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Terrão do Guarani
08h00 16/10/2006

'Abandonados', Guarani e Ponte Preta agonizam

Clubes vivem situação problemática em todo o departamento de futebol. Falta de revelações, domínio dos empresários e má administração são apenas alguns dos motivos apontados pelos dirigentes.

Leandro Canônico e Luís Farah, especial para o Pelé.Net

CAMPINAS - "Na minha cabeça, o único pensamento é dinheiro e não amor à camisa". A declaração não é de um jogador que ganha milhões na Europa e muito menos de um atleta veterano em busca de independência financeira. Pelo contrário, essas palavras foram ditas pelo atacante Thiago Miyamoto, do time sub-15 do Guarani.

Celulares de última geração, tênis modernos, correntes douradas e toda a marra e pompa dignas de jogadores consagrados no futebol mundial. Não, esta não é uma reunião de atletas do Real Madrid ou Barcelona. É a aglomeração de jovens com apenas 15 anos, integrantes das categorias de base do Guarani Futebol Clube.

Se antigamente muitos jogadores tinham amor à camisa e sonhavam desde cedo em escrever seu nome na história do clube, hoje não é bem assim. Atualmente, o dinheiro e a perspectiva de um futuro melhor, de preferência na Europa, são os principais motivadores da maioria dos atletas das categorias amadoras.
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O pensamento desse garoto simboliza de maneira bem clara a crise que vive o futebol do interior paulista, sobretudo em Campinas, onde Guarani e Ponte Preta sempre se destacaram por formar craques. Na atual temporada, porém, enquanto o Bugre luta para não cair à Série C, a Macaca tenta evitar o descenso para a segunda divisão.

Sempre uma forte referência nacional, o futebol paulista vê desde 2001 uma queda no número de representantes na elite. Naquele ano, nove equipes (Botafogo-SP, Corinthians, Guarani, Palmeiras, Ponte Preta, Portuguesa, Santos, São Caetano e São Paulo) representaram o estado.

Atualmente com seis times na Série A (Corinthians, Palmeiras, Ponte Preta, Santos, São Caetano e São Paulo), os paulistas vivem o risco, mesmo que remoto, de iniciar 2007 com apenas três clubes na primeira divisão. Isso porque Ponte Preta, Corinthians e São Caetano estão em posição incômoda na tabela e lutam contra o descenso este ano - o time do ABC paulista é o que tem mais chances de cair.

"Dentro de dez anos, isso pode piorar ainda mais. As cotas do Clube dos 13 para os times menores são apenas migalhas, a televisão tira o torcedor do estádio e tudo está cada vez pior. Daqui a pouco os clubes não terão mais como fazer futebol", disse José Roberto de Souza, o King, diretor de futebol amador da Ponte Preta.

Falta de dinheiro, ausência de revelações e seguidas más administrações fizeram com que a fama campineira de antigamente desse lugar a categorias de base sem investimento e a uma luta perdida contra os empresários de jogadores.

"Os clubes fazem um investimento, mas são os empresários que ganham o dinheiro. Não tem como lutarmos contra isso. Os jogadores têm na cabeça que os empresários são a razão do sucesso, quando na verdade sem um time eles não são nada", declarou João Roberto Secco, diretor de futebol amador do Bugre.

Em dia de dérbi entre Guarani e Ponte Preta, Campinas pára. A rotina da cidade é alterada e o assunto principal e mais importante para os campineiros passa a ser aquele clássico. Embora o clima seja de festa, com altas doses de rivalidade, infelizmente existe lugar para a guerra entre as torcidas.

A briga, porém, será a única coisa que não fará falta na próxima temporada, quando é quase certo que não haverá nenhum dérbi. Com o rebaixamento do Guarani para a Série A-2 do Campeonato Paulista, a única chance de acontecer um clássico em 2007 é se a Ponte Preta cair para a segunda divisão nacional e o Bugre permanecer nela.
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Apontados pelos dirigentes como os principais culpados pelas dificuldades que assolam grande parte dos clubes brasileiros na formação de atletas, os empresários ficam indiferentes às críticas. Wagner Ribeiro, agenciador de Kaká, Robinho, entre outros, sugere que os clubes de Campinas se preocupem com uma melhor administração.

"O Guarani e a Ponte Preta não podem se preocupar nesse momento em revelarem jogadores. Eles precisam de atletas mais experientes para sair da crise que vivem atualmente nas competições que disputam", comentou Ribeiro.

Antes de chegarem a essa situação calamitosa, Guarani e Ponte Preta não só revelaram consagrados craques, como viram alguns deles chegar à seleção brasileira. Foi no Brinco de Ouro, por exemplo, que despontaram Careca, Neto, Luizão, Amoroso, Elano, Renato, ex-Santos, entre outros. Do Moisés Lucarelli também saíram boas revelações, como Dicá, Oscar, Luís Fabiano, Fábio Luciano, Rodrigo, ex-São Paulo...

Será que a fonte de craques secou? Na visão do administrador das categorias de base do Guarani, Luiz Henrique, o Pezão, sim. Para ele, o sumiço dos "campinhos de rua" ajudou a acabar com a formação de grandes jogadores. E mais: o dirigente defende que no futebol atual o aprimoramento físico superou a técnica.

"Os craques sumiram por falta de campinhos, que foi provocada pela verticalização das cidades. Onde existiam locais para as crianças jogarem bola, hoje vemos prédios. E não dá para esperar que as escolinhas formem craques, porque há uma restrição financeira. Além disso, atualmente é mais físico do que técnica", finalizou Pezão.

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