A Polícia Federal em Roraima anunciou na terça-feira (3) a conclusão da retirada de não-índios da reserva indígena Raposa/Serra do Sol. A saída completa de não-índios ocorreu quase oito meses após o STF (Supremo Tribunal Federal) manter, em março deste ano, a demarcação contínua da reserva, decisão que permite só a permanência de índios na região.
Nos próximos dias, a PF dará início à operação batizada de "rescaldo", na qual organizará policiais para impedir a possível volta de não-índios e garantir a distribuição de terras para as comunidades indígenas de todas as etnias da reserva.
Principal produtor de arroz antes da demarcação da reserva, Paulo César Quartiero se mudou para Boa Vista após ser retirado de sua propriedade. "Estou desempregado, procurando alternativas", diz.
Ex-prefeito de Pacaraima, maior cidade dentro da reserva, Quartiero diz que está "vivendo da gordura acumulada", referindo-se ao dinheiro que acumulou quando era grande produtor. "Eu perdi dois terços do meu capital. Agora estou me 'deliciando' em consumir o terço restante", afirma.
Com 1,7 milhão de hectares, a área da terra indígena Raposa/Serra do Sol corresponde a cerca de 7,7% do território de Roraima e abriga 194 comunidades indígenas dos povos macuxi, taurepang, patamona, ingaricó e wapichana. Aproximadamente 18 mil índios que habitam a região.
Indígenas fazem parceria com MSTApós a decisão do Supremo, as comunidades indígenas de Roraima começaram a buscar parcerias para produzir arroz. O MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra) foi a primeira entidade a topar um acordo com lideranças da reserva.
O movimento se dispôs a treinar técnicos indígenas em suas escolas no Rio Grande do Sul e doar 10 toneladas de sementes de arroz orgânico. Em um segundo momento, a consultoria poderá ocorrer na própria reserva.
Júlio Macuxi, do Conselho Indígena de Roraima (CIR), é um dos mais entusiasmados com a parceria com o MST. Ele diz que o movimento é a única entidade com tecnologia na produção do arroz orgânico. Na avaliação do líder indígena, o MST terá a oportunidade de mostrar que não é apenas uma entidade que "fica batendo nos outros". "O MST tem tecnologia, e é isso que nós queremos."
À frente do departamento de Projetos e Convênios do CIR, Júlio avalia que o campo de expansão do MST na Amazônia está longe das terras indígenas que é de usufruto apenas das comunidades nativas. "Na Amazônia tem muito grileiro e gente sem terra e sem moradia no entorno das grandes cidades como Manaus e Belém", observa. "A publicidade do MST não vai contra os nossos interesses e direitos."
*Com informações da Agência Estado