08h17 01/04/2008

Turcão, quase 82, admite "palhinha" como comentarista

Ex-lateral de Palmeiras e São Paulo adora futebol e, com argumentos firmes sobre o mundo da bola, não nega que gostaria de dar seus 'pitacos' como comentarista

Ricardo Zanei, especial para o Pelé.Net

A CARREIRA DE TURCÃO
Ricardo Zanei/UOL Esporte

A carreira começou em 1942, ainda no juvenil do Palmeiras. Até hoje, o ex-lateral não entende o motivo da saída do Palestra Itália. "Tinha acabado me casar e ser campeão pelo Palmeiras. Fui discutir o contrato com o 'seo' Mário Frugiuele. Ele ofereceu para o Sarno, que veio do Botafogo, 20 contos por mês. Para mim, ofereceu 8. Eu era campeão de 1947, campeão de 1950, falei para ele me dar uns 14, 15. Ele me abraçou e disse 'você é como um filho para mim, vai para casa, amanhã nós conversamos'. Fui para casa e, à noite, chegaram os diretores do Guarani com meu passe na mão. Por que ele fez isso? Até hoje, não sei. Imagina se eu não fosse como um filho para ele", ironizou.

Turcão atuava como lateral esquerdo e direito, mas admite que a paixão era o miolo de zaga. "No Palmeiras, me destaquei como central. Não é ser mascarado não, mas eu acabava com o jogo."

Dois meses após deixar o time alviverde, Turcão estava no São Paulo, no qual ficou até 1957, quando uma lesão no joelho abreviou sua carreira. "Eles me aceitaram logo de cara porque eu mostrava serviço", disse. "O São Paulo foi uma mãe para mim. Não posso me queixar de nada de lá e nem do Palmeiras. Não tenho mágoa nenhuma dos dois", afirmou o ex-lateral.

Mesmo em uma época em que zagueiro era zagueiro e pouco cruzava a linha central, Turcão também se destacou pelos gols. Foram seis pelo Palmeiras (181 jogos, 103 vitórias, 42 empates e 36 derrotas, segundo o Almanaque do Palmeiras) e 36 no São Paulo, sendo 31 em cobranças de pênaltis (215 jogos, com 121 vitórias, 42 empates, 52 derrotas, de acordo com o Almanaque do São Paulo). "Fazia muitos gols porque treinava muito, batia muito bem na bola. Batia falta, pênalti. Eu resolvia mesmo."

Filho de libanês com uma "espanholinha braba que só ela", Turcão, aposentado após passagens por empresas como Kibon e Ki-Refresco, curte a vida ao lado da mulher na capital paulista. Ao contrário de muitos contemporâneos dos tempos de futebol, não convive com problemas financeiros. "Não fiquei rico. O que a gente ganhava naquele tempo dava para comprar uma casa e olhe lá, mas não me falta nada. Trabalhei bastante, consegui educar os meus filhos. A gente nunca está realizado, sempre falta alguma coisa, mas estou feliz com a minha vida. O importante é isso."
SÃO PAULO - Alberto Chuari, o Turcão, não aparenta a idade que tem. Alto, forte, perto dos 82 anos (que serão completados no dia 24 de maio), ainda ostenta o porte físico dos tempos de zagueiro e lateral. Gosta de contar histórias e de falar sobre futebol. Gosta tanto que, mesmo afastado dos gramados há mais de 50 anos, admite dar uma "palhinha" como comentarista.

"Eu pensei nisso, mas nunca me fizeram uma proposta. Quem sabe, se me fizessem, eu poderia fazer um teste. Modéstia à parte, acho que, o que eles comentam lá, eu também poderia comentar. Futebol é comigo mesmo", disse Turcão. "Minha mulher fica louca da vida porque eu falo quanto vai ser o jogo", brincou.

O ex-jogador de Palmeiras, de 1942, ainda amador, a 1951, e São Paulo, de 1951 a 1956, chegou a namorar a profissão de treinador. "Quando parei, o Botafogo de Ribeirão Preto me fez uma proposta, mas eu não quis. Era muito incerto, e minha mulher me pediu para não ser, então, preferi trabalhar. Ganhei menos, mas sou feliz para burro."

Mesmo assim, depois de aposentar as chuteiras precocemente por causa de um problema no joelho, Turcão teve uma experiência no banco de reservas. "Fui auxiliar técnico do Bela Gutman em 1957, no São Paulo. Acho que ele foi o melhor técnico. Ele dava fundamentos, insistia todo dia. Nunca vi ninguém igual, ele era fora de série."

Os anos de futebol, dentro e fora de campo, fizeram com que o ex-lateral tivesse uma visão clara de como funciona o mundo da bola. Mesmo sem perceber, em um bate-papo informal, ele já mostra como seria o Turcão na versão comentarista.

"Fundamento é tudo. Não vou citar nome, mas a maioria dos jogadores chuta mal. Vejo o cara chegar na marca do pênalti e mandar a bola na arquibancada. Ele não teve fundamento. É obrigação, depois do treino, ficar batendo bola com o goleiro. Fico revoltado, porque jogador não treina, mas isso não é só com o brasileiro, é no mundo inteiro."

O ex-lateral alfineta a maneira como o "jogo é jogado" atualmente. "Não faço comparação entre os jogadores antigos e os de hoje, mas o sistema está errado. Tinha de ser 4-2-4, esse é o futebol para sair espetáculo. Hoje, fica tudo no meio-campo, não sai jogo, não sai gol", afirmou Turcão.

"O que manda no futebol é a defesa. Tudo que é treinador põe 50 no meio, você não tem mais pontas abertos. Sou saudosista, futebol bonito era o de antigamente. O jogo era aberto, você podia fazer três gols e tomar três. O jogador, hoje, está preso ao sistema e não consegue fazer nada. Goleada de 4 a 0 é milagre, não é?", indagou.

HISTÓRIAS E OPINIÕES
MUNDIAL DE 1951
"Esse era Mundial. Campeão do mundo foi o Palmeiras, que jogou contra cinco times espetaculares."
TROCO NO DIRIGENTE
"Deus é grande. Dois ou três meses depois, São Paulo x Palmeiras. Bati uma falta na meia-direita, uma paulada, ela entrou. Ainda passei a bola para os outros dois gols. Mas o mundo é pequeno: eu estava saindo do Pacaembu e quem sai das numeradas? Mário Frugiuele. Ele me olhou e falou: 'bonito o que você fez, hein'. Eu falei 'bonito é o que o senhor fez comigo, dedico o gol que eu fiz para o senhor'. Nunca mais falei com ele."
OS MELHORES
"Como goleiro, foi o Oberdan Catani, nunca vi nada igual. Como jogador, o Waldemar Fiúme. Foi a maior injustiça, era um jogador extraordinário, fora de série, e nunca foi para a seleção."
CORINTHIANS
"Gostaria de ter jogado lá por causa da torcida. São fiéis, como o nome diz. Faltou o Corinthians."
Para Turcão, a marcação está acabando com o encanto do esporte. "Cadê o habilidoso? Quem pode ser, não consegue. Antigamente, aparecia o futebol. Agora, o jogador está tolhido, preso, porque tem sempre três na marcação. Como é que ele faz para jogar?", disparou.

Outro ponto criticado pelo ex-jogador é o trabalho dos treinadores. "Quantos técnicos tem em São Paulo? Uma porção. Por que o 'tico-tico no fubá' não é campeão brasileiro? Tem um treinador lá, não é? Eu não acredito em treinador. Ele precisa fazer um bom ambiente e ter, principalmente, jogadores. Todo treinador com um elenco ruim é mandado embora antes de um mês. Por que todo técnico inteligente, quando chega num time, já pede para contratar quatro ou cinco?", alfinetou o ex-jogador.

"Eu combato o sistema, mas os treinadores todos fazem isso. Os jogadores estão tolhidos de fazer coisa melhor, não existe criação. Mas quem que vai mudar a mentalidade dos treinadores? Não mudam, eles não querem perder. Quem, no meu tempo, falava que o empate seria ótimo? A gente partia para cima e o outro time partia para cima da gente. Era tudo aberto, seu time podia perder, mas você saía de lá satisfeito", completou Turcão, já com jeitão de comentarista. Falta o convite.



  Eu marquei o Garrincha duas vezes e não quero me lembrar. Ele era muito habilidoso e passava por mim. Conversei com ele e falei 'não faz palhaçada comigo, hein, passa, vai embora, se não você vai ver'. Mas ele não fez palhaçada comigo. Perdemos o jogo do Botafogo duas vezes, mas eu não gostava de jogar contra ele. Já o Leônidas tinha uma velocidade impressionante. Marquei ele duas vezes. O 'Diamante Negro' não fez gol, mas era perigosíssimo. Você bobeava, ele chegava primeiro que você
Tucão, ex-zagueiro de Palmeiras e São Paulo, sobre os principais rivais que enfrentou nos gramados
Alberto Chuari

24/05/1926

São Paulo

Times
- Palmeiras
- São Paulo
Títulos
- Campeão Paulista: Palmeiras (1944, 1947 e 1950) e São Paulo (1953)





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