Jornalista que teve gravador detido por Requião diz que foi tomado de "surpresa"

Camila Campanerut
Do UOL Notícias
Em Brasília

O repórter Victor Boyadjian, que teve seu gravador tomado pelo senador Roberto Requião (PMDB-PR) nesta segunda-feira (25), afirmou que foi surpreendido pela atitude do parlamentar ao ser contrariado com uma pergunta sobre aposentadoria.

"Fui tomado de surpresa quando o senador pegou o gravador de minha mão. Eu estava tentando desligar, imagine eu. Ele disse que queria apagar a entrevista e saiu do plenário em direção ao gabinete dele dizendo que estava louco para bater num moleque. Ele não respondeu a mim. Eu pedia para ele devolver o gravador e ele não respondia a mim. Eu achei prudente não entrar no gabinete com ele", disse o repórter da rádio Bandeirantes. O gravador foi devolvido e, depois, o cartão de memória também, mas com a entrevista apagada.

A ação do parlamentar ocorreu logo depois que o jornalista o questionou sobre a aposentadoria que ele recebe como ex-governador do Paraná. A conversa ocorreu durante uma entrevista coletiva em que Requião criticava o estado das contas públicas e a necessidade de se conter despesas na administração federal.

Boyadjian foi acompanhado do presidente do comitê de imprensa do Senado, Fábio Marçal, até a Polícia Legislativa da Casa para registrar ocorrência do episódio, mas a polícia disse que apenas a Corregedoria da Casa é que poderia atuar em casos que envolvem parlamentares. Devido à ausência de um corregedor do Senado, o jornalista não conseguiu registrar a ocorrência.

O Sindicato dos Jornalistas do Distrito Federal repudiou a ação do senador e se solidarizou com o repórter. "A ação foi de arbitrariedade que não é prerrogativa de nenhuma autoridade. Espero que a censura volte ao tempo sombrio ao qual ela pertence [o passado]", disse Macário.

Marçal informou que irá entregar amanhã à Mesa Diretora do Senado uma representação contra o senador, requerendo as imagens do circuito interno da Casa e pedindo a nomeação de um corregedor para verificar quais providências devem ser tomadas sobre o caso.

O cartão de memória do gravador foi entregue pelo filho do parlamentar ao repórter. "Não sou político. Não faço parte disso. Eu só vim entregar o chip para o menino [repórter]", disse. Após a devolução do equipamento, o jornalista ainda não havia decidido se registraria na Polícia Civil um boletim de ocorrência contra Requião.

A assessoria do senador ainda não respondeu aos chamados da reportagem do UOL Notícias.

Repercussões no Twitter

"Acabo de ficar com o gravador de um provocador engraçadinho. Numa boa, vou deleta-lo", disse o senador peemedebista em sua página no Twitter por volta das 15h40. No microblog, o parlamentar recebeu inúmeras respostas de internautas que o criticavam pelo ato de censura.

Ainda no twitter, Requião disse ainda “sou dono da entrevista”. Por volta das 17h20, o senador escreveu: "O jornalista agressor esta conseguindo o sucesso que pretendeu, e a 'catigoria' esta alvoroçada. A discussão é boa."

  • Twitter do senador Roberto Requião

"Cavalheiro"

Mais cedo, o presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP) disse que apesar de não saber detalhes do episódio, avaliou-o como um “mal-entendido”.

“Não conheço esse fato. Acho que o senador Requião é um cavalheiro. Deve ter ocorrido um mal-entendido porque ele não deve ter feito isso”, defendeu.

Ao ser questionado sobre a ausência de um corregedor na Casa, Sarney não respondeu.

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