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08h03 19/11/2008

Bi mundial faz 45 anos, e Santos glorifica 'chuva divina' e 'Pelé Branco'

Santos virou jogo diante do Milan após temporal no Maracanã. Substituto de Pelé, Almir Pernambuquinho revela doping nas finais e compra de juiz

Bruno Thadeu, especial para o Pelé.Net
SANTOS - "Meu amigo Geléia deixou a arquibancada do Maracanã quando perdíamos por 2 a 0. Só que ele foi embora antes da chuva...". A lembrança é do ex-ponta-esquerda santista Pepe, relembrando a breve presença do amigo torcedor no segundo duelo das finais do Mundial Interclubes de 1963, no Rio, contra o poderoso Milan.
A chuva citada por Pepe (na verdade um dilúvio que inundou o gramado no intervalo do jogo, quando o Santos perdia por 2 a 0) foi o prenúncio da ressurreição santista no Mundial de 1963.
A tempestade acendeu o Santos, que conseguiu virar o jogo em meio a um futebol "aquático". No lamaçal, o Santos marcou quatro gols em 20 minutos, batendo o Milan por 4 a 2. A virada heróica alvinegra levou a decisão da taça para um terceiro, e último, embate. Detalhe: Pelé, contundido, ficou fora das duas finais disputadas no Maracanã.
Dois dias depois, precisamente em 16 de novembro de 1963, novamente no Maracanã, outro triunfo alvinegro sobre os italianos, desta vez por 1 a 0 e sem chuva, deu ao Santos o bicampeonato mundial de clubes.
"Meu amigo Geléia foi ao Maracanã, mas quando o Milan fez 2 a 0 ele não agüentou e foi embora antes do intervalo, achando que o título seria do Milan. Disse que saiu xingando o time de tudo quanto é nome. Ele pegou o táxi, e no rádio do carro foi ouvindo os gols do Santos. No quarto gol nosso, ele mandou parar o carro e decidiu terminar o percurso para casa a pé. Bem feito, chegou todo molhado em casa", diverte-se Pepe, hoje aposentado, em contato com o Pelé.Net.
Com o gramado em péssimas condições, o segundo tempo de jogo se tornou truncado, faltoso. Era tudo que o Santos queria. Em duas cobranças de falta, Pepe marcou duas vezes. Lima anotou outro gol, e Mengálvio sacramentou o êxito santista por 4 a 2.
"Eu me lembro de cada detalhe daquela decisão. Me recordo, por exemplo, que o Lula [técnico do Santos] não tinha mais o que dizer no vestiário. Perdíamos por 2 a 0 e qualquer outro resultado que não fosse a vitória nossa acabaria com o sonho do título. Só sei que o tempo fechou e começou a chover sem parar. O campo ficou totalmente alagado. E isso foi ótimo. Foi uma chuva divina", conta Pepe.
"Quando caiu aquela chuva, pensei que o Milan se daria melhor, porque eles estavam acostumados a campos pesados. Mas foi bom para nós. O Pepe aproveitou que a bola ficava pesada por causa da água e mandava canhões ao gol deles", acrescenta o ex-meia-atacante Mengálvio, que vive atualmente em São Vicente/SP.
"Pelé Branco", suborno e doping
Sem sua figura principal, Pelé, para os dois jogos no Maracanã, o técnico Lula apostou em Almir Pernambuquinho, posteriormente chamado de "Pelé Branco" devido à destacada participação nas finais do Mundial de 63. Almir Pernambuquinho, sobretudo, equilibrou a disputa "no tranco" com o Milan.
"Os jogadores do Milan provocavam e davam cotoveladas. O Almir era valente, sabia lidar com isso. Adorava jogo brigado. Foi lá e encarou os italianos, infernizando", diz Mengálvio.
Polêmico, Almir faleceu em 1973, após discussão em um bar em Copacabana. Meses antes de morrer, ele declarou à revista Placar ter se dopado para os jogos contra o Milan. Almir revelou também ter sido comunicado pelo então cartola do Santos, Nicolau Moran, de que poderia bater à vontade em campo, pois o Santos havia subornado o árbitro argentino Juan Brozzi, que apitou o terceiro jogo.
"Você pode fazer o que quiser dentro de campo, Almir. Você é rei lá dentro, faz o que achar melhor. O juiz não vai fazer nada", relatou Almir, em trecho do livro "Eu e o Futebol".
A revelação de um suposto esquema com a arbitragem surpreende Pepe. "Só indo ao túmulo do Almir para saber. Ninguém falava nada disso".
Revigorado após a virada histórica sobre o Milan no segundo jogo das finais, o Santos adotou postura cautelosa para o confronto final. O time italiano também reforçou a retaguarda.
Resultado: pouco espaço para jogadas ofensivas e muita marcação de ambos os lados. Não à toa, o gol do título nasceu em jogada de Almir Pernambuquinho, acertado dentro da área. O lateral nada bajulado Dalmo marcou o único tento do jogo. "Dalmo simbolizou o futebol-coletivo aplicado pelo Santos no Rio", entende Mengálvio.
"Não tínhamos o Pelé, o Zito, o Calvet. Foi a vitória de um grupo. Naquele momento não havia um jogador que se destacasse. mas éramos experientes. Na hora do pênalti, o Dalmo disse: 'Deixa que eu bato'. Ninguém contestou, pois ele sempre foi uma pessoa espiritualmente forte, de personalidade. Sabíamos que ele faria o gol". UOL Busca - Veja o que já foi publicado com a(s) palavra(s)
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