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08h51 06/12/2007

Para Cuca, 2008 é ano de título para o "seu" Botafogo

Técnico analisa a temporada feita pelo Alvinegro, destaca sua identificação com o clube e relembra passagens marcantes em sua carreira desportiva

Edu Santos, especial para o Pelé.Net
São quase 19 meses no comando técnico do Botafogo (salvo o pequeno período quando deixou a equipe após a eliminação da Copa Sul-Americana); indiscutivelmente marca incomum para os padrões do futebol brasileiro. Esse é o tempo em que Cuca dirige e se dedica à equipe alvinegra. Uma relação que, como ele mesmo salienta, torna o Glorioso um capítulo à parte em sua trajetória profissional.
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A falta de títulos, porém, transformou um ano inicialmente preparado para glórias em uma temporada desgastante; de "quase conquistas", como o próprio técnico, inconformado, costuma ressaltar.
Em uma conversa franca e informal, o treinador de 44 anos conta ao Pelé.Net um pouco de sua ligação com o Botafogo, relembra o passado de jogador (quando se destacou como dinâmico meia-atacante) e revela as influências adquiridas para exercer a atual profissão. Sensível, não disfarça a decepção pelas derrotas e pela falta de um titulo que coroaria o bom trabalho realizado.
Botafogo no coração "Já dirigi muitos clubes, e onde eu mais me identifiquei, sem dúvida nenhuma, foi aqui. É o meu trabalho mais longo. Para vir para cá, pensei um montão de vezes, porque tinha sempre aquele detalhe de que o Botafogo não era bom pagador, problemas internos, coisas que víamos no dia-a-dia dos noticiários de esporte. E isso foi o maior ganho que o Botafogo teve, a credibilidade. Os profissionais passaram a querer vir para o Botafogo. E, agora, faz parte do meu trabalho relatar para a opinião pública as coisas boas que ocorreram e ocorrem aqui."
Time de 2007: da ascensão à queda "O Botafogo foi montando com jogadores emergentes, e não à base de craques. O Zé Roberto era um jogador em recuperação; Dodô tinha passado pelo Goiás e não era titular; André Lima era do Sampaio Correa; o Leandro Guerreiro, do Criciúma; o Jorge Henrique, do Santa Cruz, Adriano Felício era do Volta Redonda; Alex não foi utilizado pelo São Paulo; Renato Silva não estava sendo usado no Fluminense; o Luciano Almeida não jogava no Goiás; Alessandro não era aproveitado no São Caetano. Então, foi montado um time assim, e deu muito certo. Pouco depois estávamos jogando o futebol mais bonito, e passamos a ser candidatos ao título brasileiro. Mas quando tivemos cinco notícias negativas, uma atrás da outra, Dodô (suspensão por doping), Zé Roberto (afastado por indisciplina), Diguinho (lesão), Túlio (suspenso inicialmente por 120 dias) e André Lima (vendido para o futebol alemão), era hora de equilibrar, dar umas duas ou três notícias boas. E isso seriam as contratações de dois bons jogadores. Motivaria o grupo, a torcida, a imprensa, todo mundo. Mas a gente só teve notícia ruim. Quando você perde cinco jogadores de um grupo de 13 ou 14, cai muito a qualidade. Nós já não tínhamos as reposições ideais. Não é crítica, simplesmente não tínhamos. Perdemos uns jogos, alguns adversários nos passaram e depois houve aquela partida da Sul-Americana (a eliminação para o River Plate, em Buenos Aires). Mas ainda bem que conseguimos equilibrar novamente e acabar bem o Campeonato Brasileiro."
A melhor equipe perde o Estadual do Rio "Para 2008, quero montar um time mais competitivo, para chegar em um jogo como aquele em Bacaxá (2 a 3 Boavista, em 17 de fevereiro, pela Taça Guanabara) e ser regular. E a regularidade de um campeonato você joga fora em um jogo como aquele. Era para nós sermos campeões do primeiro e do segundo turnos, mas entramos no sábado de Carnaval da maneira que não era a ideal. Demos mole para o Bacaxá (como Cuca chama o Boavista) e classificamos o Flamengo. Resultado: tivemos que ganhar o segundo turno para decidir com eles (o Fla). E tínhamos mais time que eles na ocasião. Demonstramos isso, mas não conseguimos vencer."
O Rubro-Negro no caminho "Sempre diziam que empatamos cinco vezes com o Flamengo, mas o que não conseguimos fazer eles também não conseguiram com a gente. Tivemos muito mais chances de vencer, jogamos melhor, mas o que acontece é que se trata de um adversário que você tem de fazer 2 a 0, 3 a 0, 4 a 0. Porque 1 a 0 você sabe que até o fim eles podem empatar. Eles têm muita força. E para ganhar deles, tem de ser assim. No primeiro jogo da final do Carioca, abrimos 2 a 0, e era para matar, fazendo três, quatro. Não foi o Cuca quem mandou o time recuar. Não sei fazer isso, infelizmente. Talvez se eu soubesse, nós tivéssemos sido campeões."
Vexame na Sul-Americana "Tivemos problemas, principalmente depois daquele jogo contra o River (2 a 4, em 27 de setembro), em que as coisas não andaram bem nem dentro, nem fora do campo. Aquilo prejudicou bastante. Principalmente pelo jogo, pelo resultado final. Fizemos 2 a 1 (por ter vencido o primeiro confronto, o Botafogo poderia até perder por um gol de diferença), estávamos com um homem a mais (os argentinos tiveram dois jogadores expulsos, enquanto o Alvinegro perdeu Zé Roberto por ter recebido o cartão vermelho) e não conseguimos segurar o resultado. Foi uma dor de raiva, de não ter tido a competência para ganhar."
Obs. Inconformado com eliminação, Cuca pediu demissão depois da partida, retornando após três derrotas seguidas da equipe no Brasileiro (todas sob o comando de Mário Sérgio).
Copa do Brasil: a queda mais sentida "Sem dúvida, o que mais me marcou esse ano foi a eliminação da Copa do Brasil, aquele jogo contra o Figueirense (3 a 1, dia 23 de maio, no Maracanã). A saída da competição doeu muito (após perder o duelo de ida por 2 a 0, o Botafogo precisava vencer por três gols de diferença. Até os 44 minutos do segundo tempo, vencia pelo mesmo placar que perdera em Florianópolis, e o resultado levaria a disputa para os pênaltis). Para mim, foi pior do que a perda do Estadual e a derrota para o River. Estávamos em um momento melhor do que o Fluminense. Tínhamos mais de 50% de chances de vencermos eles na decisão e sermos campeões. Contra o River, só passaríamos de fase. Haveria outras tantas. Contra o Figueirense, não. Estávamos a um passo de fazer a final, que valeria vaga na Libertadores. Aí tomamos um gol como aquele (um chute despretensioso de Cleiton Xavier que Júlio César aceitou). Ninguém acreditou. Todo mundo ficou se perguntando como aquela bola entrou. O 2 a 0 nos levava para os pênaltis, e tínhamos tudo para nos classificar, A torcida era toda nossa, e bater pênalti com incentivo é muito diferente do que com vaia. Nossa chance de ganhar era no mínimo a metade, mas acho que era maior. Apesar de vencermos o jogo, foi a nossa pior derrota."
Goleiros, um trauma durante a temporada "Vamos ter de encaixar bem em 2008. A gente errou muito esse ano, e eu tenho muita culpa também. Não recebemos deles (os goleiros) a segurança necessária, e em contrapartida não foi dada a segurança necessária. Uma coisa ligada à outra. Para o ano que vem temos de efetivo somente o Lopes e o Renan (promovido dos juniores). Vamos buscar outro goleiro que virá para brigar com o Lopes pela titularidade. Mas não tem hoje no mercado um grande nome que você possa buscar dentro das condições do clube, pôr e ficar seguro. No futebol, tem que chegar e jogar. Tomara que a gente erre menos do que errou esse ano."
Desilusão com Júlio César "Uma decepção muito grande. O caminho que ele tomou, da maneia como tomou. Ele veio fazer teste e a gente aprovou. Era terceiro goleiro, passou a segundo e depois foi para primeiro. Foi cantado como um dos grandes goleiros da nova geração, mas se perdeu totalmente fora do campo. Teve um jogo em que bateu a cabeça (3 a 0 Grêmio, em 2 de junho, no Maracanã) e foi para o hospital. Acabou liberado para ir para casa, mas foi para boate na mesma noite. Postura irresponsável, a ponto de ser irresponsável dentro de campo também. Achou que era o dono do pedaço antes do tempo. Mas tem tudo para ser um grande goleiro. Eu falava para ele que não adiantava nada somente dizer que assumia os erros. Tinha de falar que errou e dizer que tentaria não errar mais. Sem prepotência. Aí o torcedor sente que você quer melhorar e te perdoa. Chega um momento em que a paciência de todos acaba. Oportunidades comigo ele teve mais do que qualquer um (após a falha fatal contra o Figueirense Júlio César atuou ainda em 12 partidas seguidas como titular). Foi uma seqüência de erros. Chegou ao limite extremo lá contra o Cruzeiro (2 a 3, em 1º de agosto, no Mineirão. O goleiro falhou em dois gols celestes). E aí ele sai da maneira como saiu, fechando as portas aqui. É horrível, porque ele já tinha saído do Paraná assim também. Com 20 anos, já entrou na Justiça contra dois clubes. Está errado, é mal instruído. Banquei ele, sempre conversando, dando conselho, mas ele não quis aceitar. Preferiu agir como quis. Para mim, é ponto final."
Obs. Reivindicando pendências financeiras, Júlio César acionou o Botafogo na Justiça.
Receita para um time vencedor "Tem que ser mais regular. Tínhamos jogadores que faziam uma partida boa e duas ou três ruins seguidas. A gente tem que fazer três, quatro partidas seguidas boas e uma ruim, para que no dia em que o jogador esteja mal, seja substituído. Vamos montar uma equipe mais competitiva e que saiba, no momento de decidir, matar o jogo. Tem dias em que você ganha com plasticidade, com beleza técnica. E tem outras partidas que você ganha na bola parada, com um gol de raça, fechando o time, sabendo valorizar o resultado."
Voltando no tempo: a difícil hora de pendurar as chuteiras Tenho muitas lembranças vivas de vários jogos da época em que eu jogava. Vitórias e derrotas, isso fica enraizado. Parar de jogar é horrível. Você acorda para ir ao treino e lembra que não treina mais. Você sonha que está fazendo um gol e acorda, vê que não joga mais. É bem mais difícil parar de jogar do que iniciar. Não tem um momento X para parar. As coisas vão acontecendo aos poucos. Cada um é cada um. Eu tive uma lesão que iniciou o processo. Tem jogador que vai até os 40, que não tem lesão importante, segue, se cuida. Às vezes não se cuida tanto, mas tem um equilíbrio físico que é importante. Depois que operei o púbis lá na Espanha e tirei parte do adutor perdi muita força. Eu era um jogador que fazia o vai-e-vem, e passei a jogar mais adiantado, mas não foi o ideal."
Muitas alegrias dentro das quatro linhas Como jogador, me sinto realizado. Joguei na seleção (um amistoso contra o Paraguai, 1 a 1, dia 27/2/1991, em Campo Grande-MS), no Grêmio, Inter, Santos, Palmeiras. Fui campeão várias vezes, muitas conquistas (pentacampeão gaúcho, sendo quatro títulos com o Tricolor e outro com o Colorado). E tive a chance de jogar fora do Brasil, quando estive no Real Valladolid-ESP."
Experiência no futebol internacional Eu errei. O atleta tem que viajar antes de fechar contrato para saber mais da cidade, do clube, para ver se é o ideal. Saí de um Grêmio que era campeão e lutava sempre por títulos, e fui para um time que brigava para não cair. Foi um choque muito grande. Aqui eu jogava quarta e domingo, e lá era só aos domingos. Levava o terceiro cartão amarelo e jogava 14 dias depois. Treinava um período só, porque de manhã era muito gelo. Hoje eu administraria melhor. Até ficaria por lá. Na época, não consegui. Fiz questão de voltar e fui justamente para o Internacional. Outro erro. Não tinha essa necessidade. Poderia ter voltado para jogar no Palmeiras. Fui voltar justo para o maior rival do Grêmio, e a cobrança era grande. Fui campeão pelo Inter, mas hoje eu agiria diferente. Para começar, eu nem teria saído do Valladolid. Por isso, procuro sempre ajudar os jogadores hoje."
Amizade no futebol Isso não existe. Eu falo sempre com meus jogadores aqui. Da época em que eu jogava futebol, não tem ninguém que freqüente a minha casa. A gente dispersa pelo mundo, e você perde o contato que tinha antes. Meu melhor amigo continua sendo o Bonamigo (ex-volante do Grêmio e hoje também treinador, com passagem pelo Botafogo em 94 como atleta e 2005 como técnico). Nem todos seguem no futebol, e o que fazia há vinte anos você não faz mais hoje. A intimidade não existe mais, e acabamos nos tornando colegas. Você perde aquele laço de amizade forte. Fica mais fria a relação."
Influências como técnico Fui dirigido por vários grandes treinadores. Felipão, Evaristo de Macedo, Antônio Lopes, Daltro Menezes (já falecido), seu Enio Andrade. E o melhor, com quem mais gostei de trabalhar, foi o Otacílio Gonçalves, o Chapinha, com quem trabalhei no Grêmio e no Palmeiras. Gostava de ficar perto dele. Ele incentivava diferente. Um cara querido por nós. Era completado pelo Carlinhos Neves, preparador físico. Com o Otacílio vivi meu melhor momento como jogador, e me identifiquei demais com ele. No jeito, somos bem diferentes. Otacílio era bem light, e eu sou o contrário. Tenho o meu jeito mesmo. Tem dias em que sou o cara mais calmo do mundo, mas isso é raro (Cuca ri); e tem dias em que sou o cara mais chato do mundo. Sou aqui o que sou em casa."
Pai Cuca ao lado da família em 2008 "Sinto muita falta. Na época em que eu era jogador, era maravilha. Passava numa loja, comprava doces para as meninas. Brincava na piscina que eu tinha lá em Porto Alegre. Isso me faz muita falta. E agora não tem mais as meninas, tem as mulheres, já que estão com 19 e 15 anos. E é um baque que você não tem idéia. Ligar todo dia para saber como estão, que horas chegaram em casa. Ter que dar uma 'dura' por telefone. Ter que pegar avião, ir lá e trazer para cá. E não dá para trazer porque uma está se formando em jornalismo e a outra também não quer vir porque tem o namoradinho. Quero trazê-las no ano que vem. Vou ter que pensar mais em mim. Elas que me desculpem, mas vão ter de estar juntas comigo. Trazer minha esposa não é o problema, porque é o sonho dela morar aqui. O problema são as filhas."
Um carioca por opção "O Rio me agrada muito. Tenho vontade de comprar um apartamento aqui. Mas é tudo muito caro, e dá pena de gastar. Aqui tem o mar, e adoro o mar. Tenho um barquinho inflável, e quando tenho chance, vou ali na Baía de Guanabara. Toda folga que tenho, vou para água."
2008: obsessão por ser campeão pelo Glorioso "O Botafogo tem tudo para colher bons frutos, e pretendo colher o que está sendo plantado. O plantio foi bom, mas faltou um título em 2007. Tínhamos que ter ganho alguma coisa. E aquele dia que perdemos nos pênaltis (a final do Estadual para o Flamengo), eu fui um dos últimos a sair do Maracanã. Fiquei em um corredor, em um canto sozinho tentando me consolar. É doído. O torcedor não tem idéia como dói para mim uma derrota como aquela. Não posso negar que existe sim uma vontade especial de ser campeão pelo Botafogo. E o Botafogo tem de ser campeão ano que vem. Não, o Botafogo vai ser campeão no ano que vem."
Ficha de Cuca Nomes: Alexi Stival Data de nascimento: 7/6/1963 (44 anos) Local de nascimento: Curitiba (PR) Clubes como jogador: Santa Cruz-RS (1984), Juventude-RS (1985/86), Grêmio-RS (1987/90), Valladolid-ESP (1990), Internacional-RS (1991), Palmeiras-SP (1992), Grêmio-RS (1992), Santos-SP (1993), Portuguesa-SP (1994), Juventude-RS (1995) e Chapecoense-SC (1996) Títulos como jogador: tetracampeão gaúcho em 1987/88/89/90 e campeão da Copa do Brasil em 1989 pelo Grêmio; campeão gaúcho em 1991 pelo Inter; vice-campeão paulista em 1992 pelo Palmeiras; Seleção Brasileira: 1/0 (1991) Clubes como treinador: Uberlândia-MG, Avaí-SC, Brasil-RS, Inter de Limeira-SP, Clube do Remo-PA, Internacional de Lages-SC, Gama-DF, Criciúma-SC, Paraná Clube-PR, Goiás-GO, São Paulo-SP, Grêmio-RS, Flamengo-RJ, Coritiba-PR, São Caetano-SP e Botafogo-RJ. Títulos como treinador: campeão da Taça Rio e vice-campeão carioca em 2007 pelo Botafogo. UOL Busca - Veja o que já foi publicado com a(s) palavra(s)
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