14h29 08/01/2008

Agora na Série C, Santa Cruz é obrigado a viver situações inusitadas

Um dos times mais tradicionais no Nordeste vive uma nova realidade com a queda para a terceira divisão do Brasileiro.

Márcio Markman, especial para o Pelé.Net

RECIFE - Após um treino do Sport, na semana passada, a reportagem do UOL Esporte deixava o clube quando foi interpelada por um fotógrafo free-lancer. "Você sabe se o treino lá no Santa Cruz já acabou? Quero falar com Zé do Carmo para saber se ele quer marcar um amistoso", falou o fotógrafo, que tem ligações com dirigentes de uma equipe do interior do estado.

Já são 93 anos, quase 94 anos de história. Mas Série C é Série C e não é fácil montar um elenco de qualidade. Não há cota de televisionamento e nem ajuda da CBF para o pagamento das despesas de passagens e hospedagens. Por isso, Zé do Carmo tem sido obrigado a assistir aos diversos DVDs que chegam ao clube, com os perfis de jogadores disponíveis.

"Já assisti mais de 200 e ainda existem muitos outros. Alguns a gente assiste por uma questão de respeito, mas não têm a menor condição. A gente vê que o cara pediu para os amigos da pelada para deixarem ele fazer um gol", contou o técnico do tricolor do Recife, como se relatasse uma daquelas gravações de candidatos ao Big Brother.

Casos curiosos à parte, o certo é que o Santa Cruz já está com o elenco praticamente definido para a temporada e conseguiu atrair alguns atletas com bagagem no futebol brasileiro, como o goleiro Paulo Musse, o zagueiro Marcelo Heleno e os meias Nildo, Rosembrick e Carlinhos Paraíba. "A verdade é que quem quer jogar não escolhe série. A camisa do Santa Cruz tem tradição e quem vesti-la tem que saber que terá uma torcida imensa para respeitar", falou o ex-craque e hoje treinador do time pernambucano.
BIG BROTHER
O episódio é um bom exemplo da nova fase que vive o Santa Cruz Futebol Clube. Uma das equipes de maior tradição do futebol nordestino, dono de 24 títulos pernambucanos, dois vice-campeonatos brasileiros da Série B, um 4º e um 5º lugar na Série A e clube de origem de craques como Rivaldo, Givanildo, Nunes e Ricardo Rocha, o tricolor será obrigado a disputar a Série C este ano.

A nova realidade tem gerado uma série de situações inusitadas. Uma delas foi uma atividade que há muitos anos o clube não realizava. Há cerca de três semanas, quando havia contratado cerca de metade dos 15 reforços para 2008, o treinador Zé do Carmo e o auxiliar-técnico Pedrinho, dois ex-jogadores e eternos ídolos da torcida tricolor, reuniram alguns atletas profissionais que estão sem clubes para um peneirão. "Infelizmente, não havia nenhum atleta melhor do que o que nós temos em casa", comentou o treinador à época.

Zé do Carmo tem sido obrigado a encarar vários pedidos de amistosos ou jogos-treino bem ao estilo do que seria proposto pelo fotógrafo e "dublê" de empresário. "Isso aí é brincadeira. O pessoal chega e diz: 'Vamos lá, eu pago o ônibus pra vocês'. O que é isso? Nós estamos falando do Santa Cruz, não de uma equipe de várzea", declarou o treinador. Não por acaso, o clube estréia no Campeonato Pernambucano, no próximo domingo, sem ter realizado amistosos ou jogos-treino.



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