


|



08h29 04/05/2007

Decisão no Rio coroa longevidade dos técnicos de Bota e Fla

Bom relacionamento com as diretorias e boas campanhas fazem com que Cuca e Ney Franco completem um ano à frente de suas equipes.

Pedro Neville, especial para o Pelé.Net * RIO DE JANEIRO - Completará um ano, neste mês de maio, desde que Botafogo e Flamengo anunciaram pela última vez a contratação de um novo técnico. Depois disso, os resultados obtidos pelas equipes agradaram às diretorias, que decidiram mantê-los na virada de temporada. E a recompensa por essa confiança será a presença dos dois clubes na decisão Campeonato Estadual do Rio de Janeiro de 2007, neste domingo.
"Os dois treinadores já conhecem a fundo os seus clubes e estão colhendo os frutos. As conquistas [da Taça Guanabara pelo Flamengo e da Taça Rio pelo Botafogo] têm a ver com isso. Os dois clubes desenvolveram trabalhos de qualidade", explicou o comandante rubro-negro Ney Franco.
Semelhantes (na idade e no status no cenário profissional), Cuca, 43 anos, e Ney Franco, 40, conseguiram feitos raros em General Severiano e na Gávea (respectivamente). Apenas Levir Culpi, no Botafogo de 2003/2004, e Zagallo, no Flamengo de 2000/2001, permaneceram tanto tempo à frente dos dois clubes recentemente.
ZAGALLO APROVA AMBOS
| Pela entrega que sempre demonstrou aos dois clubes, seja como jogador ou técnico, Zagallo tornou-se ídolo das torcidas de Botafogo e Flamengo. Afastado do futebol desde que se desligou da seleção brasileira, depois da Copa de 2006, o ex-treinador apontou Cuca e Ney Franco como dois dos melhores profissionais no mercado atualmente.
Esse último pode ser apontado como seu "substituto" no Flamengo. Afinal, depois que Zagallo deixou a Gávea, em 2001, apenas Franco conseguiu dar um título nacional ao time rubro-negro, a Copa do Brasil, assim como fizera o antigo técnico, com a Copa dos Campeões de 2001.
Além disso, o atual comandante também foi o único, nos últimos anos, a repetir Zagallo e permanecer pelo menos um ano no cargo. "O Ney tem feito um bom trabalho no Flamengo, o mesmo que já vinha mostrando em Minas Gerais, quando dirigia o Ipatinga-MG", opinou Zagallo.
Quanto a Cuca, os principais elogios foram em relação à conduta que o treinador tem com seu elenco. "Ele é ponderado e inteligente. Além disso, sabe trabalhar bem os jogadores. Gosto muito dele", completou o tetracampeão mundial.
No "muro", Zagallo evita apontar um favorito para a decisão deste domingo. Tampouco revela para quem irá torcer. "Quero que dê empate [risos]. A partida vai ser muito equilibrada. Apesar de o Botafogo estar jogando melhor, o time do Flamengo sempre apresenta muita raça, o que equilibra tudo", avaliou. | Como rege o antigo chavão, "futebol é resultado". Portanto, a receita para a longevidade foi a obtenção de conquistas expressivas. Assim que chegou, Ney Franco obteve a Copa do Brasil de 2006. Em 2007, levantou a Taça Guanabara e passou com folgas pela fase classificatória da Copa Libertadores.
Já Cuca livrou o Botafogo da ameaça de rebaixamento no ano passado e, no mesmo Brasileirão, classificou o time para a Copa Sul-Americana. Em 2007, chegou tão longe na Copa do Brasil como jamais a equipe havia alcançado nas edições anteriores, além de erguer seu primeiro troféu com técnico, o da Taça Rio.
No entanto, além deste fator principal (resultado), outros motivos podem ser apontados para a extensa permanência dos treinadores. A serenidade para encarar situações complicadas é marca de ambas as partes, tal como a constante simplicidade com a qual atendem a imprensa e os torcedores.
Mais relevante do que isso, o que prende os dois treinadores aos clubes é a boa relação com as cúpulas, alcançadas com o fundamental "jogo de cintura". No caso de Cuca, os laços são tamanhos que o vice de futebol Ricardo Rotemberg prefere não lhe definir apenas como um técnico, mas um membro da diretoria.
"Trata-se de um sujeito com participação ativa no clube. É humilde para ouvir sugestões, sem deixar, no entanto, de ter personalidade forte e pulso firme", afirmou o dirigente.
Orgulhoso pelo elogio recebido, Cuca aceita o cargo de excelência em General Severiano, mas lembra que sua principal função é fazer a equipe render bem dentro das quatro linhas.
"Procuro atender ao telefone sempre que eles me procuram e já participei de algumas reuniões. Mas o que importa é no campo", disse o técnico Cuca, antes de revelar que teve propostas para deixar o clube no fim do ano: "Eu tinha a possibilidade de me transferir para o futebol árabe quando terminou 2006, mas acreditei na proposta do Botafogo e continuei".
 | Mais do que técnico, Cuca é um membro da diretoria
| | |  | Ricardo Rotemberg, dirigente alvinegro
| Não bastasse ser querido pelo alto escalão, Cuca é admirado também pelos funcionários do clube. Afinal, os salários deles são "pagos" pelo desempenho do técnico e dos atletas.
Isto é, sensibilizado com atraso de dois meses de salários dos empregados, o treinador chamou alguns dos que trabalham no CT de General Severiano para a preleção do jogo contra o Vasco, pela semifinal da Taça Rio.
Para mexer com brio de seus atletas, o comandante lhes disse que com a vitória, a diretoria usaria a bilheteria das finais para pagar os atrasados. "Só fiz a coisa mais simples que um ser humano é capaz. Pedi que meus jogadores corressem pelos funcionários que estavam ali", afirmou o treinador, que viu naquela noite sua equipe buscar um empate emocionante e triunfar nos pênaltis. "Nossa história não poderia ter acabado ali", complementou.
| PERFIL DE CUCA |
|---|
| Nome: Alexi Stival |
|---|
| Data de Nascimento: 07/06/1963 |
|---|
| Local de Nascimento: Curitiba - PR |
|---|
| Retrospecto no clube: 28 vitórias, 19 empates e 12 derrotas |
|---|
| Aproveitamento: 57% dos pontos disputados |
|---|
Trajetória: Como jogador, atuou no meio-campo e foi tetracampeão gaúcho, além de ganhar a Copa do Brasil, sempre pelo Grêmio nos anos 80. Jogou também pelo Internacional-RS, Valladolid (Espanha), Palmeiras, Santos e Portuguesa. Em 1998, começou a carreira como treinador no Uberlândia.
Em seguida, passou por clubes pequenos de Minas, Paraná e Santa Catarina. Em 2003, estreou na Série A do Campeonato Brasileiro com ótima campanha pelo Paraná e se transferiu para o lanterna Goiás, obtendo expressiva recuperação (terminou na nona colocação).
Em 2004 assumiu o São Paulo e chegou à semifinal da Libertadores. Comandou também o Grêmio em 2004 e o Flamengo, Coritiba e São Caetano em 2005. Em 2006, foi para o Botafogo e isolou a ameaça de rebaixamento no Brasileirão, obtendo a classificação para a Copa Sul-Americana.
|
|---|
|
"É bom saber que existe alguém que pensa em nós. Dá um conforto enorme. A contratação do Cuca foi a melhor coisa que poderia ter acontecido ao Botafogo", disse José Machado, administrador do CT de General Severiano.
A preocupação do técnico com os funcionários comoveu a diretoria, certa de que sua manutenção no cargo foi uma decisão perfeita para a temporada. Desse modo, os dirigentes já planejam a comemoração de outros aniversários. A satisfação é tanta que nem mesmo uma derrota neste domingo (e a consequente perda do título) os faria mudar de idéia.
"Ele já demonstrou ter um lado humano impressionante. Além da atitude que teve com os funcionários no vestiário, tomou a iniciativa de oferecer um lugar para o Renato Silva trabalhar, depois que foi dispensado do Fluminense", disse Rotemberg, em alusão ao zagueiro que foi dispensado do rival após ter sido flagrado no exame antidoping.
A unanimidade dos alvinegros fora do campo se estende também ao gramado. Nem mesmo os preteridos do time titular pelo técnico se mostram insatisfeitos. No início da temporada, Lúcio Flávio amargou a reserva até adquirir o preparo físico ideal.
O meio-campista, que hoje atravessa sua melhor fase pelo clube, revela que jamais se desentendeu com o comandante por sentar no banco, uma vez que Cuca mantém um diálogo constante com seu elenco.
"Ele costuma conversar muito conosco, o que é muito positivo. Pelo que eu vejo, evoluiu bastante desde que chegou aqui", afirmou Lúcio Flávio.
Ney Franco e Kleber Leite unidos A relação estreita com a diretoria não acontece somente com Cuca no Botafogo. O rubro-negro Ney Franco também possui laços estreitos com os dirigentes na Gávea, sobretudo com o vice-presidente de futebol Kleber Leite.
 | Encontramos um técnico para seguir vida longa
| | |  | Kleber Leite, dirigente rubro-negro
| Para "praticamente tudo" que o técnico quer, o dirigente faz "praticamente tudo" o que pode. Da Holanda, trouxe o desconhecido Gérson Magrão; de Ipatinga, Leandro Salino, Jaílton e Luizinho; e dos mais variados locais, Kleber Leite contratou uma série de reforços indicados por Ney Franco.
Em troca, o vice de futebol elaborou ao lado do técnico um planejamento que vem sendo seguido à risca nesta temporada. Ou seja, com a conquista da Taça Guanabara, o Flamengo garantiu lugar na decisão do Estadual e "esqueceu" o segundo turno para focar na Libertadores, na qual obteve a segunda melhor campanha na fase classificatória entre os 32 participantes (perdeu o primeiro jogo das oitavas-de-final para o Defensor, no Uruguai, por 3 a 0).
Para coroar a estratégia, faltam apenas os títulos de ambas as competições. Satisfeito com o desempenho do time sob a batuta de Ney Franco, Kleber Leite já prepara um novo "planejamento": segurá-lo no cargo por mais tempo possível.
"Estamos muito felizes com ele. O Ney é um profissional extraordinário, uma figura humana maravilhosa, um companheiro leal. Acertamos na mosca, modéstia à parte. Encontramos um técnico para estabelecer vida longa", afirmou o dirigente.
| PERFIL DE NEY FRANCO |
|---|
| Nome: Ney Franco da Silveira Junior |
|---|
| Data de Nascimento: 22/07/1966 |
|---|
| Local de Nascimento: Vargem Alegre - MG |
|---|
| Retrospecto no clube: 30 vitórias, 11 empates e 19 derrotas |
|---|
| Aproveitamento: 57% dos pontos disputados |
|---|
Trajetória: Formado em Educação Física pela Universidade Federal de Viçosa, trabalhou por três anos como preparador físico nas divisões de base do Atlético-MG.
Como treinador, ficou nove anos nas divisões de base do Cruzeiro, indo do infantil aos juniores. Dirigiu interinamente o time profissional do Cruzeiro em oito partidas. Em 2005 foi para o Ipatinga, ganhou o título Mineiro e terminou como terceiro colocado no Brasileiro da Série C.
Em 2006, ainda no Ipatinga, foi vice-campeão mineiro e semifinalista da Copa do Brasil. Assumiu o Flamengo com o time na decisão da Copa do Brasil em 2006 e conquistou o troféu.
|
|---|
|
Manter o treinador, aliás, já foi tarefa difícil para o vice de futebol. No momento mais crítico de Franco no comando, com intensa pressão pela demissão, Kleber Leite foi um dos principais responsáveis por lhe dar um crédito a mais.
Depois da derrota para o Internacional, no Brasileirão passado, cresceram as chances de caírem o Flamengo e o técnico. Especulava-se que apenas uma vitória no clássico seguinte, justamente contra o Botafogo, seria suficiente para o treinador se sustentar. Naquele momento, a diretoria lhe deu respaldo para trabalhar, aliviando Ney Franco, que obteve a vitória sobre o rival por 2 a 0, depois de quatro partidas sem triunfar.
"No ano passado, tive uma semana turbulenta. E, coincidentemente, precisávamos nos reabilitar contra o Botafogo. Após uma derrota para o Internacional, toda a imprensa noticiou que se o Flamengo não ganhasse o clássico, eu cairia. O Kleber me passou calma", explicou Ney Franco.
Para seguir tendo tranqüilidade no clube, o comandante acredita que basta levar a equipe a superar o rival neste domingo. O técnico que sair vencedor no duelo, entende Ney Franco, se consagrará definitivamente no cenário nacional.
"Esse título vai representar muito para quem triunfar, porque estamos num momento de construção das nossas carreiras", finalizou.
* Colaboraram Vinícius Barreto Souto e Cizenando Cipriano UOL Busca - Veja o que já foi publicado com a(s) palavra(s)
|
 |
|

|