08h01 13/11/2008

Há 40 anos, Charanga embala as vitórias do Galo

Banda, formada por músicos profissionais apaixonados pelo Atlético-MG, completa quatro décadas de apoio incondicional ao time.

Bernardo Lacerda, do Pelé.Net*

BELO HORIZONTE - "Nós somos do Clube Atlético Mineiro, jogamos com muita raça e amor, vibramos com alegrias nas vitórias, Clube Atlético Mineiro, Galo forte, vingador". Aos primeiros acordes do hino atleticano, executados pela Charanga do Galo, na noite desta quarta-feira, quando o alvinegro mineiro goleou o Vasco, por 4 a 1, milhares de torcedores presentes ao Mineirão, reagem cantando forte os versos compostos por Vicente Mota, há 39 anos, um ano depois da criação da famosa banda, que embala as vitórias e consola as derrotas alvinegras.

SAMBA VIRA MARCA REGISTRADA
Thiago Nogueira/UOL Esporte
Thiago Nogueira/UOL Esporte
Charanga do Galo tem participação ativa nos momentos mais importantes do clube.
Uma das marcas registradas da tradicional Charanga do Galo é a música "Vou Festejar", da cantora Beth Carvalho, que foi puxada pela primeira vez pela banda alvinegra e que depois se tornou uma espécie de segundo hino do Atlético-MG, cantado entusiasticamente pelos torcedores do clube. Beth Carvalho foi a atração principal do show que comemorou o título da Série B do Campeonato Brasileiro, no Mineirão, após o jogo com o América-RN, em 2006.
"A música da Beth Carvalho foi puxada pela primeira vez pela charanga. E desde que foi cantada e tocada pela charanga ela ganhou uma importância muito grande para o Atlético e seus torcedores. Hoje, é repertório intocável dos jogos do Atlético", observou Mario Daniel de Morais, um dos integrantes da charanga atleticana.
O massagista Belmiro revela que a música da Beth Carvalho tocada pela charanga contagiava os jogadores atleticanos. "Se você ver um tape daquela época, quando eles começavam a tocar, o Cerezo jogava com a meia baixa, ele puxava a meia da perna direita e da esquerda. O Atlético já começava a jogar no ritmo da charanga", comentou Belmiro, referindo-se ao ex-volante e atual técnico, Toninho Cerezo, grande ídolo do Galo.
Mas não é apenas o Hino do Galo e a música "Vou Festejar", que são tocadas pela Charanga. Entre os vários e diversificados ritmos incluídos no repertório do grupo, estão as tradicionais marchinhas de carnaval, o axé, o samba, pagode e até mesmo o funk.
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É sempre ao som do hino do Galo, que a charanga, que em 2008 completou 40 anos, chega ao Mineirão e se dirige, minutos antes do início dos jogos, ao seu lugar permanentemente reservado, na área central do anel superior do Estádio. Acompanhado de fiéis seguidores, que cantam e dançam, ao som afinado dos instrumentos de sopro e percussão, a banda alvinegra inicia um show eclético, que pode até desagradar alguns pelo repertório, mas contagia a todos pela emoção.

"A charanga é tudo, empolga os torcedores, mesmo quem não gosta dos tipos de musica, aos jogadores. O jogo sem ela não tem a mesma emoção, descontração, perde muito do clima do Mineirão, de festa", observou o atleticano Renato Antunes Silva, de 26 anos, que disse acompanhar os jogos do Galo, no Mineirão, ao lado da banda há quase 10 anos.

Para ele, entrar no Mineirão pelo portão 7 A, o mesmo da charanga, virou tradição e um ponto de encontro dos amigos que querem um local legal para torcer. "Já combino com os meus amigos para eles me encontrarem aqui. Só fico aqui ao lado da charanga, não quero saber de outro lugar no Estádio", comentou Renato Antunes.

Robson Oliveira Brizola, 46 anos, acredita que a charanga do Atlético já faz parte não somente da história do clube e sim de Minas Gerais. "Essa é uma tradição em Minas que não deve acabar, devemos conservar e apoiar sempre", ressaltou o torcedor, que acompanha os jogos do Galo ouvindo as músicas da charanga.

Com a bola rolando, os músicos profissionais, todos atleticanos de coração, cumprem mais um ritual construído ao longo das quatro décadas de existência da Charanga. Tocam a plenos pulmões, quando o Atlético está com a bola e tenta envolver o adversário, mas recolhem os instrumentos, que são silenciados, com impressionante entrosamento, logo que o "Glorioso" é atacado, voltando a tocar quando a posse de bola é retomada.

No jogo contra o Vasco, na noite desta quarta-feira, na abertura da 35ª rodada do Brasileiro, o Atlético-MG, vencedor do jogo, por 4 a 1, mais atacou do que se defendeu, o que significa que os músicos da charanga trabalharam intensamente. Mas o sorriso estampado no rosto de cada um revela que o esforço é altamente recompensado.

"Por mim eu toco a noite toda. E se o time estiver ganhando, jogando bem, eu fico mais animado ainda, aí que eu vou no embalo para poder contagiar a torcida e os jogadores. Tenho certeza que eles ouvem e sentem a vibração, o entusiasmo da charanga", comentou Jose Ferreira Veloso, que há 28 anos toca trompete na charanga atleticana.

Afinal, há 40 dos 100 anos do Galo, completados no dia 25 de março deste ano, a Charanga é um espetáculo à parte nos jogos do Atlético. Durante todo esse tempo, o lema dos anos iniciais se mantém: apoiar o time sempre, mesmo nas derrotas e nas fases ruins. "Foi a primeira vez que vim ao Mineirão para assistir a um jogo. Fiquei impressionada com a charanga. Achei muito bonita e animada. Acho que é um show à parte da torcida do Atlético, que é muito linda", aprovou Paula Correa, de 24 anos.

"É muito bom ser atleticano, poder acompanhar e ajudar o nosso time de coração. Aqui a gente apoia o time na chuva, no sol, nas vitórias ou nas derrotas, nos momentos fáceis ou dificeis. É assim que funciona a massa do Galo, com este espírito de ser uma torcida de apoio incondicional", observou Veloso.

Sem viagem

Atualmente, a charanga só acompanha o Atlético nos jogos em Belo Horizonte, mas nem sempre foi assim. Durante muitos anos os músicos acompanhavam a equipe em jogos longe de seus domínios. Enquanto os jogadores viajavam de avião, os integrantes da banda acompanhavam o clube de ônibus, preenchendo com muita música as horas passadas nas estradas. "Era até uma viagem divertida, pois eles iam cantando e festejando até chegar no local", contou o massagista atleticano Belmiro.

"Na década de 1970, a charanga acompanhava a gente em São Paulo, Rio de Janeiro. Não existia torcida organizada. Eles tocavam mesmo. Eles acompanhavam até no aeroporto. No vestiário não, mas no Maracanã eles esperavam a gente sair do estádio também", lembrou, Belmiro, com saudades.

Por falta de incentivo e de tempo dos músicos, que têm outras atividades fora do futebol, a Charanga do Galo passou a acompanhar o time apenas em Belo Horizonte, ou em cidades próximas, com facilidade de locomoção.

"Hoje, a gente não tem mais ajuda da diretoria do Galo com ônibus, custo de viagem. Teria de ser do nosso bolso, e assim fica difícil. Uma viagem sai cara e neste Brasileiro, onde o time joga um jogo em casa e outro fora, ficaria impossivel para a gente ficar viajando, então optamos por estar presentes em todos os jogos do time em Belo Horizonte", Veloso.

Mas não é só nos jogos do Galo que a charanga se faz presente. Ela participa também de festas comemorativas do clube, projetos, eventos, mantendo a mesma maneira de animar, divertir e incentivar as pessoas. Na recente eleição do presidente Alexandre Kalil, a charanga se fez presente, tocando animada em frente à sede administrativa do clube, no Bairro de Lourdes, na Região Centro-Sul da capital.

"É assim principalmente que a gente consegue recursos, próprios, para manter a charanga, para comprar os instrumentos, poder vir aos jogos. É com o dinheiro de eventos, festas, que a charanga se mantém nos dias atuais. Lutamos muito, igual a história e a tradição do Atlético", explicou o músico.

Origem no samba

A charanga do Galo nasceu de um grupo de atleticanos integrantes de uma escola de samba chamada Surpresa, no boêmio Bairro da Lagoinha, em Belo Horizonte. Eles resolveram unir a música, no começo apenas com instrumentos percursivos, com a paixão e a vontade de acompanhar os jogos do time de coração dos seus integrantes: o Clube Atlético Mineiro.

Em 1968, Júlio, um comerciante muito popular em Belo Horizonte e conhecido pelo apelido de "o mais amigo", resolveu patrocinar a idéia e chamou Bororó, um grande músico mineiro para comandar a banda. O que era uma simples diversão, de adolescentes e torcedores fanáticos pelo Atlético, virou um marco na história do clube.

A forma de seleção dos músicos pouco mudou ao longo dos 40 anos. Além de ser um instrumentista profissional, o interessado em ingressar na banda tem de ser atleticano, ter disposição e disponibilidade para acompanhar o clube, com astral elevado, independente de fase boa ou ruim, de vitórias ou derrotas E mesmo nos dias atuais, 40 anos depois de sua existência, o músico que queira entrar na banda deve seguir uma linha.

"Aqui só toca quem realmente é atleticano e tem um pique de jovem, independente da idade. Porque não dá para um cruzeirense ou americano tocar e empurrar a torcida de um time rival, ia perder um pouco da graça e da vontade. E não é fácil tocar durante os 90 minutos de jogo, além disso termos de ensaiar, fazer festas, não é fácil", disse Veloso.

"A charanga do Galo é muito importante tanto para a torcida, quanto para o clube e para os jogadores. Ela ajuda a animar a torcida, apóia incondicionalmente os jogadores. Ocupam um espaço importante na arquibancada", comentou Luiz Souza Silva, integrante da maior torcida organizada do Atlético, a Galoucura.

* Colaborou o repórter Thiago Nogueira



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