09h03 12/07/2007

Silas não quis assumir o Paraná por lealdade a Zetti

Ex-meia do São Paulo e Seleção Brasileira nos anos 80 e 90 ainda não se considera preparado para trocar parceria por carreira solo.

Luiza Oliveira, do Pelé.Net

BELO HORIZONTE - O ex-meia Silas, de 41 anos, que há apenas quatro se aposentou como jogador de futebol, considera a atual atividade de assistente como uma fase de transição, com duração ainda indefinida, mas que vai dar o embasamento para se tornar um técnico vitorioso. Ele ainda não se considera preparado para o desafio e, por isso, conta que recusou convite do Paraná, para assumir o lugar de Zetti, quando o ex-goleiro acertou com o Atlético-MG.

FICHA DE SILAS
FI/Arquivo
Silas, em 1990, pela seleção
Paulo Silas do Prado Pereira
Data: 27/08/1965
Local: Campinas, SP
Carreira como jogador:
São Paulo (85-89), Sporting Lisboa (89-90), Central Español do Uruguai (90), Cesena, da Itália, (90-91), Sampdoria, da Itália, (91-92), Internacional-RS (92-93), Vasco (94-95), San Lorenzo, da Argentina (95-97), São Paulo (97-98), Kyoto Purple Sanga, do Japão (98-99), Atlético-PR (2000), Rio Branco-SP (2001), América-MG (2001-2002), Portuguesa-SP (2002), Internacional Limeira-SP (2003)
Como assistente-técnico:
Paraná Clube e Atlético-MG
LEIA MAIS NOTÍCIAS DO GALO
Pesou também nessa decisão, segundo Silas, a lealdade para com Zetti. "Quando o Paraná fez o convite para eu ficar, os diretores me chamaram, todos os jogadores queriam e eu neguei o convite. Além de eu não estar pronto, o Zetti não foi para o Fortaleza porque eu não quis ir. Eu falei que se fosse meu casamento ficaria balançado e não é o que eu quero. Depois disso seria desleal eu ficar no Paraná e deixar o Zetti ir sozinho para o Atlético", contou o ex-craque do São Paulo, em entrevista ao Pelé.Net.

A lealdade é recíproca. Prova disso, é que para trabalhar no Atlético, Zetti exigiu da diretoria do clube mineiro a contratação de Silas, o que gerou a demissão de Tico, ex-auxiliar de Levir Culpi, que estava comandando a equipe interinamente e que não escondia o desejo de continuar em seu cargo. Silas garante que não sentiu nenhum tipo de restrição à sua presença por parte do grupo de atletas e se diz plenamente adaptado ao Galo.

O entrosamento entre Zetti e Silas, que no início de sua carreira ficou conhecido como um dos "Menudos do São Paulo", numa referência a um grupo musical de sucesso à época, vai além do trabalho nos treinos e jogos. Há uma amizade entre eles e uma relação de confiança. Não é exagero dizer que o ex-meia, que disputou duas edições de Copa do Mundo, está para o atual treinador do Atlético, como Jorginho para Dunga na atual comissão técnica da Seleção Brasileira.

Contemporâneos como atletas, quando os três defenderam o Brasil no final da década de 80 e início dos anos 90, Silas, Jorginho e Dunga são amigos e se identificam nos métodos de trabalho. Para Silas, essa proximidade pode até ajudar os jogadores atleticanos a atingirem a meta de vestir a camisa da seleção canarinha, já que existem conversas sobre jogadores do elenco atleticano. "Não que a gente seja a chave para a convocação porque depende deles mesmo, mas uma palavra nossa ajuda", comentou.

Apesar dessa proximidade, Silas vê diferenças gritantes entre a atual equipe comandada por Dunga e o time que disputou a Copa de 86, sob a batuta Telê Santana, da qual ele participava. Para o ex-meia, a Seleção Brasileira está perdendo a identificação com o torcedor brasileiro. "Hoje, eu vejo que está muito fácil ser convocado e isso não é bom porque o torcedor não sabe quem é a Seleção. De repente tem lá um Naldo e quando aparece a imagem dele, ninguém sabe quem é", exemplificou.

Atleta de Cristo, o auxiliar de Zetti se apega à relação com Deus para guiar a sua vida dentro e fora do futebol e focar no seu objetivo de ser técnico. E é com essa fé e com a intenção de ajudar as pessoas que ele também participa de projetos sociais. Assim, ele já fez parte do I Gol, que ajuda a formar jovens atletas, e hoje dedica parte de seu tempo ao Game is Oover para amparar e auxiliar jogadores que passam por um momento difícil de transição logo após o fim de carreira. Experiência, por sinal, ainda vivida por ele.

Pelé.Net - Você se sente preparado para ser técnico?
Silas
- O caminho para ser técnico é esse, mas preciso conviver um pouco mais com os problemas do dia-dia e as situações que um treinador vive, primeiro como auxiliar para então depois naturalmente acontecer o salto. Eu acho que seria bom ter mais experiência até porque não tenho motivo para fazer diferente, mas, às vezes, a necessidade obriga você a antecipar as coisas. Aí você tem que pesar que clube é, se for de segunda divisão não tem problema assumir com cinco meses como auxiliar. Em um clube grande, se houver um consenso entre comissão, diretoria e jogadores também não vejo porque não assumir essa posição. O Dunga nunca tinha dirigido um clube e foi direto para a Seleção Brasileira. Eu acho que ele tem esse perfil, mas para qualquer outro acho que já seria difícil. Não tenho pressa, sinto que a qualquer momento pode acontecer.

Pelé.Net - Você já recebeu proposta de algum time?
Silas
- Quando saímos do Paraná, a diretoria me convidou para ficar, mas eu não aceitei até porque meu tempo com o Zetti ainda não terminou. Fui sondado pelo América-MG antes de vir para cá, então, já aconteceram alguns convites sim. Mas não era o momento. Estou satisfeito como auxiliar e sei que preciso ainda de um período de preparação para assumir um grupo. Quando o Paraná fez o convite para eu ficar, os diretores me chamaram, todos os jogadores queriam e eu neguei o convite. Além de não estar pronto, o Zetti não foi para o Fortaleza porque eu não quis ir. Eu falei que se fosse meu casamento ficaria balançado e não é o que eu quero. Depois disso seria desleal eu ficar no Paraná e deixar o Zetti ir sozinho para o Atlético. Além disso, estar no Atlético representa um grande salto e é um cartão de visita forte para depois assumir um trabalho.

Pelé.Net - Assim como Zetti, Telê Santana é uma referência para você como técnico ou existem outros?
Silas
- O Telê é uma unanimidade pelo que conquistou, pela forma que trabalhava, pela seriedade e pela simplicidade. Não era um treinador cheio de invenções, ele gostava que fizesse o simples bem feito. Depois, no meu caso, tem o Cilinho, com quem trabalhei no São Paulo, um grande treinador também, um estrategista, um cara que conhecia muito de futebol e também do comportamento do jogador. Trabalhei fora do Brasil com o Parreira (Carlos Alberto) na Seleção antes da Copa de 94, com o Lazaroni (Sebastião) na Copa de 90 e com o Telê na Copa de 86. Trabalhei com o Ênio Andrade no Inter de Porto Alegre e com Antônio Lopes no Atlético-PR. Todos foram treinadores que me ensinaram e me ajudaram muito.

Pelé.Net - Ainda como jogador você já desenvolvia trabalhos para formar jovens atletas, quando criou a I Gol junto com seus irmãos e alguns ex-jogadores. Isso deu a você experiência para ser técnico?
Silas
- A I Gol é uma empresa que eu fundei com meus irmãos, mas já não faço mais parte, porque além de formar jogadores ela também empresaria atletas, então quando comecei a trabalhar como auxiliar técnico eu saí. A gente tinha um clube lá, o Primavera de Indaiatuba, que disputa a Série C e tem categorias de base e havia um trabalho com esse clube com a idéia de formar jogadores. Esse projeto me ajudou bastante porque cerca de 60%, ou até mais, dos jogadores que estão no Atlético hoje não têm mais que 22 anos. Então é uma garotada bem nova, que está aprendendo e tem muito a absorver, assim como a gente tem muito a passar. Ainda há uma vantagem pelo fato de ter parado agora, posso mostrar isso dentro do campo, com vitalidade, é diferente de estar ali só falando e não conseguir mostrar na prática.

Pelé.Net - Você sentiu algum tipo de resistência dos jogadores por Ter chegado para o lugar de Tico, o antigo auxiliar técnico?
Silas
- Não senti resistência porque quem foi jogador conhece o comportamento e a mente dos atletas. E a principal questão é eles saberem quem você é. Após uma, duas ou três semanas, eles já fazem um filme, já vêem o tipo de pessoa que você é, percebem o 'olho no olho' e eu tenho uma filosofia de trabalho com o Zetti e com o professor Fernando (Moreno, preparador físico) que é igual, sem diferenciação, com todos os atletas. Não existe aquela história que o time titular treina mais ou de um jeito diferente. Todo mundo trabalha igual e isso aproxima muito o atleta. E está sendo muito bom esse relacionamento.

Pelé.Net - Como vê o atual trabalho desenvolvido na Seleção Brasileira?
Silas
- Acho que só está sendo prejudicado pelas ausências do Ronaldinho Gaúcho, do Kaká, do Zé Roberto e até do Dida. Isso vem influenciando de uma forma bem direta porque era a base da Copa do Mundo e o remanescente para essa Copa América. A presença deles daria muita força. Eu acho que foi uma atitude parcialmente incorreta do Kaká, do Zé Roberto e do Ronaldinho. Não era o momento, na idade em que eles estão, de pedir dispensa da Seleção Brasileira porque eu joguei na seleção entre amadora e profissional quase dez anos e jogaria 20 se pudesse. Passa muito rápido. É um tempo muito gostoso e é onde todo jogador quer estar. Agora o Dunga está tendo que testar jogadores na Copa América numa Seleção em que a exigência, a cobrança e a pressão de fora são muito grandes.

Pelé.Net - Como é sua relação com o Dunga e o Jorginho?
Silas
- Jogamos muito tempo na Seleção. Com o Jorge a minha relação é quase de irmão porque ele é presidente dos Atletas de Cristo e eu sou vice-presidente. Quando o Dunga o convidou para trabalhar na Seleção ele estava passando férias lá em casa. Foi um momento de celebração muito grande porque tinha muita gente na fila, inclusive o Zetti era um dos cotados para ser auxiliar, Ricardo Rocha também e tantos outros ex-atletas. Ficamos muito felizes quando o Dunga o escolheu e é bom porque qualquer notícia do Atlético que precisa ele liga para a gente: 'Me fala de fulano para a seleção de base, me fala de fulano para a seleção principal'. Falamos dos atletas, como eles são e eles confiam mesmo e amanhã ou depois pode acontecer. Não que a gente seja a chave para a convocação porque depende deles mesmo, mas uma palavra nossa ajuda.

Pelé.Net - Você gostaria, por exemplo, de trabalhar na atual comissão técnica da seleção? Vê essa possibilidade?
Silas
- Ir para a comissão técnica da Seleção é como a convocação para o jogador. Depende de muita coisa, é algo apenas para alguns. Você tem viver um bom momento e de repente acontece, mas tem que estar preparado. Então, é preciso estar sempre atualizado, se preparando, trabalhando em um nível de exigência alto para não ser pego de surpresa e eu estou trabalhando para isso, mas com muita calma e naturalidade. Eu vejo como uma possibilidade até porque eu tenho um passado na Seleção, sei como funciona e se for chamado vou chegar em um lugar onde já estive, em que já fui campeão e que tenho um respeito das pessoas. E a Seleção deve ser o alvo de todo trabalhador na nossa área que esteja num grande clube como o Atlético, o São Paulo ou o Inter.

Pelé.Net - Há semelhanças entre os treinos conduzidos por Dunga e Jorginho na Seleção e por vocês no Atlético?
Silas
- A gente conversa muito, inclusive o Jorge falou que o tipo de treinamento que estamos fazendo é legal e iria adotar lá. Ele me passou os treinos que eles fazem também, então a gente acaba se comunicando, não que vire um padrão, mas difere pouca coisa. Algumas coisas mudam mais até porque o Dunga era um volante e o Jorginho um lateral, o Zetti era um goleiro e eu um meio-campo. Então você tem uma visão de acordo com o posicionamento que você sempre teve. Para mim é muito mais fácil trabalhar meio-campo e ataque e para o Zetti é muito mais fácil trabalhar defesa e goleiro porque era a área dele. Não que aqui a gente tenha isso como prioridade, a gente trabalha no geral, mas é mais fácil eu dar um conselho para o Tchô e para o Marcinho pelo que eu já vivi.

Pelé.Net -Na Seleção, como jogador, você foi de uma geração que veio após a de Zico, Sócrates, Falcão e Cerezo. Como é atuar numa seleção que faz essa transição, o que está acontecendo no momento?
Silas
-Eu vejo um período muito bom quando a transição vem de vitória. Em 1986 eu ainda peguei o Zico, o Falcão, o Sócrates, o Oscar, o Júnior que era a última Copa deles. Mas a gente não vinha de uma época vitoriosa, não fomos campeões em 82, com um dos melhores times que já tivemos, e acabamos não sendo campeões em 86. Então em 90 sofremos muito, mas em 94 a experiência já valeu a pena porque fomos campeões do mundo. Então eu vejo que se a transição vem de ex-atletas com vitória é mais tranqüilo para se trabalhar. Esse time de agora perdeu a Copa, mas os jogadores foram muito vitoriosos nos seus clubes e num nível em que há grande reconhecimento aqui e no mundo todo que é Champions League, Uefa, Copa do Rei.

Pelé.Net - Certa vez você disse que antigamente o jogador precisava ser titular absoluto ou campeão para ir para a Seleção e que hoje alguns são convocados depois de dois ou três jogos. Observa isso na atual Seleção?
Silas
Hoje eu vejo que está muito fácil ser convocado e isso não é bom porque o torcedor não sabe quem é a Seleção. De repente tem lá um Naldo e quando aparece a imagem dele, ninguém sabe quem é. Antigamente você falava em Seleção e todo mundo sabia de trás para frente quem eram os jogadores. Eu acho que está perdendo identificação, porque você joga na Europa e as ligas têm mais glamour e se ganha muito mais dinheiro do que numa Copa do Mundo. Então eles vão para uma Copa do Mundo, perdem e é como se tivessem perdido um torneio europeu e não é. O agravante é que na nossa época um zagueiro, por exemplo, era muito difícil ir para a Europa e só ia se já tivesse jogado na Seleção Brasileira. Então, o jogador ia para fora com uma moral bem elevada. Hoje ele vai para lá e o treinador o coloca no banco como aconteceu com o Elano e com o Wagner Love, que estão na Rússia que nem é uma Itália. O caso do Kaká é uma rara exceção, chegou na Itália, jogou, já se tornou ídolo e foi campeão.

Pelé.Net - Você tem um trabalho com jogadores que estão se aposentando. Como é esse trabalho e esse período de transição que você mesmo está passando por ele?
Silas
- Sou afortunado. Eu parei tem quatro anos, mas já fui para a Seleção de Masters e logo joguei na Europa com o estádio cheio, depois teve o show ball, que tem aquele espaço reduzido, mas sempre lotado. Então para mim a transição foi menos dolorosa até porque hoje eu faço o que eu gosto, eu entro no rachão com os jogadores e trabalho com isso. Nós trabalhamos no Game is Over os dez maiores desafios da transição, os principais são o desafio da família, financeiro e físico. Quando o cara pára de jogar ele começa a engordar e isso o deixa frustrado, ele também se sente mal porque ninguém mais o conhece, nem pede autógrafo, então ele começa a arrumar coisas para fazer, faz bobagem e o casamento e o dinheiro acabam. O que ele levou 20 anos para construir em dois anos já acabou. O trabalho é feito com apostilas dizendo desafio por desafio o que ele deve fazer. Esse projeto começou há uns dez anos nos Estados Unidos e no Brasil é um braço do Atletas de Cristo e tem várias pessoas envolvidas no trabalho como o Jorginho, o Taffarel, o César Sampaio, o Dunga também recebeu a apostila.




Computando seu voto...
Carregando resultado

Total de votos:

© Copyright Zipsports Ltda. Todos os direitos reservados

Shopping UOL