Dono da maior torcida do Brasil, o Flamengo é sinônimo de paixão no maior cartão-postal do país, o Rio de Janeiro. Mas é impossível não encontrar um flamenguista mesmo nos mais longínquos cantos do Brasil. O clube reúne uma torcida apaixonada e fanática que, como diz o seu popular hino, será "Flamengo até morrer".
O Flamengo sempre foi uma referência para o futebol brasileiro, com craques como Leônidas da Silva ou Zizinho. Mas só na década de 70 o rubro-negro conheceria o maior ídolo de sua história: Zico. Com ele, o Flamengo conseguiu todos os títulos possíveis para um clube de futebol. Campeão carioca, brasileiro, sul-americano e mundial, o rubro-negro de Adílio, Leandro, Júnior e Zico dava um banho de técnica sempre que entrava em campo.
Após Zico, outros astros vieram, como Bebeto, Sávio e Romário. Mas as conquistas deixaram de ser tão freqüentes. Pelo menos uma coisa nunca mudou: a paixão do torcedor rubro-negro pelo seu clube. Afinal, uma vez Flamengo, sempre Flamengo.
O remo, ou "rowling", era o esporte da moda no fim do século XIX no Rio de Janeiro. Aqui e ali surgem clubes para a sua prática. Numa manhã de sol tipicamente carioca, sete jovens, liderados pelo guarda-livros Nestor de Barros, se reúnem na praia do Flamengo dispostos a fundar um "grêmio" que possa representar o bairro nas competições. O primeiro passo foi comprar uma "baleeira", a Pherusa. No domingo, 6 de outubro de 1895, a embarcação ganha as águas da Baía de Guanabara. O passeio não foi lá muito bem-sucedido: a tempestade que chegou no fim da tarde fez a Pherusa naufragar, e os sete jovens salvaram-se quase que por milagre. Nada, entretanto, seria capaz de fazê-los desistir do seu objetivo.
O naufrágio da Pherusa foi registrado na edição de 9 de outubro do "Jornal do Commercio". Além de Nestor, integravam o grupo Felisberto Laport, Joaquim Leovegildo dos Santos Bahia, José Agostinho Pereira, José Félix da Cunha, Maurício Rodrigues Pereira e Mário Spíndola. Foram todos resgatados pela lancha Leal, que voltava das comemorações da tradicional Festa da Penha. A Pherusa também retornou ao Cais Pharoux, rebocada. Mas sem ter quem que pudesse vigiá-la acabou sendo roubada. Logo seria necessário uma outra "vaquinha" para a compra de uma nova embarcação.
Quarenta dias após o naufrágio, Nestor de Barros convocou nova reunião,
"aberta a todos os interessados". A idéia de fundar um "gêmio" amadurecera,
e o encontro foi dos mais animados. No dia 17 de novembro de 1895, 14 rapazes
compareceram ao casarão do número 22 da praia do Flamengo, onde o incansável
guarda-livros alugava um cômodo. Após duas horas de debates, eles assinaram
a ata de fundação do
"Grupo de Regatas do Flamengo". O guarda-marinha Domingos Marques de
Azevedo, que chegara a atrasado à reunião e que fora ao 22 movido apenas
por uma confessa "curiosidade", impressionou pela articulação. Assim, acabou
sendo eleito o primeiro presidente do clube.
De acordo com a memória histórica organizada na década de 20 pelo ex-presidente
Álvaro Zamith, assinaram a ata de fundação, além de Domingos e de Nestor,
Desidério Guimarães, Eduardo Sardinha, Felisberto Laport, Francisco Lucci
Goiás, Georges Lauzinger, José Agostinho Pereira da Cunha, José Félix da
Cunha Menezes, José Maria Leitão da Cunha, Mário Spíndola, Maurício Rodrigues
Pereira, Napoleão Coelho de Oliveira e Nestor Carlos Sardinha. Por sugestão
de Spíndola, as cores escolhidas para o clube foram o
azul, "da Baía de Guanabara" e o ouro "das nossas riquezas". Definiu-se
também que a fundação seria sempre comemorada no dia 15 de novembro, data
da Proclamação da República.
Na primeira regata oficialmente disputada, em 7 de dezembro de 1895, o Flamengo chega em último lugar, atrás do Gragoatá e do Botafogo. Durante algum tempo, aliás, o clube amarga posições secundárias. Coincidência ou não, o fato é que as primeiras vitórias só começam a surgir após a assembléia de 23 de novembro de 1896, quando a diretoria troca as cores dos uniformes para vermelho e preto, por sugestão de Nestor de Barros, e decide batizar os barcos com nomes indígenas. Na "Regata Comemorativa do IV Centenário da Descoberta do Brasil", em 6 de maio de 1900, o Flamengo ganha todas as medalhas de ouro. E passa a ser definitivamente respeitado.
Em 1902, aprova-se a proposta do poeta Mário Pederneiras, um entusiasta das regatas, de trocar o "Grupo" pelo "Club" no nome oficial. Mas apesar das vitórias alcançadas na primeira década do século, a sede rubro-negra continuava a ser na garagem do casarão do número 22. E os próprios sócios eram obrigados a cuidar da conservação dos barcos. Curiosamente, uma cisão em um outro clube, de futebol, transformaria a vida do Flamengo, tornando-o um dos mais populares do Brasil.
Tudo começa no dia 21 de setembro de 1911, na Pensão Almeida, no bairro do Catete, onde reúnem-se jogadores do aristocrático Fluminense. Eles estão insatisfeitos com o "ground committee" do time, que barrara o centroavanate Alberto Borgerth, escalando em seu lugar o zagueiro Ernesto Paranhos. Decide-se pela debandada geral. Consciente de sua importância, o grupo ainda cumpre a promessa de derrotar o América (2 x 0) e conquistar o título carioca pelo tricolor. Mas no dia seguinte todo mundo anuncia o seu desligamento. O próximo passo é encontrar um clube que ainda não pratique o futebol e que possa aceitá-los.
Na noite de 8 de novembro de 1911, a proposta é apresentada ao Flamengo, por iniciativa de Alberto Borgerth. O pessoal do remo, que considerava o futebol um esporte "de pulinhos de bailarina", mostra-se contrário. Os debates prosseguem até o dia 24 de dezembro. Nessa data, nova assembléia, orientada pelo recém-empossado presidente rubro-negro, Edmundo Azurém Furtado, aprova enfim a criação de um "Departamento de Desportos Terrestres". Transferem-se para o clube, além de Borgerth, os ex-tricolores Armando de Almeida, o "Galo", Emmanuel Nery, Ernesto Amarante, Gustavo de Carvalho, Lawrence Andrews, Orlando Sampaio Mattos, o "Baiano", Othon Baena de Figueiredo e Píndaro de Carvalho Rodrigues.
1912 - 1919 Papagaio-de-vintém, cobra-coral e o bicampeonato
No dia 9 de janeiro de 1912, o Flamengo ingressa na Liga Metropolitana de Sports Athléticos (LMSA), a entidade que dirige o futebol carioca. Na primeira partida disputada pelo clube, em 3 de maio, válida pelo Campeonato Carioca, o rubro-negro derrotou o Sport Club Mangueira por 16 x 2. Gustavo de Carvalho fez o primeiro gol e mais outros quatro. Arnaldo (4), Amarante (4), Borgerth (2) e Galo completaram. Levi e Otávio marcaram para o adversário. O jogo foi realizado no campo do América, na Tijuca, e o time jogou com Baena, Píndaro e Nery; Lawrence, Gilbert e Galo; Baiano, Arnaldo, Amarante, Gustavo e Borgerth.
Naquele primeiro campeonato, o Flamengo foi apenas vice, atrás do Paysandu. E perdeu o primeiro duelo com o Fluminense, no dia 7 de julho, no estádio das Laranjeiras. O tricolor, com jogadores que foram reservas dos titulares rubro-negros, venceu por 3 x 2. Em 1913, o clube voltou a ficar em segundo lugar. Os dois vices reforçaram a tese de que o primeiro uniforme do futebol, de camisas e meias de grandes quadrados vermelhos e pretos, e de calções brancos, não trazia sorte.
O pessoal do remo, a princípio, não permitiu que o futebol utilizasse a sua roupagem. Mas na realidade todos concordaram que o traje original, importado da Inglaterra pelo tesoureiro Hugh Pullen, era de um mau gosto exemplar. O carioca, sempre bem-humorado, logo apelidou-o de "papagaio-de-vintém". Assim, em 1914 o Flamengo trocou o uniforme: adotou uma camisa de listras vermelhas e pretas horizontais, intercaladas por riscas brancas de menor espessura. Só a cor dos calções permaneceu. As meias passaram a ser negras.
Chamado de "cobra-coral", o novo uniforme espantou o azar. Em 1914 e 1915, o rubro-negro foi bicampeão carioca, perdendo apenas uma das 24 partidas disputadas, por 2 x 1 para o Botafogo, no primeiro campeonato. Os destaques do time eram os zagueiros Píndaro e Nery, heróis da primeira Copa Roca ganha pela Seleção Brasileira contra a Argentina, em 1914, e o centro-médio Sidney Pullen, um inglês que se adaptou com perfeição ao futebol brasileiro.
Apesar de já possuir um quadro representativo de quase 500 associados, o
Flamengo só conseguiu inaugurar seu estádio em 31 de outubro de 1915, na
vitória de 5 x 1 sobre o Bangu. Foi construído em um terreno localizado
na Rua Paysandu,
vizinho ao Fluminense, e pertencia à tradicional família Guinle. O clube
arrendou-o por 500 mil réis mensais. Mas o estádio não trouxe os resultados
esperados em seus primeiros anos de vida. Em 1916, o Flamengo ficou em quarto
lugar; em 1917, em terceiro; em 1918, novamente em quarto e em 1919 foi
vice.
1920 - 1932 Quatro títulos e os primeiros ecos do profissionalismo
O novo uniforme foi definitivamente aprovado na assembléia de 23 de dezembro
de 1920. Quatro
dias antes disso, entretanto, o Flamengo conquistou um novo Campeonato Carioca.
Foi o terceiro da história do clube _ o segundo invicto _, no qual destacavam-se
o "keeper" Julio Kuntz, o "back" Telefone, os "halfs" Rodrigo e Sisson e
o "center-forward" Junqueira. Em 1921, com praticamente o mesmo time do
ano anterior, o clube chegou ao bi, após decisão dramática contra o América,
em jogo-extra. O América fez 1 x 0, com Chico. Nonô empatou. E Candiota
marcou o gol da vitória, aos sete minutos da prorrogação. O Flamengo jogou
com Kuntz, Burgos e Telefone; Rodrigo, Sidney Pullen e Dino; Galvão, Candiota,
Nonô, Junqueira e Orlando.
Entre 1922 e 1932, o Flamengo conquistou mais dois campeonatos. Em 1925,
o time, com sete craques de Seleção Brasileira _ Batalha, Hélcio, Penaforte,
Japonês, Candiota, Nonô e Moderato _ marcou 61 gols em 18 partidas, média
de 3,3 gols por jogo. A equipe sofreu apenas uma derrota, de 3 x 1 para
o Fluminense. Em 1927, o rubro-negro ganhou um dos campeonatos mais importantes
de sua história. Razões de ordem política levaram a Associação Metropolitana
de Esportes Athléticos, que dirigia o futebol do Rio, a suspender o clube.
Pressões acabaram derrubando a decisão da AMEA, mas quando o Carioca começou
o Flamengo praticamente não tinha time. Juntaram-se cacos daqui e dali,
e a mística da
camisa rubro-negra acabou prevalecendo.
Nos campeonatos realizados entre 1928 e 1932, o
Flamengo não foi muito bem. Chegou a ficar em 10º e penúltimo lugar
em 1929. Ecos do profissionalismo, cuja implantação parecia inevitável,
e que o clube se recusava a aceitar. A situação só melhorou quando José
Bastos Padilha assumiu a presidência do clube, substituindo Pascoal
Segreto Sobrinho, em meados de 1933. Padilha não tardou a pôr o Flamengo
na Era da Modernidade: fez o clube enfim optar pelo regime remunerado, adotado
naquele ano, reformulou conceitos administrativos, escancarou as portas
do rubro-negro aos jogadores negros e tratou de iniciar a construção de
uma nova sede e de um novo estádio.
Em 1932, o Flamengo foi obrigado a devolver o terreno da Rua Paysandu à família Guinle. Graças à manobra política perpetrada junto à Prefeitura do então Distrito Federal, Padilha concluiu os entendimentos para a cessão de uma área de 72 mil metros quadrados às margens da Lagoa Rodrigo de Freitas, em plena Zona Sul, onde construiu o Estádio da Gávea. As participações da equipe no Carioca não foram muito felizes. Mas as contratações de supercraques como Domingos da Guia, Fausto dos Santos, Valdemar de Brito e Leônidas da Silva, o "Diamante Negro" começaram a arrastar multidões aos jogos do Flamengo, tornando-o um time de massa.
1933 - 1941 À sombra do primeiro tri
Em 1934, Padilha lançou o ex-centro-médio Flávio
Costa na direção técnica do time. Pela primeira vez, o Flamengo tinha
um treinador de verdade. Flávio começou a formar a base que logo renderia
dividendos inestimáveis. Ele deixou o clube dois anos mais tarde, brigado
com Padilha, que na ânsia de fazer do rubro-negro "o maior time do mundo"
trouxera da Europa o treinador húngaro Dori Krueschner. Krueschner desembarcou
no Rio em 16 de março de 1937 e não tardou a introduzir esquemas táticos
desconhecidos para o futebol brasileiro, como o WM _ criado na Inglaterra
nos anos 20, e formado por três zagueiros, dois médios de apoio e dois de
ligação e três atacantes _ e implantou modernos métodos de trabalho.
Krueschner caiu em 4 de setembro de 1938. A derrota por 2 x 0 para o Vasco, na inauguração oficial do Estádio da Gávea, foi apenas a gota d'água, pois o homem não falava português, e seu relacionamento com os jogadores tornara-se embaraçoso. Mas Flávio, de volta ao Flamengo, aproveita seu legado para levar o time à conquista do Campeoanto Carioca de 1939. O título foi confirmado na goleada de 4 x 0 sobre o Vasco, nas Laranjeiras, no dia 3 de dezembro, quando o rubro-negro alinhou a equipe que muitos consideram uma das cinco melhores de sua história: Yustrich, Domingos da Guia e Newton; Artigas, Volante e Médio; Sá, Valido, Leônidas da Silva, Gonzalez e Jarbas.
Maior craque flamenguita da época, Leônidas rapidamente tornou-se um ídolo
nacional. Seu futebol de técnica refinada e de muitos gols e a força da
torcida do Flamengo o tornaram tão popular
quanto o então presidente da República, Getúlio Vargas, e o "cantor das
multidões", Orlando Silva. Mas o jogador trocou a Gávea pelo São Paulo em
1942, após desentendimentos com a diretoria do Flamengo, obrigando Flávio
Costa a reformular o time. Em 1940 e 1941, o rubro-negro ficou apenas com
o vice-campeonato. Mas nos três anos seguintes não deu chance aos adversários.
1942 - 1952 De um tri ao outro
Na realidade, desde o fim de 1939 que Flávio já encontrara um substituto
para Leônidas. Descoberto nas peladas de Niterói, Zizinho foi aos poucos
ocupando o lugar do "Diamante Negro" no time e no coração da torcida. E
acabou sendo peça fundamental no primeiro tri do Flamengo, com os gols e
as jogadas geniais que levaram mais tarde Pelé a elegê-lo como o seu maior
ídolo. O título de 1942 foi conquistado no empate de 1 x 1 com o Fluminense,
nas Laranjeiras, em
11 de outubro. O Flamengo jogou com Jurandyr, Domingos da Guia e Newton;
Biguá, Volante e Jayme; Valido, Zizinho, Pirilo, Nandinho e Vevé.
O título de 1943
veio no dia 10 de outubro, com a goleada de 5 x 0 sobre o Bangu, na Gávea.
O time é praticamente o mesmo do ano anterior. A vaga de Valido, que "pendurara
as chuteiras" para cuidar de sua gráfica, passou a ser ocupada pelo titular
Nilo e por seu reserva Jacyr. E o paraguaio Modesto Bria, trazido de Assunção
em um monomotor por Ary, substituiu Artigas nas seis partidas derradeiras.
E o título de 1944 foi ganho graças à perseverança de Flávio Costa e ao esforço de Valido, naquela época em que os craques realmente jogavam por amor à camisa. Restavam duas partidas para o fim do campeonato. Valido apareceu na Gávea para disputar uma pelada com o time de sua gráfica. Flávio notou que o ex-ponta ainda estava em forma e pediu para que ele integrasse o time nos jogos finais. O técnico perdera Domingos, vendido ao Corinthians, e Perácio, que seguira para a Itália, para lutar como "pracinha" na Segunda Guerra. Valido relutou. Mas acabou aceitando. Inscrito como amador, participou da goleada de 6 x 1 sobre o Fluminense, em 22 de outubro, mas as energias gastas na partida deixaram-no abatido.
No domingo seguinte, o Flamengo decide o campeonato contra o Vasco. Valido foi à Gávea. Estava débil, com 38 graus de febre. Mas Flávio praticamente obrigou-o a jogar. Restavam dois minutos para o encerramento, quando Vevé cobrou falta na área. Valido escorou-se nas costas de Argemiro e cabeceou sem chance para Barqueta, marcando o gol de um dos títulos mais comemorados da história rubro-negra. O time? Jurandyr, Newton e Quirino; Biguá, Bria e Jayme; Valido, Zizinho, Pirilo, Tião e Vevé.
Seguiu-se um período de "vacas magras". Entre 1944 e 1952, período
dominado pelo "Expresso da Vitória" do Vasco, os melhores resultados
do Flamengo foram o terceiro lugar em 1949 e o vice-campeonato em 1952.
Os maiores legados da época são a posse de Gilberto Ferreira Cardoso, tido
ainda hoje como o maior presidente dos 105 anos de existência do clube,
e a excursão à Europa, também em 1951, encerrada com 10 vitórias em 10 jogos.
O time-base formou com Garcia, Biguá e Pavão; Válter Miraglia, Dequinha
e Bigode; Nestor, Hermes, Adãozinho, Índio e Esquerdinha.
1953 - 1963 Dos meninos de Solich ao retorno de Flávio
Na viagem à Europa, Gilberto e o técnico Flávio Costa formaram o embrião
da equipe que o paraguaio Fleitas Solich tornou tricampeã em 1953, 1954
e 1955. No campeonato de 1953,
os destaques foram o centro-médio Dequinha, o lateral Jordan, o ponta-de-lança
Rubens da Costa, o "Doutor Rúbis" _ além de Benitez, também importado do
Paraguai, e que acabou como artilheiro do Carioca, com 22 gols. Um dos méritos
de Solich era o de transformar promessas em craques de verdade. No campeonato
de 1954, "O feiticeiro" passou a aproveitar com maior intensidade atacantes
como Paulinho, Evaristo, Dida, Babá e Zagallo. O time sofreu apenas duas
derrotas em 27 partidas.
O título de 1955 foi mais complicado. O Flamengo e o América somaram o mesmo número de pontos e decidiram o Carioca em melhor-de-quatro pontos. O Flamengo ganhou o primeiro jogo por 1 x 0, gol de Evaristo. O América goleou por 5 x 1 na segunda partida. E o rubro-negro quase devolveu o placar na terceira e última partida, disputada em 4 de abril de 1956, vencendo por 4 x 1. O Maracanã recebeu público estimado na época em 180 mil pessoas, e o presidente da República Juscelino Kubitschek esteve presente. O time campeão: Chamorro, Tomires e Pavão; Servílio, Dequinha e Jordan; Joel, Duca, Evaristo, Dida e Zagallo.
Entre 1955 e 1962, a maior conquista do Flamengo foi o Torneio Rio-São Paulo de 1961, que marcou o retorno de Flávio Costa. Na etapa final, o time venceu (5 x 1) o Santos, o Palmeiras (3 x 1) e o Corinthians (2 x 0). O vice carioca de 62, na derrota de 3 a 0 para o Botafogo, foi marcado por uma briga até hoje comentada, entre Flávio e o meia Gérson. O treinador cismou de escalá-lo como terceiro homem de meio-campo, para neutralizar Garrincha. O jogador aceitou, a contra-gosto, e o episódio acabou custando a sua saída do clube, em jullho de 63.
1963 - 1977 Dois títulos antes da Era Zico
O título carioca de 1963 foi muito festejado por ter sido obtido em circunstâncias
especiais: o time não era brilhante e só garantiu o campeonato no empate
de 0 x 0 com o Fluminense na decisão, graças às defesas espetaculares de
Marcial, uma jovem revelação do futebol mineiro. A equipe formava com Marcial,
Murilo, Luiz Carlos, Ananias e Paulo Henrique; Carlinhos
e Nelsinho; Espanhol, Aírton, Geraldo e Oswaldo.
Em 1965, o destaque foi a dupla de ataque integrada pelo polêmico Almir
e pelo "batuta" Silva, dois "banidos" do futebol paulista _ do Santos e
do Corinthians. O campeonato teve apenas 14 partidas, e o Flamengo conquistou
o título por antecipação. Na noite de sábado, 18 de dezembro, o Fluminense
venceu por 1 x 0 o Bangu, que ficou fora do páreo. No dia seguinte, com
o Maracanã
em festa, o Flamengo acabou sendo derrotado (1 x 0) pelo Botafogo.
Nos anos que antecederam as conquistas da Era Zico são dignos de registro
o gol de Almir, arrastando corpo e rosto na lama, na vitória de 2 x 1 sobre
o Bangu, no primeiro turno do Carioca de 1966, e alguns momentos de Garrincha
com a camisa rubro-negra, entre 1968 e 1969. Na campanha que levou ao título
carioca de 1972, o Flamengo era dirigido por Mário Jorge Lobo Zagallo, e
seus destaques eram craques
como o zagueiro paraguaio Reyes, o lateral Rodrigues Neto e os atacantes
Doval e Paulo César Lima. O artilheiro Caio ganhou o apelido de "Cambalhota"
por comemorar com acrobacias cada um dos 14 gols que marcou ao longo do
campeonato. Zico, 19 anos, ainda juvenil, jogou duas vezes no campeonato.
O time jogava com Renato, Moreira, Chiquinho, Reyes e Rodrigues Neto; Liminha
e Zé Mário; Rogério, Caio, Doval e Paulo César Lima. Wanderley Luxemburgo,
futuro técnico da Seleção, era reserva e disputou quatro dos 27 jogos.
Zico estreou entre os profissionais em uma partida pela Taça Guanabara, em 29 de julho de 1971, e deu o passe para Ney Oliveira marcar o gol da vitória por 2 x 1. Mas só "explodiu" de fato durante a conquista do Carioca de 1974, quando marcou 19 vezes e mostrou o vasto repertório que faria dele o maior jogador da história do Flamengo. O técnico rubro-negro era Joubert Meira.
Joubert plantou a semente dos frutos que Cláudio Coutinho começou a colher em 1978, quando o Flamengo formou o time mais vencedor dos 105 anos de sua existência e que conquistou 20 títulos até 1983, quando Zico foi vendido para o Udinese, da Itália.
1978 - 1983 No topo do mundo
O técnico Claudio Coutinho chegou ao Flamengo em 1976. E terminou por aplicar no clube todas as suas concepções de futebol moderno, embora também tenha sido muitas vezes criticado. Tinha muitos craques à sua disposição, mas soube fazer as peças funcionarem com precisão.
Em 1977, o Flamengo perdeu o título carioca nos pênaltis para o Vasco. No
ano seguinte, deu o troco, em decisão tão festejada quanto aquela protagonizada
por Valido, 34 anos antes. Uma vitória sobre os cruzmaltinos dava o campeonato
ao clube. Foi no dia 3 de dezembro. Aos 43 minutos do segundo tempo, Zico
cobrou um escanteio e Rondinelli apareceu de surpresa para cabecear, sem
chance de defesa para Leão. Com aquele 1 x 0, o rubro-negro iniciava a escalada
rumo ao topo do mundo, época em que o presidente Márcio
Braga fez fama pela forma com que comandou o clube. O time-base campeão:
Cantarelli (Raul), Toninho, Rondinelli, Manguito (Nélson) e Júnior; Paulo
César Carpeggiani, Adílio e Zico; Tita (Marcinho), Cláudio Adão e Cléber.
Em 1979, foram disputados dois campeonatos no Rio, um com 10 clubes, chamado "Especial", e o outro com 18. O Flamengo ganhou os dois, o mais curto sem derrota _ foi o terceiro título invicto da história do clube, o primeiro no profissionalismo. Zico marcou 34 vezes e só não superou o recorde de 39 gols estabelecido pelo também rubro-negro Silvio Pirilo em 1941 porque uma distensão deixou-o fora do terceiro turno. O tri foi praticamente assegurado por antecipação, na vitória de 3 x 2 sobre o Vasco, em 28 de outubro, com um gol de Tita, de cabeça. O time apresentou apenas uma novidade em relação a 1978: o ponta Júlio César, que de tanto entortar os adversários com seus dribles acabou sendo apelidado de "Uri Geller", um paranormal israelense que fez sucesso na TV no fim dos anos 70.
Se algum rubro-negro, não importa de que geração, ainda tivesse um grito
preso na garganta, exorcizou-o defintivamente na primeira metade da década
de 80. Entre outros títulos, o Flamengo foi campeão da Taça Libertadores
da América e do Mundial Interclubes, ganhou três Brasileiros, um Estadual
e cinco Taças Guanabaras, além de torneios de peso na Europa.
O Brasileiro de 1980 foi assegurado no dia 1º de junho, com vitória de 3 x 2 sobre o Atlético-MG de Reinaldo, no Maracanã. A conquista foi um passaporte para a Libertadores de 1981. Para ganhá-la, entretanto, o Flamengo precisou superar sobretudo a violência do outro finalista, o Cobreloa. O rubro-negro venceu o primeiro jogo no Maracanã, por 2 x 1, mas acabou sendo derrotado na segunda partida, em Santiago. No terceiro jogo, disputado em 23 de novembro, no campo neutro do Estádio Centenário de Montevidéu, o Flamengo venceu por 2 x 0, com dois gols de Zico.
A conquista da Libertadores deu ao Flamengo o direito de decidir com o inglês Liverpool o Mundial Interclubes, em Tóquio. O jogo foi no dia 13 de dezembro. O adversário, conhecido como "Exército Vermelho", chegara precedido de muita fama. Jogava junto havia seis anos e conquistara, no período, nove títulos, três dos quais de campeão da Europa. Os ingleses olharam os brasileiros com indisfarçável ar de superioridade, mas ao fim dos primeiros 45 minutos, o Flamengo, com uma exibição quase perfeita, já vencia por 3 x 0. Os gols de Nunes (2) e Adílio bastaram. O time: Raul, Leandro, Marinho, Mozer e Júnior; Andrade, Adílio e Zico; Tita, Nunes e Lico.
Em 1982 e em 1983, o Flamengo chegou ao tricampeonato brasileiro. O campeonato
de 1982 foi ganho com uma vitória de 1 x 0 sobre o Grêmio, em pleno Estádio
Olímpico de Porto Alegre, gol de Nunes.
O de 1983 com o triunfo de 3 x 0 sobre o Santos, no Maracanã, gols de Zico,
Leandro e Adílio.
1984 - 1992 Júnior assume o leme e comanda a festa
Zico é vendido ao Udinese em julho de 1983 e retorna ao Flamengo em julho de 1985. Nessa período sem o "Galinho", o clube viveu dois anos sem títulos importantes. Em 1986, o Flamengo ganha o Estadual, com vitória de 2 x 0 sobre o Vasco, e em 13 de dezembro de 1987 conquista o seu quarto título brasileiro, derrotando o Internacional por 1 x 0, no Maracanã. Esse foi o tal título da Copa União, que a CBF não reconheceu como Brasileiro, dizendo que o campeão era o Sport-PE. Na verdade, o Clube dos 13, que acertou com CBF a realização da competição, não aceitou ter de disputar uma última rodada contra os vencedores do grupo com os times de menos tradição. Mas para quem levava o futebol a sério naquela época, o campeão do ano foi mesmo o Flamengo. A equipe rubro-negra formou com Zé Carlos, Jorginho, Leandro, Edinho e Leonardo; Andrade, Aílton e Zico; Renato Gaúcho, Bebeto e Zinho.
Em 6 de fevereiro de 1990, Zico abandonou de vez o futebol. O Flamengo sabia que sentiria a sua ausência, mas continuaria mantendo a tradição de ganhar títulos importantes, como a Copa do Brasil de 1990 _ a única de um clube do Rio _, o Estadual de 1991 e o Brasileiro de 1992, superando nas finais o grande rival Botafogo _ 3 x 0 e 2 x 2. Destaca-se no período, sobretudo, o já veterano Júnior, que regressou ao Brasil em 1988, após cinco temporadas no futebol italiano. Nessa época, Júnior tornou-se o símbolo da garra flamenguista e com sua experiência foi uma espécie de mistura de jogador e técnico dentro de campo.
1993 - 2000 A caminho da fortuna
No final dos anos 90, o Flamengo caminhou para a modernização administrativa. Desde dezembro de 1999, o clube conta com o apoio da empresa suíça International Sports & Leisure - ISL. Mas dentro de campo o Flamengo não conseguiu ser a mesma potência do período Zico-Júnior. Obteve algumas conquistas importantes, como em 1996, quando venceu o quarto Estadual invicto de sua história. Voltou a ser campeão do Rio em 1999, superando o favorito Vasco nas finais, e arrebatou também, neste último ano, a Copa Mercosul. O marco dessa fase foi a passagem pelo clube do atacante Romário, o baixinho que conquistou quase sozinho o Mundial de 94 para o Brasil. Em 1995, o Flamengo colocou ao lado dele Sávio e Edmundo, no que deveria ter sido o "Ataque dos Sonhos". Mas, além de aturar uma defesa conhecida como "Defesa dos Pesadelos", o torcedor flamenguista viu o ataque ser chamado de "O Pior Ataque do Mundo". Era uma provocação dos adversários, principalmente os vascaínos, mas não dá para negar que a famosa formação ofensiva foi uma decepção generalizada.
Em 1999, Romário brigou com a diretoria e voltou para o Vasco. Era mais
uma fase que terminava para o rubro-negro da Gávea, campeão carioca
de 2000.