07h01 06/04/2009

Protegido no Cruzeiro, jovem Bernardo fica longe da "badalação"

Aos 18 anos, meia, que já atuou como titular, é orientado por colegas experientes e familiares para não cair nas "armadilhas" da carreira

Gustavo Andrade, do Pelé.Net

BELO HORIZONTE - Em meio ao retorno do ídolo Sorín aos gramados, às polêmicas que envolvem o atacante Kléber e aos pedidos de uma convocação de Ramires para a seleção brasileira, um jovem jogador surge no Cruzeiro com a promessa de brilhar com a camisa celeste em 2009. Aos 18 anos, o armador Bernardo ganhou chance como titular do time comandado pelo técnico Adilson Batista e passou a receber tratamento especial na Toca da Raposa.

KERLON FICOU SÓ NA PROMESSA
Gustavo Andrade/UOL Esporte
Gustavo Andrade/UOL Esporte
Bernardo ouve conselhos dos companheiros de clube e mostra personalidade em campo
A preocupação do Cruzeiro em proteger Bernardo pode ser justificada, em parte, pela lembrança de outro atleta revelado pelo clube e que chegou como grande promessa ao time profissional. No entanto, o meia-atacante Kerlon, prejudicado por contusões graves, não firmou na equipe celeste e ainda irritou a diretoria ao decidir sair para tentar a vida no futebol europeu.
Kerlon ganhou destaque no futebol ao ser eleito o melhor jogador sul-americano sub17, em 2005, na Venezuela, e inventar o drible da "foca". Tão logo chegou ao time profissional do Cruzeiro, o meia-atacante começou a conduzir a bola com a cabeça para passar pelos defensores adversários e caiu nas graças da torcida.
O drible de Kerlon gerou um dos lances mais marcantes da rivalidade entre Cruzeiro e Atlético-MG. Em setembro de 2007, o time atleticano foi derrotado, por 4 a 3, e o lateral atleticano Coelho, para interromper o "drible da foca", fez falta violenta no jogador celeste e foi expulso de campo. O episódio ganhou repercussão nacional.
No entanto, com uma carreira marcada por contusões, Kerlon deixou o Cruzeiro de maneira conturbada. Em setembro de 2008, o presidente Zezé Perrella anunciou que o jogador não queria mais defender o clube celeste. Ele estava em recuperação na Itália, onde passou por cirurgia para reconstruir ligamentos do joelho esquerdo.
O meia-atacante machucou-se em 6 de fevereiro de 2008, no segundo tempo da vitória sobre paraguaio Cerro Porteño, por 3 a 1, no Mineirão, na estreia do Cruzeiro na fase preliminar da Copa Libertadores. Kerlon rompeu os ligamentos do joelho esquerdo.
O Cruzeiro, que não realiza mais cirurgias, indicou uma lista com nomes de médicos brasileiros para que Kerlon escolhesse um profissional. Inicialmente, o jogador faria a cirurgia com o médico Moisés Cohen, em São Paulo, mas decidiu, em conjunto com seus empresários, ser operado na Itália. Na época, Zezé Perrella criticou a opção do atleta.
Kerlon deixou oficialmente o Cruzeiro no fim de agosto de 2008. O clube acertou a venda de 80% dos direitos econômicos do meia-atacante ao empresário do jogador, Mino Raiola, por 1,3 milhão de euros. Em seguida, o jogador passou a defender o Chievo, da Itália.
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Os atletas mais experientes, a comissão técnica e a diretoria tentam proteger Bernardo da tradicional badalação que cerca uma jovem promessa. O armador chegou à equipe profissional após se destacar na Copa São Paulo de juniores. Artilheiro da competição com nove gols, ele demonstrou grande vocação para as bolas paradas. Sete de seus gols na Copinha foram marcados em cobranças de falta ou de pênalti.

Os volantes Ramires, Henrique e Fabrício o orientam diariamente a respeito das dificuldades que cercam a carreira de um jogador de futebol. "Eles dão bastante conselho para que eu não me perca fora de campo. Tenho de estar tranquilo, a vida de jogador é curta. Tenho de estar focado no meu futebol, para que eu possa estar bem feliz daqui para frente", observou.

Fabrício defende o Cruzeiro desde o início de 2008. Com passagem pelo futebol japonês entre 2006 e 2007, o volante aproveita a experiência para orientar o jovem colega. O ex-jogador do Corinthians, que admitiu ter cometido erros no início da carreira por causa da juventude, hoje aconselha Bernardo.

"O Bernardo é um bom jogador. Temos tomado certo cuidado com ele, principalmente os mais experientes. É só o começo, não adianta a gente se empolgar, porque os mesmos que o elogiam amanhã o dão rasteira, tem que estar preparado para isso. Ele tem muito que mostrar ainda. Sempre falo, ele é um menino bom, que nos escuta e, se continuar escutando, tem de tudo para ser dos melhores do Brasil", afirmou Fabrício.

Bernardo assumiu a condição de titular do time de Adilson Batista após o também armador Wagner sofrer uma entorse no tornozelo esquerdo na vitória sobre o Universitário Sucre, por 2 a 0, no Mineirão, em 18 de março, pela Libertadores. Apesar de ganhar a confiança do treinador, o jovem meia acredita que a torcida precisa ser paciente.

"Acho que tem que ser com calma. Estou começando minha carreira aqui. O Wagner, infelizmente, teve uma contusão. Já que a torcida pede tanto assim, acho que é preciso ter um pouco de paciência. Estou começando e não quero começar direto jogando, porque pode até me queimar", ponderou.

Entretanto, ao mesmo tempo em que pede paciência à torcida, Bernardo se sente preparado para atuar no principal compromisso do Cruzeiro no primeiro semestre. Nesta temporada, a equipe mineira busca o terceiro título da Copa Libertadores.

"Acho que já estou preparado para jogar qualquer tipo de jogo. O Adilson me colocando para jogar no Mineiro, Libertadores ou qualquer outro tipo de campeonato, tenho que estar preparado, porque já estou aqui há quase dois meses e já peguei o ritmo da galera. Espero melhorar o meu futebol para, se o Adilson optar por mim na Libertadores, jogar bem", disse.

Personalidade

Jogador de fala mansa, Bernardo tem impressionado os companheiros pela personalidade em campo. Apesar da juventude, o armador tem ditado o ritmo da equipe, conforme Fabrício. "Hoje é o cara que está pensando no nosso time, ditando o ritmo e isso demonstra personalidade e qualidade. Ele está melhorando a cada jogo, está evoluindo. Não tem mais idade, não, tem jogadores de 17, 18 anos arrebentando. É o caso dele", afirmou o volante.

Bernardo defendeu a seleção brasileira nas categorias sub15, sub16 e sub17. Pelos times sub15 e sub17, o jogador cruzeirense conquistou o sul-americano. Para Fabrício, o bom começo do jovem armador com a camisa celeste pode lhe render um espaço na seleção principal. "É apenas ter tranquilidade para saber que não vai ser todo jogo bem, não desanimar quando erra passe, uma jogada. Ele tem tudo para ajudar muito o Cruzeiro e até mesmo a seleção", observou.

Apesar do desempenho de Bernardo em campo ser motivo de elogios por parte dos jogadores, o técnico Adilson Batista adotou um discurso moderado ao falar da revelação cruzeirense. "Ele está vendo a forma da gente trabalhar e algumas colocações que a gente vai fazendo no treino, ele vai entendendo o recado. Mas é um jogador que está aproveitando, valorizando, tem potencial. Está entrando aos poucos, está ganhando corpo, confiança, conhecendo os companheiros e o que a gente gosta. Ele está tentando ajudar e crescer profissionalmente", avaliou o treinador.

Há pouco mais de dois meses na equipe profissional, Bernardo terá o salário reajustado pela diretoria seguindo um planejamento do clube para jovens jogadores. A estratégia que deu certo com Ramires é a esperança do diretor de futebol, Eduardo Maluf, para que os atletas cruzeirenses mantenham uma evolução constante.

"O Cruzeiro tem com todos os jogadores da categoria de base que sobem para a equipe principal objetivos nos contratos. E eu falo que isso é uma tranquilidade. Vamos dar o exemplo do Ramires. O Ramires tinha uma série de objetivos no contrato dele e conquistou todos, então é inquestionável o que ele ganha, porque ele fez jus a tudo aquilo que tem conquistado. Os jogadores saem da categoria de base e têm um salário baixo e não é diferente com o Bernardo. O Bernardo tem também objetivos e, à medida que for conquistando, o aumento de salário dele vem naturalmente", explicou o dirigente.

Responsabilidade

Aos 18 anos, Bernardo já tem dois filhos. O primeiro deles, Enzo, nasceu quando o jogador tinha 16 anos, enquanto o segundo, Lucca, chegou depois que o armador já havia sido integrado à equipe profissional. Para cuidar das crianças, o meia conta com a ajuda da mãe Joelma.

A família tem sido uma das bases para o jogador, que mantém contato também com os amigos da época que ainda estava nas categorias de base, na Toca da Raposa I. "É mais meu pai, minha mãe, minhas irmãs, que conversam bastante comigo. Claro que lá na Toquinha tem pessoas também com que eu convivi. Até hoje vou lá", observou Bernardo.

Para orientar os jovens jogadores, o clube conta com o trabalho da psicóloga Adriany Gomes. "O Cruzeiro tem um trabalho bem específico com esses jogadores jovens e o trabalho com a psicóloga, todo um trabalho da comissão técnica, o trabalho da diretoria e a gente está sempre chamando, conversando. Vem o pai conversar e isso faz parte do dia a dia. Tenho certeza que o Bernardo está se saindo muito bem", afirmou o diretor de futebol do clube, Eduardo Maluf.

Apesar das responsabilidades para alguém que saiu recentemente da adolescência, Bernardo procura voltar as atenções para o futebol. "Eu procuro estar com a minha cabeça tranquila, porque para jogar futebol tem que estar com focado somente no futebol. Isso que minha família passa para mim. Procuro estar sempre com a cabeça boa. Se eu estou com algum problema fora de campo, deixo para resolver fora. Quando entro na Toca, penso só no Cruzeiro, só no meu futebol", ressaltou o jogador.



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