09h00 25/01/2008

Nivaldo, o lateral que virou anjo da guarda dos boleiros

Conhecido pela cabeleira loira e ídolo de quatro torcidas em Portugal, jogador hoje é empresário de futebol

Márcio Markman, especial para o Pelé.Net

RECIFE - No Brasil, nos primeiros anos de carreira, o lateral-esquerdo Nivaldo era conhecido pela vasta cabeleira loira, que fazia dele uma espécie de sósia de outro jogador da posição, Marinho Chagas. Com vinte e poucos anos, já ostentando uma calvície precoce, Nivaldo ganhou a vida com futebol em Portugal, onde virou ídolo de quatro torcidas, inclusive da maior do país, a do Benfica. Hoje em dia, Nivaldo Gomes da Silva, aos 49 anos, usa a sua experiência no futebol para cuidar da carreira de outros jogadores, como empresário do futebol.

Nivaldo iniciou a carreira no União Futebol Clube, em sua cidade-natal, Ferreiros, no interior de Pernambuco. Aos 16 anos, em 1975, foi para o Sport Club do Recife, para realizar um teste na equipe de juniores. "Veja que coincidência. Hoje faz exatamente 33 anos que eu cheguei ao Sport, para aquele teste", comentou, ontem, enquanto concedia a entrevista para a equipe do Pelé.Net.

O bom futebol, já maduro, logo chamou a atenção do técnico Ênio Andrade, que dois anos depois o lançou como profissional. Já no primeiro ano, veio o título do Campeonato Pernambucano. No ano seguinte, o Sport briga com a Federação Pernambucana de Futebol e decide não disputar o Estadual. Com isso, vários jogadores são emprestados e Nivaldo ruma para a Portuguesa Santista.

Após uma boa temporada em Santos, o lateral desperta o interesse do Cruzeiro. "Eu nem cheguei a me reapresentar no Sport. O Cruzeiro me viu jogar e pediu o meu empréstimo ao Sport, por um ano. Em troca, cedeu os jogadores Flamarion, Jarbas e Luís Cosme", relembrou.

No Cruzeiro, Nivaldo foi titular na equipe que tinha o lateral-direito Nelinho e os atacantes Roberto César e Joãozinho, entre outros. Mas, após a derrota para o rival Atlético na decisão do título mineiro, retornou para o rubro-negro pernambucano.

No Sport, só ficaria novamente por pouco tempo. Depois de sagrar-se campeão estadual e disputar o Campeonato Brasileiro de 1980, Nivaldo foi negociado com o Vitória de Guimarães, de Portugal. Começava uma saga que durou nada menos que 11 anos do futebol português, com passagens por quatro equipes, entre elas uma das maiores forças do futebol mundial.

Pelo Vitória de Guimarães, Nivaldo talvez tenha vivido a sua melhor fase. Era uma equipe mediana, que nunca chegou a conquistar o título nacional, mas que sempre dava trabalho aos grandes e frequentemente conseguia a classificação para os torneios europeus. "Eu cheguei em Portugal e meu futebol explodiu. Logo os grandes clubes quiseram me contratar. Tive propostas do Benfica, do Porto, do Atlético de Madri e de um clube da Áustria", contou. Mas, apesar do assédio, permaneceu por quatro temporadas em Guimarães.

Não foi uma decisão à toa. Naquela época, o jogador Nivaldo já tinha a visão do hoje empresário de futebol, Nivaldo Gomes. "Teve uma vez em que eu cheguei a viajar para acertar com o Benfica. Passei um dia inteiro reunido com o presidente Fernando Martins, que era o 'Todo Poderoso', em um hotel cinco estrelas que ele tinha. Recusei a proposta porque ela não era boa e voltei ao Vitória. Dois anos depois, quando meu contrato havia acabado, o Benfica me chamou novamente e dessa vez eu aceitei, pois o dinheiro que, dois anos antes, teria que ser repartido com o Vitória, foi usado no meu contrato", explicou.

Vestindo a camisa rubra do Benfica, Nivaldo conquistou um título português, em 84/85, e uma Copa de Portugal, na temporada seguinte. "Foi a realização de um sonho, estar no maior clube de Portugal. O Porto passou a dominar o futebol português a partir dos anos 90, mas o Benfica ainda tem mais títulos e tem muito mais torcedores. O clube tem uma mística que é algo que não tem explicação. Quando eu jogava lá, o time era a base da seleção portuguesa", afirmou.

No maior time do futebol lusitano, o pernambucano de Ferreiros pôde disputar a maior competição interclubes do planeta, a Copa dos Campeões da Europa, hoje rebatizada de Liga dos Campeões. "É uma competição organizadíssima. Parece que você está em outro mundo. Não tem nada a ver com a Libertadores. O mundo toda acompanha. É um evento que, além de muito divulgado, também tem um nível muito bom".

Por ironia, justamente a temporada em que Nivaldo disputou a Liga com o Benfica, o torneio foi marcado por um episódio extra-campo, que nem a organização e logística praticamente impecável do evento conseguiu controlar. Na decisão do título, no estádio de Heysel, na Bélgica, 39 torcedores foram mortos, após uma confusão provocada pelos torcedores do Liverpool, que disputaria a final com a Juventus. "Naquele ano, nós fomos eliminados pelo Liverpool, que depois perderia a final para a Juventus", rememorou.

Após dois anos, Nivaldo se transferiu para o Portimonense, onde conseguiu classificar o time para a Copa da Uefa. Depois de quatro temporadas, o pernambucano se transferiu para o União de Leiria, onde encerrou a carreira como jogador, aos 33 anos, em 1991.

Era hora de voltar ao Brasil. Com o dinheiro que conseguiu juntar com o futebol, Nivaldo abriu uma agência de turismo, que já existe há 15 anos. Mas não demorou muito até que a ligação com o futebol fizesse com que ele voltasse a atuar dentro do esporte.

Os 11 anos de Portugal deram ao ex-lateral-esquerdo um grande crédito junto aos dirigentes e empresários. "O pessoal me ligava muito para pedir informações sobre determinado jogador. Os portugueses sempre confiaram muito em mim". Assim, de tanto indicar jogadores, acabou assumindo a administração da carreira de alguns e, há dois anos, tornou-se um agente Fifa credenciado.

Como empresário, ele diz poder ajudar a vários jovens jogadores que possuem uma história de vida parecida com a dele e que, ao contrário do próprio Nivaldo, têm a oportunidade de contar com alguém para ajudar a cuidar das finanças e da carreira. "Eu vim de uma base muito pobre e não tinha ninguém para me orientar. Joguei por 17 anos e nunca fui empresariado por ninguém. Eu mesmo negociava com os clubes e era chato para fechar negócio. Eu sabia do meu potencial e não aceitava qualquer coisa. Isso me deu uma base muito boa. Nunca fiquei um único dia desempregado", declarou.

Hoje em dia, ele é empresário, pai, avô, amigo, psicólogo, administrador e, como ele mesmo diz "babá" de alguns dos seus empresariados. "Eu confesso que isso é algo com o qual eu quebro a cabeça. É difícil para o jogador passar essa fase de transição entre a pobreza e estar ganhando R$ 40 mil do dia para a noite. Às vezes o sonho do jogador é um carrão e aí começam a aparecer as mulheres, que é algo comum no meio do futebol. Eu tenho que ter uma relação de pai pra filho e muitos deles realmente me chamam de pai", garantiu.

Essa afinidade com os jogadores faz com que Nivaldo mantenha longas relações de trabalho. A maioria dos atletas com quem trabalha já está com ele há bastante tempo. Geraldo, meia do Náutico, é o que está há mais tempo - onze anos. Outros empresariados são o atacante Jadilson (oito anos), e o volante Everton (quatro anos), ambos do Sport, o volante Tozo, que está no futebol da Turquia, o meia Wellington, do Atlético-PR, e os zagueiros Onildo e Fábio Silva, do Náutico.

O sósia
Na parede do escritório do hoje empresário de futebol Nivaldo Gomes, estão penduradas uma série de fotografias do tempo em que ele atuava dentro dos gramados, como lateral-esquerdo de equipes como Sport, Cruzeiro e Benfica. Em uma das molduras, está uma reportagem do "Jornal do Commercio", do Recife, em que, ao lado de uma foto de Nivaldo, aparece uma de Marinho Chagas e a menção sobre a semelhança física entre os dois jogadores.

Nivaldo passou por várias situações engraçadas por ser uma espécie de sósia do ex-jogador do Botafogo, Fluminense, Náutico e Seleção Brasileira. "Onde eu andava as pessoas pediam autógrafos, achando que eu era Marinho. Uma vez, em Salvador, foi até chato. Uma menina queria que eu desse o autógrafo de todo jeito e eu dizia que não era o Marinho. E ela me chamava de mascarado, achando que eu era ele e não queria dar o autógrafo", relembrou.

Outra situação parecida Nivaldo viveu no Rio de Janeiro. Ele estava no Leme, em um bar que era freqüentado por jogadores de futebol e artistas e o ator João Carlos Barroso, o Tavico, de "Estúpido Cupido", o perseguiu, chamando-o de Marinho. "Ele era muito amigo do Marinho e eu estava indo ao banheiro quando ele começou a gritar. 'Marinho, Marinho'. Eu ia andando e ele veio atrás, até que quando ele chegou perto eu disse que não era o Marinho e ele me pediu mil desculpas", contou.

O pernambucano nunca chegou a falar sobre o assunto com o sósia potiguar. "Nós jogamos contra algumas vezes. Mas eu sequer cheguei a falar com ele. Foi só coisa de jogo mesmo", afirmou Nivaldo.



  Eu confesso que isso é algo com o qual eu quebro a cabeça. É difícil para o jogador passar essa fase de transição entre a pobreza e estar ganhando R$ 40 mil do dia para a noite. Às vezes o sonho do jogador é ter um carrão. Então começam a aparecer mulheres, que é algo comum no meio do futebol. Eu tenho que ter uma relação de pai pra filho e muitos deles realmente me chamam de pai
Ex-lateral Nivaldo atuou por grandes equipes, como Sport, Cruzeiro e Benfica, e hoje administra a carreira de jogadores de futebol.
Nivaldo Gomes da Silva

02/08/1958

Ferreiros -PE

Times
- Sport (1975 a 1978, 1980)
- Portuguesa Santista (1978 e 1979)
- Palmeiras - 1991
- Cruzeiro (1979)
- Vitória de Guimarães (1980 a 1983)
- Benfica (1984 a 1986)
- Portimonense (1987 a 1990)
- União de Leiria (1990 e 1991)
Títulos
- Pernambucano (77 e 80, Sport)
- Português (84/85, Benfica)
- Copa de Portugal (85/86, Benfica)





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