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Ezequiel, xodo da Fiel.
12h39 15/02/2005

Ezequiel luta para vencer angústia e voltar ao futebol

Aos 42 anos, ex-ídolo do Corinthians ensaia frustrado retorno como jogador e sonha com a carreira de técnico.

Renato Chu, especial para o Pelé.Net

SÃO PAULO - No futebol, a maior parte dos ídolos é formada por jogadores que esbanjam habilidade, driblam bem e fazem muitos gols. No Brasil, é o caso de Robinho e de Tevez, atualmente. Não era, entretanto, o de Ezequiel, um dos principais símbolos da raça corintiana na primeira metade da década de 90. Em Campinas, onde leva uma vida no ostracismo e sem luxos, o ex-jogador luta para reencontrar o ambiente onde outrora conseguiu o apelido de xodó.

Aos 42 anos, Ezequiel Ataliba nem tenta esconder que o seu desejo mesmo é voltar ao mundo da bola. "Eu já nasci no futebol. Não tem mais como sair, já criou raiz. É o que eu sempre soube fazer e não tem jeito", revela o volante logo no início de sua entrevista a esta coluna.

O mais próximo de seu sonho que Ezequiel conseguiu até agora foi o cargo de segundo-auxiliar, na mesma Ponte Preta, logo que se aposentou como jogador, em 2001, aos 38 anos. O estágio acabou em 2003, quando, sob a justificativa de corte de gastos, o clube campineiro o dispensou.

A partir de então, o ídolo corintiano começou a patinar em uma série de bicos tão distantes da bola quanto o trabalho de entregas de remédios. "Foi difícil, tinha que ir me virando, raspando o tacho mesmo", admitiu.

Atualmente, Ezequiel dá aulas em uma escolinha de futebol em Campinas, onde, com outros dois professores, divide os treinos dos cerca de 80 candidatos a boleiros, entre 5 e 17 anos. Para seu nome, a escola, montada por um vereador local, toma-lhe emprestado a fama obtida no alvinegro paulista: "Xodó da Fiel".

O trabalho, porém, não é suficiente para lhe suprir a angústia de estar longe da bola. Com saudades do futebol profissional, neste ano Ezequiel chegou a se arriscar em um estranho retorno como jogador pelo Serc (Sociedade Esportiva Recreativa Chapadão), do Mato Grosso do Sul, comandado pelo também ex-jogador do Corinthians Zé Eduardo.

"Apesar da idade, você tem uma noção de tudo. Você não está no mesmo pique que os outros, mas tem experiência e sabe ficar com a bola no pé. Fiquei quase um mês lá", explica Ezequiel.

"Sei lá por quê, depois vieram achando que eu tinha 36 anos. 'Mas eu tenho 42', falei. 'Pôxa, então desculpe, foi um mal-entendido mesmo. Sua idade está um pouco acima. Não que com isso você seja um mal jogador, mas, se você chega a uma certa idade e ganhando mais do os outros jogadores, fica difícil', eles falaram".

Mesmo com a duração de pouco mais de duas semanas, o reencontro com a bola bastou para convencê-lo de que, como jogador, não dá mais. "Essa experiência foi suficiente para sentir que essa fase já passou. É só para pessoa jovem, que está correndo. Tem que manter o nível do futebol brasileiro. Isso tem que ser feito por outros", admitiu.

Com a mesma humildade que mostrava quando era o jogador que substituía Neto ao longo dos jogos no Campeonato Brasileiro de 1990, Ezequiel não projeta planos ousados a curto prazo. No momento, suas esperanças se concentram na possibilidade de comandar uma equipe do interior paulista na próxima Taça São Paulo de juniores.

Saudades
Com um estilo que não era dos mais "afinados", Ezequiel conquistou a torcida alvinegra no período em que esteve no Parque São Jorge, entre 1990 e 1996. Símbolo da raça e do "futebol operário" mostrado pelo Timão nesta época, ainda era um dos atletas mais aguerridos e dedicados quando deixou a equipe, aos 34 anos.

"Tudo o que aconteceu comigo de bom foi no Corinthians. Peguei uma fase boa. Não que nos outros eu tenha deixado a desejar, mas o Corinthians foi onde fui melhor", lembra o ex-volante.

Questionado sobre as razões de ter se tornado um dos maiores ídolos dos torcedores alvinegros nesta época, Ezequiel reage com uma resposta "na ponta da língua":

"O jogador não precisa ser bonito. Tem que fazer o trabalho dentro de campo. Eu colocava a minha vida aqui dentro. Se alguém, algum dia, fosse colocar alguma coisa a meu respeito, poderia falar fora de campo. Porque dentro eu sempre fui um jogador para ajudar o grupo, e a torcida via isso".

Ezequiel recorda que, em mais de um momento, aproveitou da influência e da pressão que a torcida exercia sobre a diretoria do clube do Parque São Jorge para apressar a renovação de seu contrato.

O bom relacionamento com os outros atletas também permanece forte na lembrança do ex-jogador. "Quando eu e o Ronaldo (goleiro) jogávamos juntos, discutíamos direto. Eu jogava na defesa e ele não queria levar gol, e, por isso, às vezes brigávamos mesmo. Mas era só dentro de campo. Fora, cansei de fazer brincadeiras. Éramos eu, ele, o Viola, o Paulo Sergio, o Fabinho... Tinha dia que o pessoal vinha dar dura na gente, mas era tudo brincadeira saudável. Quantas vezes acordei amarrado na cama e acabava perdendo o café... Mas, depois, eu também pegava um por um".

"Daquela época, só fica a saudade. Eu não chego a ficar frustrado, mas a vontade de jogar é muito grande. É uma coisa que vai passar... Mas, graças a Deus, eu sinto que tenho o dever cumprido".

Cervejinha
Um hábito que Ezequiel não encerrou após se aposentar foi o de tomar sua cerveja. "Todo jogador gosta de tomar uma cerveja e eu não sou diferente. Sempre tomei, mas nunca assim, uma coisa que fosse além do que podia", assegurava.

Na opinião do volante, a fama de "amigo do álcool" tem uma razão. "Eu nunca escondi nada de ninguém. Por isso mesmo, o pessoal comentava. Se eu fosse na Gaviões (da Fiel, torcida organizada e escola de samba), tomava cerveja. Depois do treino, também tomava uma. Não vou dizer que é legal para todo mundo. Mas eu sempre gostei de beber".

Atualmente, um dos encontros preferidos de Ezequiel com a cerveja ocorre semanalmente, após uma partida de futebol society que, religiosamente, disputa com amigos campineiros.

Passando o bastão
Enquanto não consegue voltar ao futebol profissional, agora como técnico, Ezequiel se contenta em ver dois de seus filhos tentarem seguir sua carreira. Hellen (10 anos) e Gabriel (7) também tomaram gosto pelo esporte e treinam no Guarani.

"São bons jogadores. A gente espera que um dia possa acontecer. O pessoal dá o apoio, mas eu fico com o pé atrás. De repente muda a cabeça e eles querem fazer outra coisa...", ressalva o ex-volante, pai também de Leandro (21 anos), Aline (19), Juliana (17), Daniele (15) e Lucas (9).



  O jogador não precisa ser bonito. Tem que fazer o trabalho dentro de campo. Eu colocava a minha vida aqui dentro (do Corinthians)
Ezequiel, que dá aulas de futebol na escolinha Xodó da Fiel.
Ezequiel Ataliba, 19/05/1962

Clubes
- Ponte Preta (82 e 83)
- Saltense (1982)
- Ituano (1984 a 1990)
- Corinthians (1990 a 96)
- Lousano Paulista (1996) - Ponte Preta (96 a 01)

Títulos
- Paulista da A2, Ituano (1990)
- Brasileiro, Corinthians (1990)
- Paulista, Corinthians (1995)
- Copa do Brasil, Corinthians (1995)







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