O Palmeiras nasceu com sotaque. Nos seus primeiros anos de vida, apenas
jogadores da colônia italiana podiam vestir a camisa do clube, então chamado
de Palestra Itália. Essa forte associação fez com que, em 1942, por causa
da Segunda Guerra Mundial, o Palestra mudasse de nome, para Palmeiras.
Apesar da nova denominação, o potencial da equipe continuou o mesmo. O Palestra
era uma das maiores forças do futebol brasileiro e permaneceu assim já rebatizado.
Após dividir o domínio no Estado com Corinthians e São Paulo, o Palmeiras
montou uma equipe de mestres que só poderia ser chamada mesmo de Academia.
Essa versão do alviverde encantou o país, apesar do domínio imposto pelo
Santos de Pelé.
A força da Academia, liderada por Ademir da Guia, durou até a primeira metade
dos anos 70. Era um tempo em que os palmeirenses colecionavam faixas de
campeão. Mas o período de vacas magras veio, ficou e só foi embora na década
de 90. A parceria com a Parmalat colocou o Palmeiras de volta ao seu devido
lugar: entre os maiores do mundo, inclusive com o inédito título de campeão
da Libertadores da América.
Em sua edição de 19 de agosto de 1914, o jornal Fanfulla, porta-voz da colônia
italiana em São Paulo, publicou o seguinte convite: "Todos que desejarem
participar da criação de um clube italiano de futebol devem comparecer,
às 20 horas de hoje, no número 2 da Rua Marechal Deodoro, Salão Alhambra,
para uma reunião". Os curiosos que se arriscaram pelas imediações do centro
em busca de um clube ao estilo daquela época, com seções dramáticas, literárias
e bailes, perderam a viagem. A intenção de Luís Cervo, Vicente Ragognetti,
Ezequiel Simone e Luís Emmanuele Marzo - que podem ser considerados os pais
da idéia - era outra: impressionados com as recentes excursões dos italianos
Pro-Vercelli e Torino ao país, queriam formar um clube só de futebol. Nova
reunião foi marcada e, no dia 26 de agosto, foi fundado o Palestra
Itália. Naquela época, a Itália estava envolvida até o pescoço na Primeira
Guerra Mundial. E o dinheiro da colônia inicialmente destinado ao time foi
desviado para a Cruz Vermelha. Em petição de miséria, os integrantes do
clube decidiram fazer uma partida para angariar fundos. Foi
assim que entraram em campo, pela primeira vez, no 24 de janeiro de 1915.
O adversário era o Savóia de Votorantim - município que, na época, pertencia
à cidade de Sorocaba. O resultado: Palestra 2 x 0. O zagueiro Bianco (que
havia trocado o Corinthians, clube onde foi campeão paulista em 1914, pelo
Palestra) marcou, de falta, o primeiro gol da história do clube. No minuto
seguinte, Alegretti, de pênalti, fez o segundo. Surgia o alviverde imponente,
que, naquele dia, formou com: Stilitano, Bonato e Fúlvio; Police, Bianco
e Vale; Cavinato, Fiaschi, Alegretti, Amílcar e Ferré. O próximo passo foi
tentar entrar no Campeonato Paulista de então. O passaporte era uma vitória
sobre o Santos. Não deu: o Palestra perdeu por humilhantes 7 a 0.
1916 - 1919 Quero ser grande
Em 1916, o Palestra
Itália jogou pela primeira vez um Campeonato Paulista pela Associação
Paulista de Esportes Atléticos (Apea). Para isso, teve que lutar muito.
Só entrou no torneio porque um time de origem inglesa, o Wanderer, foi convidado
a se retirar porque pagou seus jogadores por uma vitória. Procedimento ilegal,
em tempos de futebol amador (a profissionalização só veio em 1933). A intenção
de montar um time só com italianos ou oriundi (descendentes de italianos)
não surtiu efeito: dos bons jogadores da época, apenas Bianco (Corinthians)
e Dante Vescovini (Paulistano) aceitaram trocar seus antigos clubes pelo
recém-criado Palestra. E não puderam fazer milagres com o resto do elenco,
de pouca qualidade técnica. Fora de campo, a ajuda de altos funcionários
das Indústrias Reunidas Matarazzo foi fundamental. Eles conseguiram convencer
os dirigentes da época de que a inclusão do time da colônia italiana no
campeonato causaria um sensível aumento de público, o que de fato aconteceu.
Em 1917,
a equipe chegou ao vice-campeonato com o estreante Heitor,
que se tornaria o primeiro grande ídolo da história do clube. Em 1919,
a segunda colocação se repetiu. O primeiro título estava amadurecendo.
1920 - 1930 Primeiras glórias
Em 1920, o Palestra sagrou-se campeão
paulista pela primeira vez. Poderia ter chegado uma semana antes, na
última rodada do campeonato, quando um empate contra o Paulistano daria
o direito às faixas. Mas o time bobeou, perdeu por 1 x 0 e teve de ir para
um jogo-extra. No domingo seguinte, 19 de dezembro, não teve castigo: Martinelli
fez 1 x 0, Mário Andrada empatou para o rival, Forte desempatou. Era la
prima volta, a primeira vez, do Palestra campeão.
Nos anos seguintes, uma única alegria: roubar
o título das mãos do Corinthians e dá-lo de presente ao Paulistano,
com a vitória por 3 x 0 sobre o já então arquiinimigo, justamente no dia
de Natal de 1921. A exaltação de um título só chegaria de novo em 1926,
pelo campeonato da Apea. Bianco e Heitor já contavam com as ilustres companhias
do zagueiro Amílcar Barbuy, do médio Serafini e do atacante Imparato. No
ano seguinte (1927), viria o bi, primeiro e único da história do clube até
as recentes conquistas de 1993/94.
1931 - 1940 A década de ouro
O Palestra Itália faturou nada menos que a metade dos campeonatos paulistas
disputados na década
de 30. De quebra, ganhou também o primeiro Torneio Rio-São Paulo da
história, em 1933. A primeira conquista desse período foi em 1932, com vitória
em todos os jogos. Ministrinho, o grande ídolo da torcida, já tinha se bandeado
para a Itália a essa altura. Mas em seu lugar brilhava um novo rei: Romeu
Pellicciari, tão baixinho e gordinho quanto genial.
No ano seguinte, 1933,
viria o bicampeonato (primeiro
título profissional do futebol paulista) e, em 1934, o primeiro e único
tricampeonato
paulista da história alviverde. O tetra foi perdido para o Santos, em 1935.
Mas o Palestra recuperou o campeonato em 1936, vencendo o rival Corinthians
na primeira decisão direta envolvendo os dois clubes. Alguns anos de espera,
até a conquista do Paulistão de 1940, numa vitória contra o São Paulo (4
a 1). Foi o primeiro título jogado no Pacaembu e que fechou a década com
chave de ouro.
1941 - 1950 De Palestra a Palmeiras
Em 1942, o Brasil entrou na Segunda Guerra Mundial contra Japão, Alemanha
e Itália, os países que formavam o Eixo. Com isso, aumentou a pressão para
que o clube mudasse
de nome. De nada adiantou a solução apresentada - a mudança apenas parcial,
de Palestra Itália para Palestra São Paulo.
Na noite de 13 de setembro, por força das pressões anti-italianas, o nome do clube foi mudado definitivamente para Sociedade Esportiva Palmeiras. No domingo seguinte, o time conquistou o primeiro campeonato com o novo nome, vencendo o São Paulo por 3 x 1. Para provar suas intenções nacionalistas, entrou em campo carregando uma bandeira do Brasil, tendo à frente o palmeirense Adalberto Mendes, general do exército.
A partir daí, e até o final
da década, o maior adversário do alviverde passou a ser o reforçado
São Paulo de Leônidas da Silva.
1950 - 1958 Da glória ao jejum
A década de 50 começou com uma das maiores conquistas da história do clube,
a Copa Rio. Disputada com jogos no Pacaembu e no Maracanã, em 1951, foi
um autêntico campeonato mundial de clubes. O Palmeiras a conquistou com
um heróico empate (2 x 2) contra a Juventus de Turim, no Maracanã. Além
da Copa Rio, o time ganhou, entre 1950 e 1951, o Campeonato Paulista (1950),
duas vezes a Taça Cidade de São Paulo e uma vez o Torneio Rio-São Paulo.
Mas as glórias
nos anos 50 - que, até ali, pareciam ser todas verdes - pararam de repente.
A partir da perda do campeonato do IV Centenário da cidade para o mesmo
Corinthians, em 1954, o time não conseguiu mais se encontrar. Fez apenas
figuração nos campeonatos paulistas, entre 1956 e 1958. Principalmente no
de 1957, ano em que foi o penúltimo colocado da fase decisiva.
1959 - 1968 A primeira Academia
O Palmeiras só voltou a conquistar o título paulista em 1959, derrotando
o Santos de Pelé em uma melhor-de-três, depois de quase nove anos de
espera. O gol de falta que valeu a vitória por 2 x 1 foi do ponta-esquerda
Romeiro. Um jogador apenas regular, mas que, por esse feito, entrou para
a história do clube.
O time estava todo remodelado. Os destaques eram o lateral-direito Djalma
Santos e o ponta Julinho Botelho, dois ex-jogadores da Portuguesa que entram
em qualquer lista dos maiores craques brasileiros de todos os tempos. Julinho,
no entanto, não veio direto da Lusa: retornava ao país depois de uma vitoriosa
passagem pela Fiorentina, da Itália. Já havia, também, o goleiro gaúcho
Valdir de Moraes, o zagueiro Waldemar Carabina e o volante Zequinha, dois
dos onze jogadores que entrariam para a história formando o time chamado
de Academia. Valdir, Djalma Santos, Djalma Dias, Waldemar Carabina (Minuca)
e Geraldo Scoto (Ferrari); Zequinha (Dudu) e Ademir
da Guia; Gildo, Servílio, Tupãzinho e Rinaldo dominaram o cenário do
futebol paulista e brasileiro a partir da década
de 60. Se não fosse por esse Palmeiras, o quase imbatível Santos de
Pelé teria conquistado simplesmente todos os 12 Campeonatos Paulistas disputados
entre 1958 e 1969. Mas havia a Academia, campeã em 1959, 1963 e 1966.
Além das conquistas estaduais, aquele Super Verdão faturou também a Taça Brasil (que valia vaga na Libertadores) em 1960 e 1967; os Torneios Internacionais de Guadalajara, no México, e de Florença, na Itália, em 1963; o Torneio Rio-São Paulo, em 1965; e o Torneio Roberto Gomes Pedrosa (que, depois, viria a se transformar no Campeonato Brasileiro), em 1967. Chegou também, duas vezes, à final da Libertadores, em 1960 e 1968.
1969 - 1976 A segunda Academia
A perda do título da Libertadores de 1968 para o Estudiantes, da Argentina,
provocou profundas
mudanças no time vencedor que o Palmeiras vinha mantendo desde o início
da década. Para piorar a situação, a equipe - que, naquele ano, havia deixado
o Campeonato Paulista em segundo plano - quase
caiu para a segunda divisão estadual. Por causa disso, os ídolos Djalma
Santos e Servílio foram dispensados e caras novas como Leão e Luís Pereira
chegaram para assumir seus lugares. Era o fim da primeira Academia. Mas,
em compensação, iniciava-se ali a saga de um outro time, que ficaria igualmente
marcado na memória alviverde. Logo no primeiro ano jogando junta, a nova
equipe levantou o Torneio Roberto Gomes Pedrosa e o Troféu Ramón de Carranza,
na Espanha. Em 1972 viriam os campeonatos Paulista e Brasileiro; em 1973,
o Brasileiro; em 1974,
o Paulista. A base: Leão, Eurico, Luís Pereira, Alfredo e Zeca; Dudu e Ademir
da Guia; Edu, Leivinha, César e Nei. Oswaldo Brandão era o técnico. No início
de 1975, o zagueiro Luís Pereira e o meia Leivinha (que haviam jogado a
Copa do Mundo na Alemanha Ocidental, no ano anterior) foram vendidos ao
Atlético de Madrid, da Espanha. No ano seguinte, Dudu trocou o meio-campo
pelo banco de reservas, de onde conquistou, como técnico, mais um Campeonato
Paulista, o de 1976. No time, formado basicamente por garotos e pelo recém-contratado
meia Jorge Mendonça, permaneceram, ainda, Ademir da Guia e Leão.
1977
- 1991 Anos difíceis
O período entre 1977 e 1991 foi, seguramente, o mais difícil da história
palmeirense. Em 1977, Ademir da Guia, O Divino, despediu-se dos gramados.
Na temporada seguinte, o time chegou à final do Campeonato Brasileiro, perdida
para o Guarani, de Campinas. Leão, o último remanescente do time vencedor
dos anos 70, teve uma triste participação na decisão. Na primeira partida
da final, agrediu na área o atacante Careca, provocando um pênalti (convertido
pelo próprio Zenon), e ainda foi expulso pela atitude. Despediu-se do Parque
Antarctica como o agente causador do fracasso. Foi para o Vasco, deixando
em seu lugar o goleiro Gilmar. Com ele e mais um punhado de garotos, o técnico
Telê Santana fez duas campanhas maravilhosas, nos campeonatos Paulista e
Brasileiro de 1979, mas não conseguiu ganhar nada.
A
década seguinte foi passada em branco, sem nenhum título sequer. Começou
com a renovação do elenco (outra vez, nove jogadores foram contratados),
para esquecer o
quase rebaixamento no Campeonato Paulista de 1980. Surgiu um ídolo -
Jorginho, revelado pelo Marília -- voltou outro - Luís Pereira, zagueiro-símbolo
da segunda Academia. Mas o clube só teria direito a decidir um título em
igualdade de condições, novamente, em 1986,
diante da Internacional de Limeira. E, mesmo assim, perdeu, em pleno Morumbi.
Naquele mesmo ano, a torcida resolveu assumir
o porco, até então uma ofensa, como símbolo do clube. De 1989 a 1991,
o time melhorou suas colocações nos campeonatos Paulista e Brasileiro.
1992
- 2000 Troféu pouco é bobagem
As dívidas se acumulavam, assim como os anos sem títulos. Mas, em abril
de 1992, surgiu a salvação: o Palmeiras fez um acordo de co-gestão com
a multinacional Parmalat, indústria italiana de laticínios. De cara, a
empresa injetou 2 milhões de dólares no elenco, trazendo reforços do nível
do ex-flamenguista Zinho e do volante Mazinho. Mudou a tradicional camisa
verde, injetando listras brancas, devidamente emolduradas pelo logotipo
da empresa. O verde tradicional esmaeceu, ficou alguns tons mais claro.
Parte da torcida olhou feio. Mas, com a multinacional, o time conseguiu
chegar à decisão do Campeonato Paulista depois de seis anos, perdendo
para o São Paulo, campeão mundial de Raí e Telê Santana.
A partir daquele jogo inesquecível, a história do Palmeiras foi só de
vitórias. Noventa e três foi também ano de ganhar o ressuscitado Torneio
Rio-São Paulo, de novo em cima do Corinthians. E também de faturar mais
um título nacional, 21 anos depois, ganhando do Vitória da Bahia na decisão.
No ano seguinte, um duplo bi - no Paulista e no Brasileiro, novamente
em cima do Corinthians.
O tri não veio em 1995, mas, em 1996, novamente sob o comando de Wanderley
Luxemburgo (campeão em 1993), o Palmeiras se tornou uma máquina
de fazer gols. Müller, Djalminha, Luizão e Rivaldo levantaram mais
um título estadual, com a maior facilidade.
A partir de 1996, o jogo bonito da Era Luxemburgo deu lugar ao futebol
pragmático do técnico gaúcho Luiz Felipe Scolari. Apesar da resistência
de alguns torcedores, acostumados com o futebol requintado da Academia,
os troféus não pararam de chegar ao Parque Antarctica. Primeiro, foi a
Copa do Brasil de 1998, que deu o direito de disputar a Libertadores do
ano seguinte. Depois, a própria Libertadores, a
maior conquista da história palmeirense. Em seguida, o Palmeiras disputou
o título paulista com o Corinthians e perdeu. Jogadores como o atacante
Paulo Nunes menosprezaram o campeonato, ironizando a conquista do arquiinimigo.
"Quem quer um paulistinha, se já tem o sul-americano?", dizia. Falaram
demais. Perderam o Mundial Interclubes, em Tóquio, para os ingleses do
Manchester United. A derrota (1 x 0) provocou uma profunda reformulação.
E a formação do elenco atual, mais modesto, mas não menos combativo, para
a temporada 2000.
Zinho, Evair, Paulo Nunes, Cléber e Oséas deixaram o clube na primeira
grande mexida, em janeiro de 2000. Sem as grandes estrelas, o time ganhou
o Torneio Rio-São Paulo, mas caiu na semifinal do Campeonato Paulista
diante do Santos. Entretanto, com um elenco ainda modesto (de craque,
só o meia Alex), o Palmeiras mostrou a sua força mais uma vez na Libertadores.
Depois de eliminar novamente o rival Corinthians nos pênaltis (como em
1998), o Verdão foi à decisão contra o Boca Juniors, da Argentina. No
jogo de ida, em Buenos Aires, um empate heróico em 2 x 2. Mas na decisão,
o clube teve que provar o gosto amargo do próprio veneno. O goleiro colombiano
Córdoba defendeu as cobranças de Roque Júnior e Asprilla, e o Boca saiu
do Morumbi como campeão da América. Era o fim do sonho do bi da Libertadores
e de tentar o Mundial Interclubes em Tóquio.
Então foi a vez do técnico Luiz Felipe pegar o boné e se bandear para
o Cruzeiro. Com a saída dele, veio o segundo desmanche do supertime palmeirense.
O meia Alex e o lateral Júnior foram vendidos ao Parma, da Itália.
Mesmo assim, sob o comando de Flávio Teixeira, ex-auxiliar de Felipão,
um Palmeiras cheio de garotos conquistou a Copa dos Campeões e o direito
de voltar a Libertadores em 2001.