11h09 07/05/2007

Reservas e 'intocáveis' travam 'batalhas' no futebol carioca

Em 'times sem titulares' disputa por vagas geram discussões, protestos e até demissões nos grandes clubes do Rio de Janeiro.

Leonardo Velasco, especial para o Pelé.Net

RIO DE JANEIRO - O discurso dos técnicos é sempre parecido: "No meu time não há apenas 11 titulares". Porém, a distância entre intocáveis e reservas parece aumentar cada vez mais no Rio de Janeiro. Prova disso é a crise pela qual o Flamengo vem passando no momento, com a saída do meia Juninho Paulista do clube.

Na Gávea, a simples referência ao "Banguzinho" (como os jogadores chamam a equipe reserva) parece uma ofensa gravíssima. Na quarta-feira da semana passada, por exemplo, o meia Renato ameaçou abandonar o clube ao saber que treinaria com o time reserva porque chegou cinco minutos atrasado ao treino.

ABEDI QUER SER TITULAR
Atualmente, ninguém no futebol fluminense encarna o rótulo de 12° jogador melhor do que o meia Abedi, do Vasco. Porém, o jogador de 28 anos parece decidido a mudar este fato com a chegada do técnico Celso Roth.

"Nunca desanimei quando comecei uma partida na reserva. Respeito bastante os meus companheiros, mas trabalho para conquistar a minha vaga na equipe titular. Espero que com técnico novo a história possa mudar", disse o meia.

Durante um ano e nove meses, o jogador teve a confiança do ex-técnico Renato Gaúcho, mas não conseguia a titularidade. Tanto que, em 2007, Abedi atuou em 14 partidas oficiais. O problema é que em apenas seis ele começou jogando. No Estadual do Rio, o meia, que também atuou improvisado como volante e ala, marcou ainda quatro gols. Apesar de ser reserva, o atleta sempre contou com o apoio da torcida, que gritou seu nome diversas vezes.

"Sempre que entro em campo procuro me empenhar ao máximo e por isso conquistei o carinho da torcida do Vasco", analisou o jogador.

No início do trabalho de Celso Roth, Abedi tem conseguido seu objetivo. Nos coletivos realizados em São Januário, o meia tem sido escalado no time titular. Resta saber se, quando o treinador puder contar com os atacantes Leandro Amaral e Romário, o jogador será novamente o escolhido para ser o 12° jogador.

"Se não achasse que tinha condições de ser titular, não estava nem aqui. Ia procurar um outro clube em que tivesse chance", afirmou.
12° JOGADORES FAMOSOS
Outros jogadores do Fla já se revoltaram ao serem tirados da equipe titular pelo técnico Ney Franco. O atacante Roni deixou clara sua irritação ao ficar entre os reservas. No clássico contra o Fluminense, o atleta abriu os braços reclamando do treinador ao ser substituído durante o segundo tempo.

Mais comedido, o volante Claiton ainda não demonstrou publicamente sua insatisfação. O curioso é que o jogador, quando titular, é o capitão rubro-negro. Contra o Botafogo, no entanto, o jogador teria pressionado Ney Franco a não substituí-lo. Isso pode inclusive ter gerado a barracão do meio-campista no confronto com o Defensor, na última quarta-feira, pela Copa Libertadores. Na decisão do Estadual do Rio de Janeiro, ele começou entre os reservas e entrou no segundo tempo.

O principal caso, porém, é o do meia Juninho Paulista. Contratado com o status de estrela para esta temporada, o pentacampeão não se firmou no time titular, brigou com Ney Franco mais de uma vez e acabou dispensado. A gota d'água foi uma discussão no intervalo da partida da contra o Defensor, pela Copa Libertadores, quando o jogador soube que seria substituído.

"No calor do jogo, fiquei nervoso porque não consegui jogar bem no primeiro tempo. Estávamos perdendo um confronto importante. Quando ele falou que eu ia sair, realmente fiquei nervoso. Houve uma discussão calorosa, mas não nos faltamos com respeito. Não houve xingamento, nem tentativa de agressão, nem empurrão. Só uma discussão verbal um pouco além das discussões normais. Ninguém precisou separar nada", contou Juninho.

"Não quero me alongar nesse assunto, é desgastante tomar uma decisão como essa. Não houve queda de braço com o Juninho. É um atleta que respeito muito. Após aquele problema com o Roni, avisamos que aquilo não poderia acontecer de novo. Mas, infelizmente, aconteceu", declarou Ney Franco, dando sua versão dos fatos.

Apesar da rescisão, o atleta recebeu o apoio de vários jogadores rubro-negros, sendo homenageado após o título do Estadual do Rio, no último domingo. "Aproveito para mandar em nome de todo o grupo um abraço para o Juninho, que também é campeão. Ele é um grande companheiro e merece esse título", exaltou o volante Claiton.

Enquanto Juninho, Claiton e Roni passavam por essas idas e vindas do banco, outros jogadores do Flamengo tinham realidade bem diferente. O meia Renato, por exemplo, só foi substituído uma vez desde que chegou ao clube. Em jogo que não valia nada pelo Estadual deste ano, o atleta deixou o campo no intervalo. Apesar do fato inédito, Ney Franco ainda teve que ouvir o coro de "burro" da torcida rubro-negra.

Posturas opostas
Se no Flamengo a reserva tem causado muito barulho, nos outros clubes a reação dos jogadores que não ficam no banco é bem diferente, sejam eles consagrados ou não. Prova disso é o meia Lucio Flavio, do Botafogo. Um dos principais destaques do time em 2006, o atleta de 28 anos amargou a reserva em diversos jogos neste ano. Além disso, foi várias vezes a primeira opção do treinador para ser substituído, como na primeira partida da decisão do Estadual, quando deu lugar ao goleiro Max, já que Julio César havia sido expulso.

Ao contrário do que acontece no Fla, porém, o meia só tem elogios para fazer ao técnico Cuca. "Ele costuma conversar muito conosco, o que é muito positivo. Pelo que eu vejo, evoluiu bastante desde que chegou aqui", afirmou Lúcio Flávio.

Também ao contrário do que acontece no rival rubro-negro, a ausência de intocáveis, mantendo o discurso de Cuca de que a equipe tem 14 titulares, parece ajudar a manter o bom clima. No último dia 2, por exemplo, o treinador substituiu o atacante Dodô, artilheiro do time na temporada com 16 gols em 18 jogos. O jogador saiu durante o empate por 0 a 0 com o Atlético-MG, pela Copa do Brasil.

"As críticas não me importam. Na construção da equipe eu tenho que pensar no que posso pôr de melhor em campo. Eu sempre considerei o Lucio Flávio titular, assim como outros jogadores que possam não ter tido muitas oportunidades", explicou Cuca.

No Fluminense, a situação se repete, ainda que com o pouco conhecido Dionattan, de 22 anos, volante contratado no início do ano do Acadêmica de Coimbra (Portugal). Dos 17 reforços do time tricolor para a temporada, apenas ele nunca entrou em campo. Nem o fraco desempenho da equipe gerou protestos.

"Estou tranqüilo. Vou continuar trabalhando sério esperando uma oportunidade de jogar, mas é o treinador quem decide. Jogando em um clube como o Fluminense não tem como desanimar. Vou procurar fazer um pouco mais para me destacar", prometeu Dionattan.

A postura calma acontece mesmo em um clube com jogadores "intocáveis". O meia Carlos Alberto não foi substituído em nenhum dos 12 jogos que entrou em campo, mesmo tendo atuado no sacrifício contra o Madureira. Titular em todas partidas do Flu em 2007 (18 no total), o atacante Alex Dias saiu apenas quatro vezes, ficando em campo até quando o ex-técnico Joel Santana admitiu que ele estava atuando "meia-bomba".

"Sempre fiz questão de me esforçar nos treinos e nos jogos. É o meu jeito. Não gosto do rótulo de intocável. Como todo jogador, quando não estiver bem eu tenho que sair. As coisas têm que acontecer por merecimento. Sempre achei que deveria atuar quem se dedicar mais. O Renato tem carta branca para tirar quem quiser. Mas não tem faltado vontade para ninguém", disse Carlos Alberto.

Renato Gaúcho acompanha a lógica de pensamento. "A briga está aberta em todas as posições. Tenho praticamente 30 jogadores e qualquer um pode atuar. Quem não estiver jogando tem que estar pronto porque pode ser chamado a qualquer momento", sentenciou o técnico.



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