em 1998, eu estava no Flamengo. Estava praticamente encerrada a minha carreira naquele momento, mas no ano seguinte recebi um convite do Bangu. Mas mesmo assim era difícil continuar por causa de uma operação que fiz no joelho. Fiquei parado um período de seis ou sete meses. Só que eu não tinha mais saco para jogar, não suportava mais concentração e as viagens. Resolvi que era o momento certo, pois eu já estava com a ideia bem amadurecida. Essa saudade é também em cima do que construí, de tudo o que conquistei, pois o futebol me possibilitou dar conforto e tranquilidade aos meus familiares", contou Renato, que hoje em dia sente falta da rotina cansativa de outrora.

"Deixei de fazer o que mais amava na vida. É claro que aquilo tudo me faz falta hoje em dia, a saudade é natural. Te digo que até sonho com determinadas situações de jogo. Além disso, atualmente é muito mais fácil do que na minha época, pois a quantidade de craques por equipes era enorme. Você conseguia ver quatro, cinco ou seis grandes jogadores em cada time", analisou.

A rotina do ex-boleiro mudou, porém, não muito. Renato, que não abre mão do banho de mar e do bate-papo com os amigos em Ipanema, Zona Sul do Rio de Janeiro, ainda é uma das celebridades mais reconhecidas e solicitadas pelos amantes do futebol. No entanto, ele reconhece que é complicado deixar no passado a vida de astro popular.

"Tem lá suas vantagens. Pude passar mais tempo com a minha filha, a Carol, que na época em que parei tinha quatro anos. Mas o cara tem de saber a hora certa para parar. É melhor ter consciência do que pagar mico", disse, ao ser questionado se não deveria ter encerrado a carreira quando foi campeão estadual pelo Fluminense, aos 32 anos, em 1995.

"Muita gente se perde no álcool e nas drogas quando não se prepara psicologicamente para este momento. É mil vezes pior. No meu caso, eu estava retornando de um problema no joelho, mas chega uma hora que não tem jeito mesmo. É ponto final", completou.

O outro lado:

Na mesma intensidade em que é reconhecidamente um dos personagens mais vitoriosos e talentosos do futebol brasileiro, Renato Gaúcho também é dono de uma coletânea de polêmicas e de uma personalidade ímpar. Agora na função de técnico, ele já até aprendeu a conviver com as piadinhas dos comandados.

"Os jogadores até brincam comigo, dizem que eu quando era jogador aprontava muito. Mas eu não faço proibição alguma, muito pelo contrário. A única coisa que digo é que dentro de campo eles têm de corresponder, assim como eu fazia. Não fui santo. Quem nunca errou na vida? Só que quando eu errava, no dia seguinte treinava igual a um cavalo e era o último a deixar o campo. Eu preferia receber ordem, pois você podia se garantir perante ao grupo. Como técnico você tem de se fazer entender e mostrar que tem um comandante ali. É bem mais cansativo", observou.

Sem pressa para voltar ao batente, Renato Gaúcho comentou os rumores de que poderia dirigir o Grêmio. Embora não esconda o amor pelo clube mais importante da sua vida, ele prefere não se aprofundar neste assunto, principalmente pelo respeito ao companheiro Celso Roth.

"Ali é complicado. É como se o Zico, o maior ídolo da história do Flamengo, também fosse técnico do clube. Eu tenho uma imagem com a torcida do Grêmio e não sei como ficaria essa relação quando os resultados não aparecessem. Mas estou na minha, daqui a pouco as portas estarão abertas de novo", apostou o técnico, que encerrou a entrevista desejando ainda mais sorte ao atacante Ronaldo Fenômeno.

"Torço muito para que ele se recupere plenamente, mas não vai voltar a ser o jogador de antes. É um craque, sabe fazer gols e ele tem de se preocupar em ficar bem consigo mesmo. Sobre seleção está muito longe, ele mesmo reconhece isso. O problema é que aqui no Brasil, depois que você faz um gol, vira um Deus", encerrou Renato Gaúcho.




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