09h06 07/04/2008

Fla e Cienciano levam questão ideológica da altitude para campo

Confronto desta quarta-feira pela Libertadores é emblemático do confronto da questão de partidas em locais de altitude elevada, opondo no gramado líderes dos dois extremos da polêmica

Do Pelé.Net*

SÃO PAULO -
O tema mais quente do futebol sul-americano dos últimos meses terá seu capítulo mais emblemático ao longo desta semana, pelo menos na esfera esportiva, quando Flamengo e Ciencieano se enfrentam em Cusco, no Peru, pela Copa Libertadores. Mais do que a briga pela classificação no grupo 4, o jogo é simbólico para o confronto ideológico da questão da segurança física de atletas em partidas em locais de altitude elevada, com a oposição, em campo, de líderes dos dois extremos da polêmica.

ALTITUDE: BATALHA IDEOLÓGICA
AFP
Revolta do Fla contra condições de jogo na altura começou com experiência em Potosí
AFP
Evo Morales foi à sede da Fifa na Suíça, defender o futebol na altitude a Blatter (dir.)
EFE
Cartaz em protesto na Bolívia: 'Jogar futebol, questão de atitude, não de altitude'
AP
Evo Morales conta com apoio de Maradona em ato a favor do futebol em altitude
Divulgação
Presidente do Fla divulga posição do clube na Suíça, com Platini, na sede da Uefa
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De um lado, o Flamengo, clube que levantou a bandeira, praticamente sozinho, contra jogos em altitudes elevadas, em decisão motivada pela experiência traumática do time na Libertadores de 2007, em jogo em Potosí, na Bolívia (mais de 4 mil metros acima do nível do mar).

No começo deste ano, inclusive, Márcio Braga, presidente do clube brasileiro, encarou uma cruzada européia por Fifa, Uefa e outras entidades relevantes, como a Corte Arbitral do Esporte (na Suíça), para argumentar contra a realização de partidas em altitudes elevadas.

O Cienciano, por sua vez, é uma das vozes que lidera a causa da altitude, em polêmica iniciada pela determinação da Fifa de limitar partidas internacionais em locais de altura acima de 2.750 m. A cidade peruana de Cusco, pólo do turismo no país, está localizada a 3.400 m acima do nível do mar.

Por essas circunstâncias, a expectativa é que a delegação do Flamengo seja recebida com alguma hostilidade em Cusco. A torcida do Cienciano promete demonstrar repúdio contra os brasileiros já no aeroporto, no desembarque dos rubro-negros.

A direção do clube, por sua vez, chegou a falar em processo contra Marcio Braga, presidente do Fla (por preconceito e danos morais ao turismo local).

"Braga está equivocado e o que busca com suas declarações é um enfrentamento bobo pelo simples temor de jogar em Cusco. Ele não se dá conta do dano que causa a nosso turismo", declarou recentemente Juvenal Silva, presidente do Cienciano, em declaração à Agência Oficial Andina.

Quase um ano de polêmica
A questão da altitude no futebol começou a dominar as discussões no universo da bola na América do Sul a partir de maio de 2007, quando a Fifa, em reunião de seu Comitê Executivo, sugeriu veto a partidas em locais com 2.500 metros ou mais acima do nível do mar.

À época, a entidade afirmou que esperaria uma posição definitiva de seu grupo de estudos médicos. Mas, mesmo assim, recomendava que cidades acima do limite estipulado recebessem partidas internacionais somente em circunstâncias específicas, como o período de aclimatação de duas semanas para a equipe visitante.

De imediato, a postura da Fifa levantou uma série de reações no continente, com o alinhamento ideológico de países andinos, como Bolívia, Peru e Equador, afetados diretamente pela orientação da entidade máxima do futebol. Na esfera esportiva, clubes como Cienciano (PER) e Real Potosí (BOL) despontaram como defensores da causa.

No entanto, a principal liderança do futebol em altitude foi Evo Morales, presidente da Bolívia, que "arregaçou as mangas" para brigar pelo que entende ser o direito esportivo de seu país. A seleção boliviana, que foi a apenas uma Copa (em 1994, empurrada por resultados nas eliminatórias em La Paz - 3.600 m acima do nível do mar-), brigou em âmbito continental para que a recomendação da Fifa não tivesse aplicação na América do Sul.

O engajamento da 'ala andina', de Evo Morales (que, em ato simbólico, chegou a disputar partidas a 5 mil metros de altitude) e companhia surtiu efeito dentro da Conmebol. Mesmo sem unanimidade, pois o Brasil se recusou a referendar a decisão, a entidade se posicionou em janeiro passado a favor da manutenção do futebol em cidades como La Paz, Quito (2.850 m), Bogotá (2.640 m) e Cusco (3.400 m).

Na última semana, os dirigentes do futebol de toda a América do Sul voltaram a se reunir para discutir o tema, e mais uma vez a altitude foi aprovada para a prática do futebol. Novamente, apenas o Brasil, através da CBF (Confederação Brasileira de Futebol), se posicionou contra, em decisão que provoca desconforto político momentâneo para Ricardo Teixeira perantes os demais dirigentes da região.

Mesmo resignado, o Flamengo, líder da causa "anti-altitude", protestou contra a mais recente posição oficial a respeito do tema. "É uma decisão estapafúrdia. Tudo aquilo que estávamos brigando há um ano, parece que só será cumprido a partir de 2009. Mas sigo preocupado com os nossos atletas. A Conmebol tinha que cumprir a resolução da Fifa, que é a entidade máxima do futebol mundial. Ela avisou que existe risco de morte. Volto a dizer que é uma decisão estapafúrdia", argumenta o presidente rubro-negro Márcio Braga.

*com reportagem no Rio de Janeiro



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