07h15 17/11/2008

Do Villa Nova ao Timão, promessas e mandingas ditam a Segundona

Há 37 anos, time mineiro tornava-se o 1º campeão da 2ª divisão e iniciava um ciclo de fanatismo que persiste até hoje, com o título do Corinthians

Thiago Nogueira, do Pelé.Net

BELO HORIZONTE - Há 37 anos, o Villa Nova, clube do município mineiro de Nova Lima, erguia o primeiro título da segunda divisão do futebol brasileiro. Mesmo sem a pretensão, a equipe mineira inaugurava, naquela época, um ciclo de fanatismo, promessas e mandingas que persistem até hoje, em suas devidas proporções, com a trajetória e conquista da Série B 2008 pelo Corinthians.

VEJA A CAMPANHA VILLANOVENSE
Wagner Augusto, Assessoria de Imprensa do Villa Nova
Wagner Augusto,  Assessoria de Imprensa do Villa Nova
Ex-lateral Mário Lourenço é homenageado pelo presidente do Villa Nova, João Bosco
Reprodução/Placar
Reprodução/Placar
Time campeão de 71. Em pé: Arésio, Zé Borges, Bráulio, Daniel, Cassetete e Mário Lourenço; Agachados: Jésum, Paulinho Cai-Cai, Eduardo Perrela, Piorra e Dias
O Campeonato Brasileiro da Segunda Divisão de 1971 foi disputado por 23 equipes. Dessas, quatro só entraram na segunda fase: Villa Nova, Central-RJ, Misto-MT e Rodoviária-AM. O restante foi dividido em grupos regionais, em sistema de turno e returno. O time de Nova Lima entrou na competição depois de passar por uma seletiva com outros dois mineiros, Uberlândia e Tupi.
Na campanha do título do Villa Nova, a equipe mineira disputou oito partidas, venceu quatro, perdeu dois jogos e empatou outros dois. Para levantar a taça na época, a equipe mineira precisou de quase um quinto de partidas que hoje são disputadas na Série B.
O título do Villa Nova foi conquistado depois de três jogos finais contra o Remo. Derrotado na partida de ida no Baenão, por 1 a 0, a equipe de Minas forçou o terceiro jogo ao vencer o jogo de volta, no Estádio Independência, em Belo Horizonte, por 3 a 0. Na partida derradeira, o time de Nova Lima venceu de virada, com os dois gols marcados de pênalti pelo lateral-esquerdo Mário Lourenço.
Hoje, para um clube grande e de massa, a disputa da segunda divisão é sinal de decadência, resultado dos erros de planejamento e gestão no ano anterior. Depois de cair para Série B, times como Corinthians (2008), Coritiba (2007), Atlético-MG (2006), Grêmio (2005) e Palmeiras (2003), que já foram campeões nacionais da primeira divisão, nem faziam questão de levantar a taça da segundona. Ficar entre os que sobem, bastaria.

Se, atualmente, a Série B ganhou "novos admiradores" justamente porque o Corinthians participou dela, na década de 1970, a conquista do título valia muito para a projeção nacional do time. "Houve uma valorização muito grande com o título do Villa Nova", lembrou Benecy Queiroz, preparador físico da equipe de Nova Lima na época e atual supervisor de futebol do Cruzeiro.

Mesmo sem a motivação do acesso à primeira divisão (naquele ano, o campeão da divisão de acesso não tinha direito de disputar a divisão especial no ano seguinte), para conseguir uma conquista de expressão, jogadores do Villa Nova apelavam para tudo.

O ex-lateral-esquerdo Mário Lourenço foi buscar apoio no sobrenatural. Na reta final da campanha, ele foi levado por um amigo a um centro espírita. Em outra oportunidade, chegou a levar também o companheiro de elenco, o ex-zagueiro Bráulio. "Fui no centro de macumba. O cara baixou o espírito e disse que o Mário ia ser o mais badalado jogador do futebol mineiro", relembrou Lourenço.

No dia do jogo decisivo diante do Remo, de Belém do Pará, dia 22 de dezembro de 1971, o lateral-esquerdo deixou a concentração para uma nova "consulta" no centro religioso.

"Fui no dia do jogo, falei com o Martim Francisco (técnico da equipe) e ele deixou eu sair. O pai de santo me deu sete galhos de arruda e mandou colocar no pé esquerdo de sete jogadores. Eu tinha que ser o último a colocar", explicou Lourenço.

Se os galhinhos de arruda foram os responsáveis pelo título do Villa Nova, não é possível afirmar. Mas que Mário Lourenço, autor dos dois gols de pênalti da equipe mineira, na virada por 2 a 1, foi o herói da partida, isso não há duvida.

No Corinthians, o padroeiro São Jorge, santo que dá nome ao centro de treinamento do clube, o Parque São Jorge, é figura de respeito no clube. No dia 23 de abril, em uma comemoração ao dia do santo no CT, uma imagem de gesso do santo se espatifou ao cair do andor.

Os mais crentes e "cismados" torcedores corintianos poderiam ter ficado preocupados com o incidente, ocorrido 17 dias antes da estréia do time na Série B. O título da competição e o retorno à Série A provaram o contrário.

Promessa cumprida

Se na campanha de volta à elite nacional este ano, a torcida corintiana fez e precisou cumprir algumas promessas, como a do grupo de torcedores que foi ao Santuário de Aparecida do Norte, no interior paulista, no dia 26 de outubro, no Villa Nova de 1971, os compromissos com Deus ou com santos protetores eram firmados pelos próprios jogadores.

Após o jogo do título no Estádio Independência, em Belo Horizonte, os jogadores foram de ônibus até a região onde hoje se localiza o BH Shopping, na Zona Sul da capital. Uma promessa feita pelo zagueiro Zé Borges obrigou que todos os jogadores fossem a pé até a sede do clube, no centro de Nova Lima, uma distância de 7,6 quilômetros.

"A torcida acompanhou a gente, no projeto de caminhada. Alguns foram para a igreja, outro para a sede do clube. Demoramos umas três horas para chegar", contou Lourenço.

"Ações de marketing"

Em 1971 começaram também as primeiras "ações de marketing" e as primeiras transmissões ao vivo de TV da divisão de acesso do futebol nacional. Se hoje, o Corinthians teve todos os jogos da Série B transmitidos ao vivo em TV aberta e fechada, naquela época, o terceiro jogo da final, dia 22 de dezembro, entre Villa Nova e Remo, de Belém, também foi visto em tempo real.

A extinta TV Itacolomi transmitiu o jogo final para a capital paraense, via satélite, segundo contou o jornalista e historiador do clube mineiro, Wagner Augusto Álvares de Freitas, em seu livro "Villa Nova: 100 anos de Glória em Vermelho e Branco". No final da noite daquele mesmo dia, o videoteipe completo da partida foi transmitido para Minas Gerais.

"Não tinha o patrocínio da TV, os clubes não tinham ajuda, gastavam muito. Mas a gana, a vontade de vencer, era a mesma", comentou Benecy Queiroz.

Em 2008, o Corinthians apostou em diferentes ações de marketing para se aproximar do torcedor. O lançamento da camisa roxa, com o objetivo de exaltar o "corintiano roxo", o kit de produtos, seguido do grito de guerra "Nunca vou te abandonar", ou o longa-metragem "Fiel - O filme", dos roteiristas Marcelo Rubens Paiva e Serginho Groisman, são exemplos de campanhas contemporâneas desenvolvidas pelo clube.

Em 1971, a diretoria do Villa Nova pediu, publicamente, a participação dos torcedores do Atlético na partida decisiva contra o Remo. Depois da conquista da primeira divisão pelo Atlético, dia 19 de dezembro, o clube de Nova Lima publicou anúncio nos principais jornais de Belo Horizonte parabenizando a conquista alvinegra e solicitando a ajuda do rival.

"O Villa Nova saúda o Atlético e a torcida campeã do Brasil e espera o seu total apoio na decisão de quarta-feira, às 21h, no Independência. Minas precisa ser campeã total", dizia a publicidade no jornal Estado de Minas, de 21 de dezembro de 1971.



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