O Santos Futebol Clube é o único time brasileiro que conseguiu sair de uma cidade pequena e conquistar as manchetes internacionais. Depois de lutar por décadas com os grandes da capital paulista, o Santos tornou-se sinônimo de futebol em qualquer lugar do planeta. Isso por causa de uma fantástica geração de craques lideradas pelo maior astro do futebol em todos os tempos, Pelé.
Ao lado dele, verdadeiros gênios da bola, como Pepe, Gilmar, Coutinho, Mengálvio e tantos outros, fizeram do Santos da década de 60 um dos melhores times da história do futebol mundial. O resultado foram dois títulos Mundiais, dois sul-americanos e uma infinidade de outras conquistas.
Depois de Pelé, o Santos nunca voltou a ocupar o topo no cenário internacional. Teve algumas boas safras de jogadores, como a dos "Meninos da Vila", na década de 70. Nos anos 90, o craque Giovanni levou o torcedor santista a sonhar alto novamente, mas o tão almejado título brasileiro não veio.
Repetir as façanhas de Pelé e seus companheiros era mesmo impossível. Mas o Santos continuou, com sua grande torcida, mantendo-se entre os maiores clubes brasileiros.
Por pouco o Santos Futebol Clube não se chamou Concórdia. E, em vez do tradicional
uniforme branco, o time poderia estar desfilando, hoje, com camisas
de listras azuis e brancas, separadas por frisos dourados. Essas foram
as primeiras sugestões do grupo que se reuniu para fundar o clube, na
noite de 14 de abril de 1912.
O nome e as cores seriam uma homenagem ao Grêmio Concórdia, que emprestou
suas instalações para a primeira reunião. Outras denominações cotadas foram
África, Brasil, Euterpe, Argonautas. Mas um dos heróicos presentes, Antônio
Araújo Cunha, sugeriu: "Por que não dar ao clube o nome da própria cidade?"
A sugestão foi aceita por unanimidade. Nome escolhido, a negociação das
cores foi mais difícil. Raimundo Marques, fundador e "pai-da-idéia" inicial,
não desistia da sua proposta original. Mandou constar na primeira ata a
malfadada combinação de azul, branco e dourado. E só se convenceu de mudá-las
quase um ano depois, ao descobrir que seria impossível fabricar, na época,
um uniforme tão diferente. Em 13 de março de 1913, por sugestão do diretor
Paulo Pelluccio, o Santos passou a ser alvinegro: "branco da paz, negro
da nobreza".
O primeiro jogo oficial foi em 15 de setembro de 1912, no campo da avenida
Ana Costa, na região central da cidade, contra o Santos Athletic Club, conhecido
hoje como Clube dos Ingleses. O Peixe venceu por 3 x 2, e o placar foi aberto
por Arnaldo da Silveira, que assim entrou para a história como o autor do
primeiro gol oficial santista. Como o objetivo do novo clube não era menos
ambicioso que ser "o representante" do futebol na cidade, pode-se dizer
que esse jogo começou a decidir qual dos dois Santos mandaria no futebol
praiano daí para a frente.
No ano seguinte, em meio às escaramuças políticas que levaram ao racha do
Campeonato Paulista em duas competições organizadas por ligas diferentes
- a Liga Paulista e a Apea -, o Santos foi convidado a disputar o campeonato
da Liga Paulista. Já defendendo as cores preta e branca, chegou a fazer
quatro partidas, mas teve de abandonar o Campeonato no meio. Não por ter
sido derrotado em três dos quatro jogos que disputou, mas por não ter dinheiro
para as constantes viagens a São Paulo nem campo para mandar seus jogos
no litoral. Dessa primeira participação do clube em um torneio
estadual, porém, restou pelo menos o consolo de uma vitória: 6 x 3,
contra o Corinthians, no Parque Antarctica (campo da cervejaria onde futuramente
o Palmeiras faria o seu estádio).
O ano de 1913 também ficou marcado pela conquista do primeiro título. Já
fora do campeonato estadual, o Santos se concentrou na disputa do Campeonato
Santista. Enfrentou seis adversários, massacrou todos e sagrou-se campeão
invicto. Em 1914, afastado dos campeonatos principais, o Peixe só jogou
amistosos, mas, já filiado à Apea, emprestou seus melhores jogadores para
o Paulistano. Resultado: Millon e Arnaldo da Silveira, o mesmo do primeiro
gol oficial, participaram da primeira Seleção Brasileira oficial, que venceu
a Argentina em Buenos Aires por 1 x 0, gol de Rubens Salles, e conquistou
a Copa Rocca.
Pseudônimo e shows de gols contra
Em 1915, para disputar novamente o Campeonato Santista o Santos teve de
pedir autorização à Apea (entidade estadual), que não se opôs à iniciativa.
Isso desde que o clube usasse um pseudônimo, pois a competição era organizada
por uma liga municipal. Foi assim que, como nome de União, o alvinegro ganhou
pela segunda vez o título de campeão da cidade. Outro Paulistão, porém,
só em 1916. Aliás, foi em um jogo desse campeonato, no dia 22 de outubro,
que o Santos inaugurou seu estádio na Vila Belmiro. E com vitória: 2 x 1
no forte time do Ipiranga. No fim da partida, Urbano Caldeira, uma mistura
de técnico, jogador e dirigente do clube desde 1913, chorava de felicidade.
Ele, que hoje dá nome ao estádio do Peixe, era o principal responsável por
aquela festa. Não só comandara as operações de procura e compra do terreno
como chegou a perder noites plantando grama no campo para garantir a inauguração
ainda naquela temporada.
Valeu a pena. Se a campanha do time foi tímida - o Santos terminou em quinto
lugar entre sete participantes -, a Vila Belmiro, já em seu primeiro ano
de existência, brilhou como palco do jogo decisivo do Campeonato da Apea.
Infelizmente para os santistas, porém, em uma partida tratada como o acontecimento
do ano na cidade, o Paulistano venceu por 5 x 2 e ficou com o título da
entidade. Mas os torcedores do Peixe nunca se conformaram com a arbitragem
do jogo.
Reclamações contra a arbitragem, aliás, se tornariam uma constante entre
os santistas a partir de então. Em 1920, esse inconformismo deu lugar a
um estranho protesto. No dia 11 de julho, depois de sair perdendo o primeiro
tempo de um jogo contra o Corinthians por 3 x 0 , em plena Vila Belmiro,
os jogadores do Santos, sentindo-se prejudicados pelo árbitro Eduardo Taurisano,
começaram a chutar a bola contra o próprio gol. Cada um que marcava um gol
contra era expulso, mas o árbitro validava todos. A partida terminou 11
x 0 para o Corinthians, e o Santos retirou-se da competição.
1921
- 1934 Tempos de afirmação
Nos primeiros anos da década de 20, a melhor colocação santista no Campeonato
Paulista foi o 5º lugar, repetido em 1924, 1925 e 1926. Mas, em 1927, o
Santos formou o ataque mais poderoso da história do futebol amador no Brasil:
Omar, Camarão, Feitiço, Araken e Evangelista. O quinteto, que ficou conhecido
como o
ataque dos 100 gols - porque foi exatamete esse o número de gols que
o Peixe anotou no Paulistão de 1927 -, tinha tudo para levantar o primeiro
título santista. Goleou o República (10 x 2), o Barra Funda (11 x 2), o
Guarani (10 x 1), o Audax (11 x 3) e o Corinthians (8 x 3). No jogo decisivo,
contra o Palestra Itália, bastava um empate na Vila Belmiro para pôr as
faixas no peito pela primeira vez.
O Santos saiu na frente, com um gol-relâmpago, logo aos 23 segundos. O goleiro
Athiê defendeu um pênalti do ídolo palestrino Heitor, mas o time sofreu
o empate, a virada e perdeu o jogo por 3 x 2. Desastre total. O vice era
a melhor colocação do Santos no Paulista até então, mas chegava com sabor
de derrota. No entanto, quem viu jamais esqueceu o Santos de 27. Há quem
diga que a equipe só não levou o título porque o juiz Antônio Molinaro exagerou
nas inversões de falta e marcações de impedimento contra o time santista.
Pior: teria encerrado a partida quatro minutos antes do fim, para impedir
uma reação.
Outros, porém, preferem culpar o próprio Santos pelo naufrágio. Afinal,
foi o clube que tomou a iniciativa de desfiliar do elenco dois de seus principais
jogadores - o goleiro Tuffy e o atacante Feitiço
-, antes da última partida contra o Palestra. É que os dois tinham tomado
parte em uma confusão na decisão do Campeonato Brasileiro entre as seleções
paulista e carioca, no Rio de Janeiro. Em protesto contra a marcação de
um pênalti, os jogadores paulistas se retiraram de campo. Feitiço teria
ido mais longe. O presidente da República, Washington Luís, que assistia
ao jogo da tribuna, resolveu intervir e mandou um mensageiro a campo exigindo
que o pênalti fosse cobrado imediatamente. "Diga ao presidente que ele manda
no Brasil; em campo, mandamos nós", devolveu Feitiço, liderando os companheiros
na debandada para o vestiário.
Para imaginar a falta que Feitiço deve ter feito na decisão de 1927 contra
o Palestra, basta lembrar que esse centroavante rápido, habilidoso e tão
temido pelos chutes com a ponta da chuteira quanto pelo cabeceio a queima-roupa,
foi artilheiro do Campeonato Paulista seis vezes: três consecutivas pelo
extinto São Bento (1923, 1924 e 1925), e três vezes pelo Santos (1925, 1929,
1930 e 1931).
Feitiço quase deixou o clube depois da disfiliação, mas acabou perdoado
pela diretoria santista, que preferiu não correr o risco de ver o craque
ir purgar sua expulsão no Corinthians, como aconteceu com Tuffy. Por outro
lado, a resposta que ele deu a Washington Luís parece ter parado na garganta
das autoridades esportivas. Feitiço só jogou três amistosos pela Seleção
Brasileira, e apesar dos seis gols que fez neles, só foi lembrado uma vez
para uma partida oficial do Brasil.
É verdade, porém, que nem só de Feitiço vivia o ataque dos Santos no fim
dos anos 20. Não faltaram, por exemplo, shows de Araken Patuska - primeiro
artilheiro que o Santos cedeu ao Campeonato Paulista, autor de 31 dos 100
gols marcados pelo Santos em 1927 e, de longe, o atacante mais idolatrado
pela torcida antes de Pelé. Naqueles tempos em que, pelo menos na opinião
dos santistas, os juízes só existiam para estragar a festa do Peixe, o Santos
ainda chegaria a mais dois vice-campeonatos (1928 e 1929)
e um terceiro lugar (1930).
Mesmo sem conquistar um título, porém,
o clube foi se firmando na companhia dos grandes e inspirando confiança
na torcida, que se preparava para a qualquer momento soltar o grito de campeão.
Em 1931, o Santos foi vice estadual pela quarta vez em cinco anos. Pelo
segundo ano consecutivo, o grande Feitiço, foi o artilheiro do campeonato,
com 39 gols - marca que só seria superada por Pelé, em 1958.
1933
- 1954 A primeira grande glória e os anos de espera
Com a chegada do profissionalismo, em 1933, a equipe passou por uma rápida
fase de decadência técnica, que durou cerca de dois anos. Coincidência ou
não, 33 foi também o ano da morte de Urbano Caldeira, um nome fortemente
associado à ascensão do clube na década anterior. O fato é que, entre 1933
e 1934, o time não foi nem sombra do esquadrão que encantou os paulistas
de 1927 a 1931. As raríssimas vitórias e os dois quintos lugares consecutivos
no Campeonato Paulista só serviram para afastar do torcedor a esperança
de que o título estava próximo. Foi então que o inesperado aconteceu. Em
1935, em meio à balbúrdia da criação da Liga Paulista de Futebol, que dividiu
novamente os times de São Paulo, o Santos, com um time modesto, celebrizado
como "o campeão da técnica e da disciplina", acabou ganhando seu primeiro
estadual.
Depois de terminar o primeiro turno com uma única derrota, para o Corinthians,
que fechou essa fase sem perder pontos, o Peixe fez um bom segundo turno,
ao contrário doTimão. Na penúltima rodada do campeonato, bastava vencer
o Corinthians no confronto direto para ser campeão. Mas o jogo era no Parque
São Jorge. O Santos, que entrou em campo com Ciro, Neves e Agostinho; Ferreira,
Marteletti e Jango; Saci, Pereira, Raul, Araken e Junqueirinha não era um
time de estrelas. Todas as esperanças concentravam-se em Araken, único remanescente
do ataque dos 100 gols.
O jogo começou nervoso. Depois de 35 minutos de brava resistência aos ataques
corintianos, Raul tirou o zero do placar, anotando o único gol da primeira
etapa. No segundo tempo, o Corinthians aumentou ainda mais a pressão, mas
aos 20 minutos, depois de uma grande jogada individual, Araken fez um golaço:
2 x 0. O Santos desceu a Serra com o título paulista na bagagem. A torcida,
que foi receber seus ídolos com festa e banda de música, jurava que os anos
de seca tinham chegado ao fim.
De novo, um time mediano
Infelizmente, as notícias ruins voltaram. Nem os juízes podem ser culpados
pelos tropeços das campanhas que se seguiram. Entre 1936 e 1947, a sensação
dos santistas era de que o time havia mergulhado
de vez no bloco intermediário do campeonato, ancorando ano após ano
entre o quarto e o sétimo lugares. Nesse período, no entanto, grandes jogadores
passaram pela Vila Belmiro: o meia Moran, o ponta-direita Cláudio, o atacante
Odair e, principalmente, Antoninho, o dedicado meia-direita que se transformou
em símbolo de luta de um time que passou 20 anos perseguindo seu segundo
título. Recusando propostas vantajosas de outros clubes e dando o sangue
em campo, Antoninho só deixaria o Peixe ao encerrar a carreira, em 1955.
Ironicamente, pouco antes de o Santos conquistar o tão sonhado título.
Outra boa colocação viria em 1948,
mais um vice-campeonato. O ataque, o melhor desde a linha dos 100 gols de
1927, formava com 109 (era este mesmo o apelido do jogador) , Antoninho,
Paulo, Odair e Pinhegas. O time fez bonito, ficando apenas dois pontos atrás
do São Paulo. Mas os santistas começaram a perceber que, daí para frente,
se quisessem medir forças com o Trio de Ferro, teriam de se esforçar para
montar um time realmente fora-de-série. Nos anos seguintes, começam a aparecer
os preciosos nomes que, a partir da metade da década 50, fariam os santistas
esquecer definitivamente os 20 vinte anos de fila. Primeiro, vieram o zagueiro
Formiga, Hélvio, o goleiro Manga, Del Vecchio e Tite. Com eles, o Santos
chegou perto de ganhar o Campeonato Paulista de 1950. Lutou até a penúltima
rodada pelo título, mas terminou novamente em segundo lugar, ao lado do
São Paulo.
Em 1953, foi a vez de Álvaro, Feijó e Vasconcelos. Em 1954, chegou Zito,
o gerente que faltava para distribuir o jogo e organizar as jogadas do time.
Foi esse elenco que começou a resgatar o orgulho santista. Em 1954, o Santos
terminou o Paulistão em quarto lugar, mas foi o único clube a vencer o Corinthians,
campeão do IV Centenário, no turno e no returno (2 x 0 e 4 x 1). Em 1955,
quando o Campeonato Paulista começou, o time já contava com Pepe, Pagão
e Ramiro. Finalmente, a equipe estava pronta para vôos mais altos.
1955
- 1969 O dono Pelé
O Santos que entrou em campo com Manga; Hélvio e Feijó; Ramiro, Formiga
e Urubatão; Tite, Negri, Álvaro, Del Vecchio e Pepe, na Vila Belmiro, para
enfrentar o Taubaté na última rodada do Campeonato Paulista de 1955, tinha
uma missão: vencer. Só a vitória impediria o fiasco de um 21° ano sem título.
A campanha santista não tinha sido das mais regulares. Apesar das 18 vitórias
e dos 69 gols marcados até então, o Santos tinha perdido cinco vezes na
temporada e trazia na lembrança os incríveis 8 x 0 que a Portuguesa lhe
aplicara no Pacaembu. Na verdade, o time já poderia ter conquistado o título
na penúltima rodada do campeonato, contra o Corinthians, mas foi derrotado
por 3 x 2, em plena Vila Belmiro. Agora, se empatasse com o Taubaté, teria
de disputar com o Timão uma melhor de três no Pacaembu e correr o risco
de amargar mais uma vez o segundo lugar.
Bem que o fantasma do vice chegou a rondar a Vila Belmiro naquela tarde
de 13 de novembro. Aos 17 minutos do primeiro tempo, o Santos abriu o marcador
com Álvaro, mas logo no começo da segunda etapa, o Taubaté empatou, com
um gol de Berro. O sofrimento que se seguiu foi atroz. O Santos pressionava,
o tempo encurtava, a torcida roía as unhas, até que, faltando 7 minutos
para acabar o jogo, Pepe acertou um daqueles chutes de fora da área que
o tornariam famoso como o Canhão da Vila: Peixe 2 x 1. Depois de 20 anos,
o título paulista descia novamente a Serra. Entre os adversários, uma piada
circulou rapidamente. No ritmo em que o Santos conquistava seus títulos,
de 20 em 20 anos, o próximo Paulista só viria em 1975. Nunca uma gozação
voltou-se tão cruelmente contra os próprios gozadores. Em 1956, depois de
empatar com o São Paulo no número de pontos em primeiro lugar, o Peixe venceu
o tricolor por 4 x 2 em uma partida extra e conquistou o bicampeonato. Era
o início de uma série de conquistas que, durante os próximos 15 anos, transformaria
os integrantes do Trio de Ferro em meros coadjuvantes do Paulistão.
Indiscutível hegemonia
Dos 15 Campeonatos Paulistas disputados entre 1955 e 1969, o Santos faturou
11. Fez mais: venceu cinco vezes seguidas a Taça Brasil; quatro Torneios
Rio-São Paulo; e um Torneio Roberto Gomes Pedrosa, (o Robertão), antecessor
do Campeonato Brasileiro. Além, é claro, de duas Libertadores da América,
dois mundiais interclubes e um sem-número de torneios no exterior.
Por trás de tudo isso sempre existiu Pelé, o garoto que um dia, aos 16 anos,
cruzou os portões da Vila Belmiro para se tornar o maior jogador de todos
os tempos. Quando naquela despretensiosa tarde de setembro de 1956
o técnico Lula chamou o rapaz para entrar no lugar de Del Vecchio, em um
amistoso contra o Corinthians de Santo André, ninguém podia imaginar que
o estreante, apelidado pelos colegas de Gasolina (pelos seus piques), seria
a chave de um futuro que superaria os sonhos mais mirabolantes dos torcedores
santistas. O jogo terminou 7 x 1 para o Santos. E o gol de Pelé na estréia
teria passado despercebido não fosse pelo fato de inaugurar uma série que
cresceria em proporção geométrica. Mas, até o dia de sua morte, o goleiro
Zaluar, do Corinthians de Santo André, orgulhou-se de ter tomado, no meio
das pernas, o gol número 1 do Rei.
As primeiras manifestações do fenômeno começaram a ser observadas em 1957.
Nesse ano, o Santos chegou perto de ser tricampeão paulista - até hoje,
os santistas reclamam dos dois gols anulados pelo árbitro britânico Johann
Pribyl na partida decisiva contra o São Paulo. Mas Pelé, que passara a maior
parte do campeonato no banco e só entrou no time em definitivo depois que
o titular Vasconcelos fraturou uma perna, saiu artilheiro da competição,
com 17 gols.
Os anos de ouro, porém, começariam de fato em 1958.
Naquele ano, o Santos voltou a ser campeão paulista, e Pelé tornou-se artilheiro
da competição com 58 gols, marca jamais igualada por qualquer outro goleador
em qualquer competição no Brasil. Daí para a frente, durante mais de dez
anos, o Peixe só perdeu Campeonatos Paulistas por dois motivos: devido ao
cansaço provocado pelas excursões ao exterior, para exibir Pelé e ganhar
títulos internacionais - como em 1959 - ou quando o time ficou temporariamente
sem o Rei - caso de 1966, quando Pelé passou metade do campeonato recuperando-se
de uma contusão. Entre esses raros fracassos, o Santos foi tricampeão paulista
duas vezes (1960, 1961 e 1962; 1967, 1968 e 1969) e bicampeã em 1964 e 1965.
Se as conquistas estaduais do Santos de Pelé ultrapassaram as melhores expectativas,
os títulos nacionais não fizeram por menos. Já em 1959, na condição de campeão
do Estado, o time ganhou o direito de disputar sua primeira Taça Brasil,
torneio que decidia os candidatos à Libertadores. O Santos chegou às finais,
mas levou a pior na melhor de três contra o Bahia. Nos anos seguintes, porém,
tornou-se um especialista em vencer essa competição, que faturou por cinco
vezes consecutivas. A primeira conquista veio em 1961, quando, com um expressivo
5 x 1 na Vila Belmiro, o Santos despachou o Bahia, vingando-se da derrota
de 1959. Depois vieram o bi, em 1962, contra o Botafogo; o tri em 1963,
novamente contra o Bahia; o tetra, em 1964, contra o Flamengo; e o penta,
em 1965, contra o Vasco.
Nos tempos áureos
do Torneio Rio-São Paulo, quando a rivalidade entre as duas capitais se
alimentava dos títulos conquistados por seus clubes nesta competição, ninguém
contribuiu tanto para a afirmação do futebol paulista quanto o Santos. Até
a última edição do torneio, em 1966 (as disputas seriam interrompidas por
27 anos), dos 13 campeões feitos por São Paulo, contra os oito do Rio de
Janeiro, o Santos era o maior: tinha vencido em quatro oportunidades (1959,
1963, 1964 e 1966). O Corinthians ainda igualou essa marca, mas nenhum outro
clube, nem do Rio nem de São Paulo, conseguiu superá-la na era Pelé. Como
se não bastasse, o Santos ainda ganhou, em 1968, a Taça de Prata, nome com
que ficou mais conhecido o Torneio Roberto Gomes Pedrosa, que constituiu
a primeira tentativa de se fazer um campeonato nacional. O título veio a
calhar, porque calou a boca dos críticos que começavam a prognosticar o
fim dos dias de glória das grandes conquistas do Peixe.
O mundo a seus pés
Foi no cenário internacional, no entanto, que o Santos de Pelé brilhou com
mais intensidade. Entre os inumeráveis troféus colhidos pelo Peixe nos campos
do mundo, nada marcou tanto os anos de ouro do grande Santos como as conquistas
do bicampeonato da Libertadores da América e do bi mundial interclubes,
em 1962 e 1963. A Libertadores de 1962 seria até fácil de ganhar, não fosse,
mais uma vez, a atuação polêmica de um árbitro. Na primeira fase, o Santos
passou sem sustos pelo Municipal da Bolívia e o Cerro Porteño do Paraguai.
Na segunda, eliminou o Universidad Católica, com um empate de 1 x 1 no Chile
e vitória de 1 x 0 no Brasil. Mesmo sem Pelé, que se recuperava da contusão
sofrida na Copa do Mundo do Chile, o primeiro jogo da decisão contra o Peñarol,
no Uruguai, não ofereceu maiores problemas: 2 x 1 para o Peixe, com gols
de Pagão e Coutinho.
Ainda sem Pelé, o Santos entrou em campo na Vila Belmiro precisando apenas
de um empate no segundo jogo para ser campeão sul-americano. O placar estava
2 x 1 para o Peñarol, quando os uruguaios fizeram um gol irregular. Em meio
à confusão, a partida foi interrompida e reiniciada mais tarde. O Santos
chegou ao empate (3 x 3), resultado que lhe daria o título, mas o juiz chileno
Carlos Robles colocou na súmula que o jogo havia terminado após o terceiro
gol dos uruguaios, considerando o que aconteceu depois mero amistoso. Os
brasileiros protestaram junto à Confederação Sul-Americana, mas não houve
jeito: teria de haver um terceiro jogo em campo neutro. O local escolhido
foi Buenos Aires. Na capital argentina, Pelé voltou ao time, marcou dois
gols, e o Santos venceu por impiedosos 5 x 0. Estava carimbado o passaporte
para enfrentar o campeão europeu no Mundial Interclubes. O Benfica (Portugal)
que o Santos enfrentou em 1962 tinha um esquadrão de encher os olhos. Eusébio,
Coluna, Simões, Costa Pereira eram só algumas das estrelas que brilhavam
na constelação do campeão europeu. Os portugueses trataram a partida como
um verdadeiro tira-teima para decidir quem era o rei: Pelé ou Eusébio. No
primeiro jogo, no Maracanã, o Santos venceu por 3 x 2, com exibição perfeita
e dois gols de Pelé. Mas o melhor ficou guardado para a segunda partida:
5 x 2 para o Peixe, com direito a show e três gols de Pelé, em pleno estádio
da Luz, em Portugal. No final, os aplausos da torcida portuguesa surgiam
como reconhecimento sobre quem era o verdadeiro rei do futebol e qual dos
dois times era o melhor do mundo.
Que venha o Milan
A segunda Libertadores, em 1963, não foi menos dramática que a primeira.
Depois de eliminar o Botafogo-RJ em dois jogos (1 x 1 no Pacaembu, com gol
de Pelé no último minuto; e 4 x 0, no Maracanã), o Santos classificou-se
para enfrentar na final o Boca Juniors, da Argentina. O primeiro jogo, no
Maracanã, terminou com vitória do Peixe por 3 x 2. O segundo, disputado
sob uma pressão terrível da torcida argentina no estádio La Bombonera, terminou
empatado no primeiro tempo em 0 x 0. Quando Sanfilipo fez o gol do Boca
logo no início da segunda etapa, os dirigentes do clube argentino foram
procurar o chefe da delegação santista para marcar o terceiro jogo em campo
neutro, certos de que não haveria chance de o Santos mudar o placar. Mas
em casos como esses os santistas estavam acostumados a contar a munição
extra de uma dupla de artilheiros sem precedentes no Brasil: Coutinho e
Pelé. Com um gol de cada um, o Santos virou a partida e saiu para comemorar
a conquista de seu segundo título sul-americano.
Nunca, porém, uma vitória foi tão comemorada como o bi interclubes, conquistado
contra o Milan, em 1963. O Milan estava recheado de lendas do futebol italiano
de todos os tempos: Rivera, Maldini, Trapattoni, além dos brasileiros Amarildo
e Altafini, mais conhecido entre nós como Mazzola. Além do mais, acabara
de vencer a Seleção Brasileira bicampeã mundial em um amistoso por um indiscutível
placar de 3 x 0. No primeiro jogo, em Milão, os brasileiros do Milan fizeram
a festa. Com dois gols cada um, impuseram um sonoro 4 x 2 ao time brasileiro,
que só pôde oferecer em troca dois golaços de Pelé. Quando desembarcou no
Rio para o segundo jogo, no Maracanã, a delegação do time italiano tinha
um motivo extra para comemorar: Pelé, que saíra machucado no confronto anterior,
estava fora da partida. Quando o jogo começou, as perspectivas pioraram.
No fim do primeiro tempo, o time italiano já batia o brasileiro por 2 x
0. Sem Pelé, o Santos parecia caminhar rapidamente para o naufrágio.
Mas nem só de Pelé vivia o Peixe. Com atuações soberbas de Mengálvio e principalmente
Pepe, que fez dois gols, o Santos virou o jogo e saiu com a vitória por
4 x 2. Esse resultado forçou a marcação de uma partida-desempate. Como a
agenda do Milan estava apertada, decidiu-se que o terceiro jogo teria lugar
dois dias depois no próprio Maracanã. Em um encontro nervoso, marcado pela
violência e pela omissão do árbitro Juan Brozzi, da Argentina, os pontapés
comeram soltos de lado a lado. Aos 29 minutos da etapa final, Almir sofreu
pênalti de Maldini. Inconformado, o italiano exagerou na reclamação e acabou
expulso. O zagueiro Dalmo cobrou com frieza e fez o gol. Depois, com um
homem mais, por mais que o Milan insistisse em partir para cima do Santos,
foi só administrar o placar até o final. O time de Pelé tornou-se bicampeão
mundial, mostrando que era o dono do mundo mesmo sem Pelé.
Aliás, quando se pensa na escalação do Peixe que entrou em campo para enfrentar
o Milan - Gilmar; Ismael, Mauro e Dalmo; Haroldo e Lima; Dorval, Mengálvio,
Coutinho, Almir e Pepe - não é possível deixar de notar que o Santos também
sentiu a falta de Calvet e Zito. É que a escalção do Santos da época se
declinava por música: Gilmar; Mauro e Dalmo; Calvet, Zito e Lima; Dorval,
Mengálvio, Coutinho, Pelé e Pepe.
De fato, quando se tenta formar a seleção do Santos de todos os tempos,
é quase impossível superar a tentação de escalar o time-base das grandes
conquistas internacionais. Mesmo que se discorde deste ou daquele jogador
nesta ou naquela posição, não há como negar que o melhor time do mundo tinha,
além do melhor jogador do mundo, um dos melhores especialistas do mundo
em cada posição. Das defesas de Gilmar à classe de Mauro, passando pela
gerência de Zito até um ataque que tinha os chutes de Pepe, a inteligência
de Coutinho e a genialidade de Pelé, nunca nenhum outro time no mundo consegiu
reunir um elenco tão forte quanto aquele. Por isso, quando os adversários
do Peixe começaram a bradar, a partir da década de 70, que os dias de glória
do grande Santos tinham chegado ao fim, é preciso dar a eles uma certa razão.
De fato, tempos como aqueles só se vivem uma vez na história.
1970 - 1984 Uma conquista aqui, outra ali...
Pelé ainda estava às vezes em campo. Às vezes, não. Mas, mesmo quando ele
estava ausente, o Santos ia beliscando seus títulos. Foi o que aconteceu
na Taça
São Paulo de 1970, quando desfalcado dos cobras que estavam a serviço
da Seleção, o técnico Antoninho armou um time de reservas. O bravo elenco
deu conta de São Paulo, Palmeiras e Corinthians e ganhou o torneio. Com
o passar dos anos, no entanto, as conquistas se tornariam mais escassas.
Outro título paulista, só em 1973, assim mesmo dividido com a Portuguesa.
Campeões do primeiro e do segundo turno, Santos e Lusa empataram a final em 0 x 0, nos 90 minutos e na prorrogação. Nos pênaltis, o Santos chegou a 2 x 0. A Portuguesa errou o terceiro, ainda poderia empatar, mas, mesmo assim, o árbitro Armando Marques deu por encerrada a série de cobranças, declarando o Santos campeão. Quando percebeu o erro, quis voltar atrás, mas já era tarde: a Portuguesa havia deixado o Morumbi. No dia seguinte, a Federação dividiu o título, decisão que não agradou a ninguém.
Pior que a festa pela metade, só
a despedida de Pelé, que aconteceu no ano seguinte. No dia 2 de outubro
de 1974, aos 22 minutos do primeiro tempo, em uma partida contra a Ponte
Preta pelo Campeonato Paulista, Pelé ajoelhou-se no centro do gramado de
Vila Belmiro. Abriu os braços em cruz, girando para ser visto nos quatro
cantos do estádio e despediu-se do time que defendeu com genialidade e arte
por exatos 18 anos. Vendo aquele gesto, os torcedores compreenderam que,
mais do que o eterno ídolo, era toda uma era de esplendor e magia, para
sempre inigualável no futebol mundial, que estava abandonando os gramados.
O silêncio angustiante no estádio refletia a certeza de que, daí para a
frente, o Santos teria de disputar suas vitórias com as armas dos mortais.
Restou Clodoaldo
Comandado pelo talento de Clodoaldo, tricampeão no México, o Santos manteve-se
de pé, mas só voltaria a brilhar em 1978, com um time de jovens que entrou
para a história como os "Meninos da Vila". Nílton Batata pela ponta-direita,
João Paulo pela esquerda, o clássico Pita com a camisa 10 e o goleador Juary
pelo meio eram os destaques da equipe. A experiência no meio de campo era
garantida pelo capitão Aílton Lira, um meia habilidoso e excelente cobrador
de faltas. Foi com esses craques que o Santos entrou em campo nas partidas
finais do Campeonato Paulista de 1978 para combater o São Paulo de Murici
e Zé Sérgio, campeão brasileiro no ano anterior. O primeiro jogo da decisão
terminou 2 x 1 para o Peixe, com gols e atuação infernal dos meninos Pita
e juary.
No segundo jogo, o empate de 1 x 1, com um gol do são-paulino Zé Sérgio no último minuto, provocou a decisão em uma terceira partida. O Santos, desfalcado de Clodoaldo e João Paulo, por ter melhor campanha no campeonato, precisava apenas de um empate para ser campeão. Mas o São Paulo venceu por 2 x 0. Como o confuso regulamento do Campeonato previa uma prorrogação caso os times terminassem empatados por pontos, o Santos disputou o tempo extra de novo com a vantagem do empate. Como não houve gols na prorrogação, o Santos conquistou o seu primeiro título estadual após a era Pelé.
Entre promoções de juniores que não deram em nada e contratações frustradas
de veteranos - como o volante Chicão e o meia Palhinha, em 1981 -, a equipe
voltaria a se reestruturar. Em 1983, depois da chegada de Paulo Isidoro
e do centroavante Serginho, então duas vezes artilheiro do Campeonato Paulista,
o time chegou perto de ser campeão brasileiro. Mas perdeu a batalha para
o Flamengo de Zico, no Maracanã. Em 1984, reforçado pelo extraordinário
goleiro uruguaio Rodolfo Rodríguez e pela velocidade do ex-são-paulino Zé
Sérgio, o Santos chegou novamente às finais do Paulista. Em um campeonato
disputado em turno e returno e todos contra todos, como no passado, o Peixe
chegou à partida decisiva contra o Corinthians. O Santos dominou do começo
ao fim, e o triunfo
veio aos 27 minutos do segundo tempo com um gol de Serginho. Um luxo, porque
o empate já bastava.
1985
- 2000 Pés no chão e Giovanni
Depois do desmonte gradativo da equipe campeã paulista de 1984, o Santos
não voltou mais a ser o grande time que era. Nos últimos quinze anos, tentou-se
de tudo. A diretoria contratou jogadores consagrados, como Osvaldo, Mendonça
e Éder. Tentou promover desconhecidos: Tuíco, Edelvan e os japoneses Maezono
e Sugawara. Nada deu resultado. Nesse meio-tempo, sob efeito do que as últimas
diretorias chamaram de "política dos pés no chão", o time só chegou a uma
decisão: a do Campeonato
Brasileiro de 1995, contra o Botafogo-RJ. Pelo menos foi uma campanha
que serviu para coroar um novo ídolo: Giovanni. Dono de um estilo clássico,
que fazia lembrar grandes jogadores do passado, como o vascaíno Ipojucã
e Sócrates, ele foi o maestro dos inesquecíveis 5 x 2 sobre o Fluminense
nas semifinais, quando era preciso vencer por uma diferença mínima de três
gols para ir à final.
Nas duas partidas decisivas, porém, faltou sorte ao Santos. A derrota no
Rio de Janeiro (2 x 1) foi normal. E até aceita com tranqüilidade: afinal,
bastaria uma vitória simples em São Paulo para ficar com a taça. Mas no
jogo do Pacaembu, o árbitro mineiro Márcio Rezende de Freitas cometeu dois
erros capitais: validou um gol impedido do botafoguense Túlio e anulou um
legítimo do santista Camanducaia. Final:
1 x 1, e o título ficou na mão dos cariocas.
Entre 1996 e 1999, a política de poucos investimentos continuou a mesma.
Mesmo assim, sob o comando de Wanderley Luxemburgo, e jogando o fino, o
clube faturou o Torneio Rio-São Paulo de 1997. Até que, no início do ano
2000, a perspectiva da assinatura de um contrato de parceria trouxe novos
e bons ares à Vila Belmiro. De uma só vez, chegaram craques do nível de
Carlos Germano, Márcio Santos, Robert e Rincón.
A força estava de volta. Nem mesmo a derrota para o São Paulo na final apagou
o brilho da ótima campanha da equipe no Campeonato Paulista. O grande Peixe
não desanimou e, para o Campeonato Brasileiro, contratou ninguém menos que
Edmundo, o Animal - que, aliás, na Vila passou a ser chamado de "Tubarão".