Quarta - 01/11

Brasileiro

21h45 - Fortaleza x Corinthians





Futebol digno de academia

O Palmeiras nasceu com sotaque. Nos seus primeiros anos de vida, apenas jogadores da colônia italiana podiam vestir a camisa do clube, então chamado de Palestra Itália. Essa forte associação fez com que, em 1942, por causa da Segunda Guerra Mundial, o Palestra mudasse de nome, para Palmeiras.

Apesar da nova denominação, o potencial da equipe continuou o mesmo. O Palestra era uma das maiores forças do futebol brasileiro e permaneceu assim já rebatizado. Após dividir o domínio no Estado com Corinthians e São Paulo, o Palmeiras montou uma equipe de mestres que só poderia ser chamada mesmo de Academia. Essa versão do alviverde encantou o país, apesar do domínio imposto pelo Santos de Pelé.

A força da Academia, liderada por Ademir da Guia, durou até a primeira metade dos anos 70. Era um tempo em que os palmeirenses colecionavam faixas de campeão. Mas o período de vacas magras veio, ficou e só foi embora na década de 90. A parceria com a Parmalat colocou o Palmeiras de volta ao seu devido lugar: entre os maiores do mundo, inclusive com o inédito título de campeão da Libertadores da América.




1914 - 1915 — Surge o alviverde imponente
1916 - 1919 — Quero ser grande
1920 - 1930 — Primeiras glórias
1931 - 1940 — A década de ouro
1941 - 1950 — De Palestra a Palmeiras
1950 - 1958 — Da glória ao jejum
1959 - 1968 — A primeira Academia
1969 - 1976 — A segunda Academia
1977 - 1991 — Anos difíceis
1992 - 2000 — Troféu pouco é bobagem



1914 - 1915 — Surge o alviverde imponente

Em sua edição de 19 de agosto de 1914, o jornal Fanfulla, porta-voz da colônia italiana em São Paulo, publicou o seguinte convite: "Todos que desejarem participar da criação de um clube italiano de futebol devem comparecer, às 20 horas de hoje, no número 2 da Rua Marechal Deodoro, Salão Alhambra, para uma reunião". Os curiosos que se arriscaram pelas imediações do centro em busca de um clube ao estilo daquela época, com seções dramáticas, literárias e bailes, perderam a viagem. A intenção de Luís Cervo, Vicente Ragognetti, Ezequiel Simone e Luís Emmanuele Marzo - que podem ser considerados os pais da idéia - era outra: impressionados com as recentes excursões dos italianos Pro-Vercelli e Torino ao país, queriam formar um clube só de futebol. Nova reunião foi marcada e, no dia 26 de agosto, foi fundado o Palestra Itália. Naquela época, a Itália estava envolvida até o pescoço na Primeira Guerra Mundial. E o dinheiro da colônia inicialmente destinado ao time foi desviado para a Cruz Vermelha. Em petição de miséria, os integrantes do clube decidiram fazer uma partida para angariar fundos. Foi assim que entraram em campo, pela primeira vez, no 24 de janeiro de 1915. O adversário era o Savóia de Votorantim - município que, na época, pertencia à cidade de Sorocaba. O resultado: Palestra 2 x 0. O zagueiro Bianco (que havia trocado o Corinthians, clube onde foi campeão paulista em 1914, pelo Palestra) marcou, de falta, o primeiro gol da história do clube. No minuto seguinte, Alegretti, de pênalti, fez o segundo. Surgia o alviverde imponente, que, naquele dia, formou com: Stilitano, Bonato e Fúlvio; Police, Bianco e Vale; Cavinato, Fiaschi, Alegretti, Amílcar e Ferré. O próximo passo foi tentar entrar no Campeonato Paulista de então. O passaporte era uma vitória sobre o Santos. Não deu: o Palestra perdeu por humilhantes 7 a 0.








1916 - 1919 — Quero ser grande

Em 1916, o Palestra Itália jogou pela primeira vez um Campeonato Paulista pela Associação Paulista de Esportes Atléticos (Apea). Para isso, teve que lutar muito. Só entrou no torneio porque um time de origem inglesa, o Wanderer, foi convidado a se retirar porque pagou seus jogadores por uma vitória. Procedimento ilegal, em tempos de futebol amador (a profissionalização só veio em 1933). A intenção de montar um time só com italianos ou oriundi (descendentes de italianos) não surtiu efeito: dos bons jogadores da época, apenas Bianco (Corinthians) e Dante Vescovini (Paulistano) aceitaram trocar seus antigos clubes pelo recém-criado Palestra. E não puderam fazer milagres com o resto do elenco, de pouca qualidade técnica. Fora de campo, a ajuda de altos funcionários das Indústrias Reunidas Matarazzo foi fundamental. Eles conseguiram convencer os dirigentes da época de que a inclusão do time da colônia italiana no campeonato causaria um sensível aumento de público, o que de fato aconteceu.

Em 1917, a equipe chegou ao vice-campeonato com o estreante Heitor, que se tornaria o primeiro grande ídolo da história do clube. Em 1919, a segunda colocação se repetiu. O primeiro título estava amadurecendo.








1920 - 1930 — Primeiras glórias

Em 1920, o Palestra sagrou-se campeão paulista pela primeira vez. Poderia ter chegado uma semana antes, na última rodada do campeonato, quando um empate contra o Paulistano daria o direito às faixas. Mas o time bobeou, perdeu por 1 x 0 e teve de ir para um jogo-extra. No domingo seguinte, 19 de dezembro, não teve castigo: Martinelli fez 1 x 0, Mário Andrada empatou para o rival, Forte desempatou. Era la prima volta, a primeira vez, do Palestra campeão.

Nos anos seguintes, uma única alegria: roubar o título das mãos do Corinthians e dá-lo de presente ao Paulistano, com a vitória por 3 x 0 sobre o já então arquiinimigo, justamente no dia de Natal de 1921. A exaltação de um título só chegaria de novo em 1926, pelo campeonato da Apea. Bianco e Heitor já contavam com as ilustres companhias do zagueiro Amílcar Barbuy, do médio Serafini e do atacante Imparato. No ano seguinte (1927), viria o bi, primeiro e único da história do clube até as recentes conquistas de 1993/94.








1931 - 1940 — A década de ouro

O Palestra Itália faturou nada menos que a metade dos campeonatos paulistas disputados na década de 30. De quebra, ganhou também o primeiro Torneio Rio-São Paulo da história, em 1933. A primeira conquista desse período foi em 1932, com vitória em todos os jogos. Ministrinho, o grande ídolo da torcida, já tinha se bandeado para a Itália a essa altura. Mas em seu lugar brilhava um novo rei: Romeu Pellicciari, tão baixinho e gordinho quanto genial.

No ano seguinte, 1933, viria o bicampeonato (primeiro título profissional do futebol paulista) e, em 1934, o primeiro e único tricampeonato paulista da história alviverde. O tetra foi perdido para o Santos, em 1935. Mas o Palestra recuperou o campeonato em 1936, vencendo o rival Corinthians na primeira decisão direta envolvendo os dois clubes. Alguns anos de espera, até a conquista do Paulistão de 1940, numa vitória contra o São Paulo (4 a 1). Foi o primeiro título jogado no Pacaembu e que fechou a década com chave de ouro.








1941 - 1950 — De Palestra a Palmeiras

Em 1942, o Brasil entrou na Segunda Guerra Mundial contra Japão, Alemanha e Itália, os países que formavam o Eixo. Com isso, aumentou a pressão para que o clube mudasse de nome. De nada adiantou a solução apresentada - a mudança apenas parcial, de Palestra Itália para Palestra São Paulo.

Na noite de 13 de setembro, por força das pressões anti-italianas, o nome do clube foi mudado definitivamente para Sociedade Esportiva Palmeiras. No domingo seguinte, o time conquistou o primeiro campeonato com o novo nome, vencendo o São Paulo por 3 x 1. Para provar suas intenções nacionalistas, entrou em campo carregando uma bandeira do Brasil, tendo à frente o palmeirense Adalberto Mendes, general do exército.

A partir daí, e até o final da década, o maior adversário do alviverde passou a ser o reforçado São Paulo de Leônidas da Silva.








1950 - 1958 — Da glória ao jejum

A década de 50 começou com uma das maiores conquistas da história do clube, a Copa Rio. Disputada com jogos no Pacaembu e no Maracanã, em 1951, foi um autêntico campeonato mundial de clubes. O Palmeiras a conquistou com um heróico empate (2 x 2) contra a Juventus de Turim, no Maracanã. Além da Copa Rio, o time ganhou, entre 1950 e 1951, o Campeonato Paulista (1950), duas vezes a Taça Cidade de São Paulo e uma vez o Torneio Rio-São Paulo. Mas as glórias nos anos 50 - que, até ali, pareciam ser todas verdes - pararam de repente. A partir da perda do campeonato do IV Centenário da cidade para o mesmo Corinthians, em 1954, o time não conseguiu mais se encontrar. Fez apenas figuração nos campeonatos paulistas, entre 1956 e 1958. Principalmente no de 1957, ano em que foi o penúltimo colocado da fase decisiva.








1959 - 1968 — A primeira Academia

O Palmeiras só voltou a conquistar o título paulista em 1959, derrotando o Santos de Pelé em uma melhor-de-três, depois de quase nove anos de espera. O gol de falta que valeu a vitória por 2 x 1 foi do ponta-esquerda Romeiro. Um jogador apenas regular, mas que, por esse feito, entrou para a história do clube.

O time estava todo remodelado. Os destaques eram o lateral-direito Djalma Santos e o ponta Julinho Botelho, dois ex-jogadores da Portuguesa que entram em qualquer lista dos maiores craques brasileiros de todos os tempos. Julinho, no entanto, não veio direto da Lusa: retornava ao país depois de uma vitoriosa passagem pela Fiorentina, da Itália. Já havia, também, o goleiro gaúcho Valdir de Moraes, o zagueiro Waldemar Carabina e o volante Zequinha, dois dos onze jogadores que entrariam para a história formando o time chamado de Academia. Valdir, Djalma Santos, Djalma Dias, Waldemar Carabina (Minuca) e Geraldo Scoto (Ferrari); Zequinha (Dudu) e Ademir da Guia; Gildo, Servílio, Tupãzinho e Rinaldo dominaram o cenário do futebol paulista e brasileiro a partir da década de 60. Se não fosse por esse Palmeiras, o quase imbatível Santos de Pelé teria conquistado simplesmente todos os 12 Campeonatos Paulistas disputados entre 1958 e 1969. Mas havia a Academia, campeã em 1959, 1963 e 1966.

Além das conquistas estaduais, aquele Super Verdão faturou também a Taça Brasil (que valia vaga na Libertadores) em 1960 e 1967; os Torneios Internacionais de Guadalajara, no México, e de Florença, na Itália, em 1963; o Torneio Rio-São Paulo, em 1965; e o Torneio Roberto Gomes Pedrosa (que, depois, viria a se transformar no Campeonato Brasileiro), em 1967. Chegou também, duas vezes, à final da Libertadores, em 1960 e 1968.








1969 - 1976 — A segunda Academia

A perda do título da Libertadores de 1968 para o Estudiantes, da Argentina, provocou profundas mudanças no time vencedor que o Palmeiras vinha mantendo desde o início da década. Para piorar a situação, a equipe - que, naquele ano, havia deixado o Campeonato Paulista em segundo plano - quase caiu para a segunda divisão estadual. Por causa disso, os ídolos Djalma Santos e Servílio foram dispensados e caras novas como Leão e Luís Pereira chegaram para assumir seus lugares. Era o fim da primeira Academia. Mas, em compensação, iniciava-se ali a saga de um outro time, que ficaria igualmente marcado na memória alviverde. Logo no primeiro ano jogando junta, a nova equipe levantou o Torneio Roberto Gomes Pedrosa e o Troféu Ramón de Carranza, na Espanha. Em 1972 viriam os campeonatos Paulista e Brasileiro; em 1973, o Brasileiro; em 1974, o Paulista. A base: Leão, Eurico, Luís Pereira, Alfredo e Zeca; Dudu e Ademir da Guia; Edu, Leivinha, César e Nei. Oswaldo Brandão era o técnico. No início de 1975, o zagueiro Luís Pereira e o meia Leivinha (que haviam jogado a Copa do Mundo na Alemanha Ocidental, no ano anterior) foram vendidos ao Atlético de Madrid, da Espanha. No ano seguinte, Dudu trocou o meio-campo pelo banco de reservas, de onde conquistou, como técnico, mais um Campeonato Paulista, o de 1976. No time, formado basicamente por garotos e pelo recém-contratado meia Jorge Mendonça, permaneceram, ainda, Ademir da Guia e Leão.








1977 - 1991 — Anos difíceis

O período entre 1977 e 1991 foi, seguramente, o mais difícil da história palmeirense. Em 1977, Ademir da Guia, O Divino, despediu-se dos gramados. Na temporada seguinte, o time chegou à final do Campeonato Brasileiro, perdida para o Guarani, de Campinas. Leão, o último remanescente do time vencedor dos anos 70, teve uma triste participação na decisão. Na primeira partida da final, agrediu na área o atacante Careca, provocando um pênalti (convertido pelo próprio Zenon), e ainda foi expulso pela atitude. Despediu-se do Parque Antarctica como o agente causador do fracasso. Foi para o Vasco, deixando em seu lugar o goleiro Gilmar. Com ele e mais um punhado de garotos, o técnico Telê Santana fez duas campanhas maravilhosas, nos campeonatos Paulista e Brasileiro de 1979, mas não conseguiu ganhar nada.

A década seguinte foi passada em branco, sem nenhum título sequer. Começou com a renovação do elenco (outra vez, nove jogadores foram contratados), para esquecer o quase rebaixamento no Campeonato Paulista de 1980. Surgiu um ídolo - Jorginho, revelado pelo Marília -- voltou outro - Luís Pereira, zagueiro-símbolo da segunda Academia. Mas o clube só teria direito a decidir um título em igualdade de condições, novamente, em 1986, diante da Internacional de Limeira. E, mesmo assim, perdeu, em pleno Morumbi. Naquele mesmo ano, a torcida resolveu assumir o porco, até então uma ofensa, como símbolo do clube. De 1989 a 1991, o time melhorou suas colocações nos campeonatos Paulista e Brasileiro.








1992 - 2000 — Troféu pouco é bobagem

As dívidas se acumulavam, assim como os anos sem títulos. Mas, em abril de 1992, surgiu a salvação: o Palmeiras fez um acordo de co-gestão com a multinacional Parmalat, indústria italiana de laticínios. De cara, a empresa injetou 2 milhões de dólares no elenco, trazendo reforços do nível do ex-flamenguista Zinho e do volante Mazinho. Mudou a tradicional camisa verde, injetando listras brancas, devidamente emolduradas pelo logotipo da empresa. O verde tradicional esmaeceu, ficou alguns tons mais claro. Parte da torcida olhou feio. Mas, com a multinacional, o time conseguiu chegar à decisão do Campeonato Paulista depois de seis anos, perdendo para o São Paulo, campeão mundial de Raí e Telê Santana.

O ano seguinte (1993) começou com mais investimentos. Chegaram o zagueiro Antônio Carlos, o lateral-esquerdo Roberto Carlos, o meia Edílson e o atacante Edmundo. Eles se juntaram ao volante César Sampaio e ao centroavante Evair, remanescentes dos tempos de vacas magras, e libertaram o torcedor do jejum de dezesseis anos sem títulos do jeito que ele mais queria: goleando o Corinthians, na final, por 4 x 0.

A partir daquele jogo inesquecível, a história do Palmeiras foi só de vitórias. Noventa e três foi também ano de ganhar o ressuscitado Torneio Rio-São Paulo, de novo em cima do Corinthians. E também de faturar mais um título nacional, 21 anos depois, ganhando do Vitória da Bahia na decisão. No ano seguinte, um duplo bi - no Paulista e no Brasileiro, novamente em cima do Corinthians.

O tri não veio em 1995, mas, em 1996, novamente sob o comando de Wanderley Luxemburgo (campeão em 1993), o Palmeiras se tornou uma máquina de fazer gols. Müller, Djalminha, Luizão e Rivaldo levantaram mais um título estadual, com a maior facilidade.

A partir de 1996, o jogo bonito da Era Luxemburgo deu lugar ao futebol pragmático do técnico gaúcho Luiz Felipe Scolari. Apesar da resistência de alguns torcedores, acostumados com o futebol requintado da Academia, os troféus não pararam de chegar ao Parque Antarctica. Primeiro, foi a Copa do Brasil de 1998, que deu o direito de disputar a Libertadores do ano seguinte. Depois, a própria Libertadores, a maior conquista da história palmeirense. Em seguida, o Palmeiras disputou o título paulista com o Corinthians e perdeu. Jogadores como o atacante Paulo Nunes menosprezaram o campeonato, ironizando a conquista do arquiinimigo. "Quem quer um paulistinha, se já tem o sul-americano?", dizia. Falaram demais. Perderam o Mundial Interclubes, em Tóquio, para os ingleses do Manchester United. A derrota (1 x 0) provocou uma profunda reformulação. E a formação do elenco atual, mais modesto, mas não menos combativo, para a temporada 2000.

Zinho, Evair, Paulo Nunes, Cléber e Oséas deixaram o clube na primeira grande mexida, em janeiro de 2000. Sem as grandes estrelas, o time ganhou o Torneio Rio-São Paulo, mas caiu na semifinal do Campeonato Paulista diante do Santos. Entretanto, com um elenco ainda modesto (de craque, só o meia Alex), o Palmeiras mostrou a sua força mais uma vez na Libertadores.

Depois de eliminar novamente o rival Corinthians nos pênaltis (como em 1998), o Verdão foi à decisão contra o Boca Juniors, da Argentina. No jogo de ida, em Buenos Aires, um empate heróico em 2 x 2. Mas na decisão, o clube teve que provar o gosto amargo do próprio veneno. O goleiro colombiano Córdoba defendeu as cobranças de Roque Júnior e Asprilla, e o Boca saiu do Morumbi como campeão da América. Era o fim do sonho do bi da Libertadores e de tentar o Mundial Interclubes em Tóquio.

Então foi a vez do técnico Luiz Felipe pegar o boné e se bandear para o Cruzeiro. Com a saída dele, veio o segundo desmanche do supertime palmeirense. O meia Alex e o lateral Júnior foram vendidos ao Parma, da Itália.

Mesmo assim, sob o comando de Flávio Teixeira, ex-auxiliar de Felipão, um Palmeiras cheio de garotos conquistou a Copa dos Campeões e o direito de voltar a Libertadores em 2001.









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